CIBERHUMANITAS – Silêncio e Palavra

Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Vivemos rodeados de palavras. Palavras que informam, persuadem, entretêm, discutem, convencem. A nossa época é talvez uma das mais ruidosas da história humana — não apenas pelo som, mas pela densidade incessante de mensagens. Cada dispositivo que trazemos no bolso é uma pequena torre de Babel portátil. Tudo fala. Tudo comunica. Tudo reclama atenção.

No entanto, quando pensamos na possibilidade de Deus falar, imaginamos quase sempre… uma palavra. Talvez seja por isso que tantas pessoas dizem não escutar Deus. Esperam uma voz e encontram silêncio. Mas talvez o problema não seja o silêncio. Talvez seja precisamente o contrário: talvez o silêncio seja a própria voz de Deus.

Se pararmos um momento e tentarmos escutar aquilo que se passa dentro de nós — os pensamentos que surgem, as emoções que se organizam lentamente, as pequenas perceções que nascem quase sem forma — descobrimos algo curioso. A intimidade humana não fala como as pessoas falam. Não tem frases completas, nem um tom audível, nem um interlocutor definido. O que encontramos é uma espécie de quietude fecunda, um espaço de encontro entre os nossos pensamentos, emoções, memórias, onde algo se manifesta sem precisar de som. Quando prestamos atenção a esse espaço, não escutamos propriamente palavras. Escutamos silêncio. E nesse silêncio compreendemos muitas coisas.

Compreendemos o que sentimos. Compreendemos o que nos inquieta. Compreendemos, por vezes, o que devemos fazer.

Talvez por isso alguns mestres espirituais tenham dito, ao longo dos séculos, que Deus fala sobretudo no silêncio. Não porque Deus seja silencioso, mas porque o silêncio é a única linguagem suficientemente profunda para alcançar o interior humano. Deus não compete com o ruído do mundo. Deus espera que o ruído se aquiete.

Escutar Deus pode começar, portanto, por uma tarefa aparentemente simples e extraordinariamente difícil: criar silêncio suficiente dentro de nós para que a nossa própria intimidade se torne audível.

Nesse lugar interior, onde as emoções se encontram com a memória e a consciência observa discretamente o que acontece, a voz de Deus não aparece como uma frase pronunciada. Surge antes como uma perceção clara, uma espécie de evidência tranquila, uma luz que não precisa de explicar demasiado.

A voz de Deus chama-se silêncio.

Mas seria um erro pensar que este silêncio basta.

A experiência humana mostra algo igualmente verdadeiro: muitas das transformações mais importantes da nossa vida começaram com uma palavra dita por alguém. Uma frase inesperada. Um conselho simples. Uma observação quase casual. Quantas vezes já nos aconteceu escutar alguém dizer algo que parecia dirigido exatamente a nós? Não porque a pessoa soubesse o que estávamos a viver, mas porque aquelas palavras chegaram no momento certo, com o tom certo, na circunstância exata. Nesses momentos percebemos algo estranho e profundamente humano: o significado de uma palavra não está apenas no que é dito, mas no instante em que é escutado.

Uma mesma frase pode passar despercebida durante anos e, de repente, tornar-se decisiva. É aqui que a palavra ganha uma dimensão inesperada. Não é apenas comunicação entre pessoas. Pode tornar-se mediação. Na tradição cristã, há uma expressão simples que descreve bem esta realidade é o Verbo que se fez palavra. Jesus não apenas viveu em silêncio interior. Jesus falou, ensinou, dialogou e contou histórias. A palavra tornou-se instrumento de encontro e de transformação. Isso sugere algo importante: Deus não fala apenas dentro de nós. Deus fala também através dos outros. E, curiosamente, muitas vezes o outro não sabe que está a ser instrumento dessa comunicação. Talvez pense que está apenas a conversar. Talvez esteja apenas a partilhar uma experiência ou uma opinião. Mas para quem escuta, aquela palavra pode tornar-se resposta que procurava.

Parece-me que escutar verdadeiramente alguém é uma forma de atenção espiritual. Não sabemos quando uma simples conversa pode transportar algo maior do que a intenção de quem fala. Entre o silêncio interior e a palavra exterior existe, assim, uma espécie de arquitetura invisível da escuta. Por um lado, o silêncio permite-nos aceder à profundidade do nosso próprio ser. Sem esse silêncio, tudo permanece superficial, agitado e fragmentado. Por outro lado, a palavra que vem do outro pode iluminar aquilo que, no silêncio, ainda não conseguimos compreender. O silêncio prepara. A palavra revela. O silêncio abre espaço. A palavra atravessa esse espaço.

Talvez seja nesta dupla modalidade que a escuta de Deus acontece realmente. Não apenas recolhidos no interior da consciência, nem apenas atentos às vozes que nos rodeiam, mas vivendo entre as duas. Entre o silêncio que nos habita e a palavra que nos encontra. Talvez seja nesse intervalo — tão discreto quanto essencial — que Deus continua a falar no mundo.


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