Médio Oriente: Igreja relata clima de «angústia e incerteza» perante escalada militar

Responsáveis católicos alertam para impacto sobre populações já em dificuldade

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 03 mar 2026 (Ecclesia) – As comunidades católicas no Médio Oriente relatam um clima de forte angústia perante os bombardeamentos contínuos na região, exigindo o regresso da diplomacia face aos ataques que envolvem o Irão, Israel e os Estados Unidos.

O vigário apostólico da Arábia do Sul, que acompanha as comunidades nos Emirados Árabes Unidos, Omã e Iémen, reforçou os apelos do Papa Leão XIV em favor das populações afetadas.

“Trata-se de uma questão que nunca deve ser perdida de vista por todas as partes envolvidas, diz respeito às pessoas comuns, com os seus problemas quotidianos”, salientou D. Paolo Martinelli.

O prelado pediu aos fiéis que rezem o rosário para evitar uma “escalada cujas consequências não conseguiríamos prever”.

A organização ‘L’Œuvre d’Orient’ (Obra do Oriente) manifestou a sua profunda preocupação com a nova frente de batalha que afeta territórios desde o Irão até ao Líbano, passando pelo Iraque e Terra Santa.

O coordenador da instituição no Líbano e na Síria, Vincent Gelot, descreve ao portal de notícias do Vaticano um cenário de consternação e cansaço entre a população.

“Esta manhã, os libaneses acordaram num clima de choque e consternação, mas também de cansaço e raiva. As pessoas aqui sabem como é uma guerra com Israel e sentem como se estivessem revivendo o que aconteceu há um ano e meio”, relatou.

A tensão obrigou ao encerramento de escolas em Beirute e motivou a fuga de milhares de pessoas no sul do país, após avisos de evacuação militar israelita.

No Iraque, o impacto também se faz sentir, com a capital do Curdistão, Erbil, a ser alvo de mísseis iranianos.

“Ninguém sabe o que vai acontecer; há muita ansiedade. Nossos contatos estão sendo cautelosos e ficamos em casa porque os bombardeios continuam. É uma incerteza total”, testemunhou Pascale Casati-Ollier, diretora local da ‘L’Œuvre d’Orient’.

A responsável admite que o recrudescimento da guerra “não facilitará a reintegração dos cristãos na região” e poderá incentivar uma nova vaga de emigração.

A instabilidade atinge também os países do Golfo Pérsico, com as paróquias locais a suspenderem ajuntamentos por razões de segurança.

A paróquia do Sagrado Coração de Manama, no Barém, anunciou que ritos e aulas de catecismo decorrerão online.

O núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) no Kuwait, Barém e Catar, D. Eugene Nugent, partilhou o impacto dos ataques nestes territórios.

“A situação é dramática e piora a cada dia. Quase não dormimos na noite passada por causa de uma série de explosões que ouvimos a partir das 2h da manhã, seguidas por sirenes incessantes”, descreveu o diplomata irlandês em declarações aos meios de comunicação do Vaticano.

A representação diplomática norte-americana e infraestruturas militares surgem como os principais alvos na região.

“Precisamos de seguir os métodos tradicionais de diplomacia e negociação. A diplomacia é a única maneira de acabar com esta guerra”, defendeu o representante papal.

Dias antes dos ataques dos EUA e Israel contra o Irão, a ‘Caritas Internationalis’ tinha emitido um alerta sobre a situação no Líbano, denunciando ataques a infraestruturas essenciais e a contaminação de solos agrícolas.

“O Líbano não deve ser esquecido. Um cessar-fogo no papel não é paz na prática. Os civis continuam ameaçados e a ser atacados, os agricultores estão a perder as suas terras e meios de subsistência”, avisou o secretário-geral do organismo, Alistair Dutton.

A organização católica exige maior envolvimento diplomático, proteção para os trabalhadores humanitários e o respeito integral pelo direito internacional.

Na Terra Santa, o som das sirenes marcou também as últimas horas, obrigando frades, estudantes e visitantes da Escola Bíblica Francesa de Jerusalém a procurarem refúgio nas instalações subterrâneas do complexo.

OC

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