Quaresma/Porto: Um jejum de ecrãs para travar «zapping» constante

Padre Amaro Gonçalo apresenta caminhada quaresmal deste ano como uma proposta de «reeducação dos sentidos»

Porto, 17 fev 2026 (Ecclesia) – O secretário para a Coordenação Pastoral da Diocese do Porto, padre Amaro Gonçalo, apresentou a caminhada quaresmal deste ano como uma proposta de “reeducação dos sentidos”, alertando para o risco de uma “atrofia” provocada pelo imediatismo digital.

“Nós vamos percebendo que a educação dos sentidos é fundamental para a experiência de Deus e para a poder captar”, afirmou o sacerdote, em entrevista à Agência ECCLESIA, explicando que a iniciativa se afasta de uma visão negativa do corpo.

A Quaresma, que se inicia esta quarta-feira, é um tempo litúrgico de 40 dias marcado por apelos ao jejum, partilha e penitência, que serve de preparação para a Páscoa, a principal festa do calendário cristão.

Para o responsável, este tempo foi, por vezes, encarado como uma “luta contra o corpo”, visto como “inimigo da alma”, uma perspetiva que a Diocese quer contrariar, valorizando a dimensão da Encarnação.

“Nós não podemos passar ao lado da pessoa humana e cair numa espécie de gnose, de ideia, de idealismo”, sublinhou, acrescentando que “os sentidos são portas de abertura para a transcendência”.

O padre Amaro Gonçalo alerta para a “atrofia dos sentidos” como um obstáculo à vida espiritual, questionando como é possível educar para “saborear o pão da Eucaristia” se as pessoas perderam a capacidade de “saborear os alimentos” ou de “ver para além do metro quadrado”.

“Se não temos outra lente que não seja a do imediato, como é que nós podemos ver o invisível?”, questionou.

Entre as propostas concretas para este tempo litúrgico, o sacerdote destaca o “jejum dos ecrãs” como forma de combater a dispersão e o “zapping constante” que caracteriza a vida moderna.

“Estamos sujeitos a um zapping constante. É possível navegar simultaneamente em dois ou três ecrãs”, referiu, citando o Papa Francisco para alertar que, sem discernimento, as pessoas se transformam em “marionetes à mercê das tendências”.

O sacerdote defende que desligar os ecrãs permite “ganhar em proximidade” e recuperar a atenção ao que está próximo.

“Nós, infelizmente, com as novas tecnologias, tendemos a estar muito perto de quem está longe, mas muito longe de quem está perto”, lamentou.

A caminhada proposta visa que a experiência sensorial conduza ao “coração”, entendido biblicamente como o “centro unificador da pessoa humana” e lugar de decisão.

“O coração precisa de portas de entrada e de portas de saída para poder fazer esta síntese das experiências e da vida”, explicou o entrevistado, defendendo a necessidade de tempos de paragem e silêncio.

O padre Amaro Gonçalo concluiu com um apelo à capacidade de “parar e reparar”, restaurando a interioridade num quotidiano marcado pela velocidade.

“Quando nós temos tanta informação, tanta imagem, tanto ruído, há uma poluição do coração que o pode envenenar. A Quaresma pode ser um tempo de despoluição”, rematou.

A conversa com o padre Amaro Gonçalo pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, na Antena 1, ao longo dos primeiros cinco domingos da Quaresma.

OC

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