«Calcutá», «Jesus Christ SuperStar» ou o recente «Thérèse Martin» são trabalhos que a jovem atriz realizou, em encenações de Matilde Trocado, onde afirma o espaço para «questionamentos» e uma ligação entre todos os envolvidos «em projetos bonitos e que levam a lugares especiais»

Lisboa, 25 mar 2026 (Ecclesia) – A atriz Leonor Prata Felgar disse hoje que a Igreja “precisa de espaços em branco”, “não ocupados”, onde as pessoas que “não percebem as regras” possam encontrar-se e pintar “uma folha em branco com muitas cores dada por Deus”.
“Deus deu-nos uma pintura gigante para pintarmos com muitas cores e pediu que com amor, verdade, fé e harmonia fizéssemos o melhor, alguns com regras que percebem outros que as questionam. Acho que falta espaço para pessoas que não sabem exatamente onde se encaixam, perceberem porquê que há estas regras”, indica à Agência ECCLESIA, reconhecendo dificuldade em lidar com orientações que “castigam”.
A atriz, de 24 anos, assume que Deus não é para si “uma incógnita”, mas questiona a forma como lhe pedem para o seguir, afirmando que prefere “encontrar espaço para fazer perguntas”.
“Tenho dificuldade em perceber com qual grupo ou carisma me identifico mais, com qual proposta, porque sou uma pessoa que questiona muito. Vivemos a espiritualidade de forma muito diferente, acho que é difícil às vezes encontrar um lugar onde eu pertenço. Acho que a Igreja precisa de espaços em branco, precisa de espaços não ocupados”, reconhece.
Leonor Felgar assume ter sido “muito estimulada” em criança, ter tido “muita liberdade para ser quem queria ser, para fazer”: “Acho que a minha criatividade vem daí”.
Ao recordar o seu crescimento, a jovem recorda a dificuldade sentida em compreender o “ensino regular”, “o estar tanto tempo sentada, a olhar para o quadro”, “sentir que não era boa naquilo que ensinavam”, mas assinala ter tido a sorte de os pais a colocarem cedo em aulas de teatro.
Hoje docente de teatro, Leonor fala do perigo de o ensino não ajudar uma criança a descobrir: “Se uma criança ou um jovem sente que não é bom a nada, é porque alguma coisa está muito errada. É porque a escola não está a ajudar a pessoa a descobrir-se. É importante encontrar um espaço em que somos bons em alguma coisa porque o nosso foco vai ser esse”.
O foco de Leonor Felgar cedo foi o teatro: “Sou despistada – e a folha em branco ajuda a focar-me – mas na representação e no trabalho, foco-me automaticamente”.
“Quando me pedem para escrever uma história para mim é mais difícil porque tenho algum medo de não conseguir chegar aos outros. Eu escrevo muito para mim. Sinto-me, pelo corpo, pela voz, a contar uma história e criar uma personagem. Para chegar à personagem tenho de quase contactar com uma espiritualidade que pode não ser a minha ou pode aproximar-se da minha. Em que é que aquela personagem acredita? É muito interessante”, explica.
Leonor Felgar assume que a arte, qualquer uma, serve para contar histórias e não concebe um mundo em que a arte não esteja presente.
“A arte é uma forma de pôr as pessoas a pensar, a agir, a mover grupos, massas, ou uma só pessoa. A arte é algo muito maior do que nós. Eu não tenho forma de justificar porque é que as pessoas vão ver um espetáculo e saem impactadas, mas a arte serve para isso”, traduz.
Sem a expressão artística, Leonor acredita que o mundo “seria mais pobre” e o ser humano seria “metade do que é”.
“A natureza acredito que fosse sobreviver. Às vezes quando falamos de músicas ou textos, dizemos que Deus pintou um quadro. E eu acredito nisso. As coisas são criadas de alguma forma e para mim a arte é a criação”, explica.
A jovem atriz, para além de outros projetos em que participou encenados por Matilde Trocado, participou recentemente no musical «Thérèse Martin», inspirado na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus, e destaca o projeto “bonito” que leva os participantes “a lugares especiais, nem que seja por questionamentos”.
“O musical «Thérèse Martin» veio numa fase em que, para mim, foi importante questionar. A minha relação com a Matilde vai muito para lá do profissional: é amiga, é irmã, é mãe, é tudo e na sala de ensaio ela dá muitas possibilidades, o que não acontece em todos os projetos, e estabelece-se uma grande ligação entre todos. Eu não sei bem o que ela faz, mas isso acontece com todos os textos. E as pessoas aproximam-se quando fazem projetos especiais e bonitos, não há a menor dúvida”, reconhece.
A conversa com Leonor Prata Felgar, na véspero do Dia Mundial do Teatro, pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta noite na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».
LS
