«Que deixe de ser estranho ver uma mulher no altar», refere a investigadora da Faculdade de Teologia

Lisboa, 06 mar 2026 (Ecclesia) – Sónia Monteiro, investigadora da Faculdade de Teologia, lamenta que as decisões sobre o diaconado feminino apontem para um voltar atrás e afirma que a “sociedade patriarcal” determina a forma de viver e causa desigualdades entre homem e mulher.
“Já encaixamos o discurso, mas do ponto de vista pragmático e da forma como vivemos, as formas que escolhemos, ainda não se adequam ao discurso que todos dizemos, de que a pluralidade é importante”, afirma a investigadora da Faculdade de Teologia, em entrevista ao Programa ECCLESIA (RTP2).
Doutorada em Teologia em Nova Iorque, com uma investigação sobre a experiência humana do perdão diante do mal radical, Sónia Monteiro rejeita a “ilusão” de que a igualdade entre homens e mulheres no espaço público e na relação com a sociedade e com a Igreja seja “uma questão do passado”.
Ainda vivemos numa sociedade em que o paradigma, por todo o contexto histórico, por todas as camadas que herdamos e que também respondemos por elas, parece-me que o paradigma ainda é do homem. E por causa disso ainda há determinadas atitudes, comportamentos que não reconhecem o feminino e que não respeitam a dignidade da mulher”.
Sónia Monteiro apontou como exemplo a questão salarial e a igualdade de oportunidades, sem esquecer “outros comportamentos nas sociedades” que revelam modos de vida “num modelo do homem como paradigma”.
“A Igreja Católica vive num contexto, vive numa cultura, padece dos mesmos problemas e, por vezes, pode até extrapolar ou exagerar alguns desses problemas”, alertou.
Para a teóloga, a Igreja Católica não terá sido “criadora” de formas de organização e expressão marcadamente patriarcais, mas “a cultura interferiu na forma como a Igreja se organizou e se entende”
“As palavras que escolhemos para falar de Deus são palavras que partem de uma linguagem mais masculina”, referiu.
Questionada sobre o papel do Papa Francisco na mudança de paradigma, na Igreja Católica, Sónia Monteiro diz que “as janelas foram abertas”, mas ainda é necessário “fazer um caminho” porque a mudança ainda não aconteceu.
Sobre o contributo do processo sinodal, a investigadora e professora da Faculdade de Teologia valoriza o contributo dos leigos, nomeadamente das mulheres, no “entendimento do que é a Igreja”, mas alerta para a concretização do “discurso sobre a sinodalidade”
Dominamos o discurso da sinodalidade. A minha pergunta é se o vivemos e de que maneira é que o vivemos”.
Sobre o diaconado feminino, Sónia Monteiro considera que “é algo importante”, lembrando que é “um erro” reduzir a questão da mulher na Igreja Católica a esse tema.
A teóloga lembra a “dificuldade que ainda existe na Igreja” em escutar o que as mulheres têm a dizer sobre o tema do diaconado feminino, lamentando as conclusões divulgadas em dezembro último sobre o tema, quando foi reafirmado o “não” à possibilidade de alargar sacramento da Ordem às mulheres, num relatório divulgado pelo Vaticano após quatro anos de trabalho.
Parece que voltámos atrás nos argumentos, parece que tudo aquilo que já foi escrito, do ponto de vista teológico, não só por mulheres, mas por homens, parece que não foi escutado. E voltaram a ser usados argumentos que pareciam que tinham sido já ultrapassados”.
Para a professora da Faculdade de Teologia, é necessário “reconhecer a experiência de fé e a experiência de salvação da mulher”, apontando para o diaconado feminino que não seja a cópia do que existe, porque é um “modelo feito para o homem”.
“Que deixe de ser estranho ver uma mulher no altar. Há aqui também uma mudança de mentalidade que precisa de ser operada”, afirma.
Na entrevista emitida esta sexta-feira, Sónia Monteiro analisa também os textos bíblicos da liturgia do próximo domingo e aponta para a celebração do Dia Internacional da Mulher como um “dia de solidariedade para com todas as mulheres”, nomeadamente as que “têm ainda amenos direitos e menos espaço” do que as mulheres em Portugal.
PR
