Igreja/Sociedade: D. Francisco Senra Coelho defende que padres têm de «entrar no comboio» da inteligência artificial

Arcebispo de Évora alerta que a IA não pode substituir a vivência comunitária e rejeita respostas pastorais pré-formatadas

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Albufeira, 21 jan 2026 (Ecclesia) – O arcebispo de Évora afirmou, em Albufeira, que os sacerdotes têm de conhecer a Inteligência Artificial (IA) para poderem dialogar com as comunidades, alertando que a Igreja não pode “perder a marcha do tempo” nem ficar parada na estação.

“O comboio parte connosco ou sem nós. Se nós não entrarmos no comboio, ficamos na estação. É necessário ir neste comboio, que é o comboio da sociedade, que não para nem depende de nós”, disse D. Francisco Senra Coelho à Agência ECCLESIA.

Falando à margem das jornadas de atualização do clero das Dioceses do Algarve, Beja e Évora, o responsável sublinhou que a IA exige aos pastores “muito mais preparação”, porque o povo de Deus já não é um “corpo passivo” que se satisfaz com respostas prontas.

“O padre, o diácono, o catequista, o pastor da Igreja, o bispo, está a falar com pessoas que já trazem uma informação”, notou, defendendo que é necessário “viver e conviver” com a tecnologia para a poder humanizar.

D. Francisco Senra Coelho rejeitou cenários de ficção científica em que a máquina domina o homem, lembrando que a IA “há de ser sempre criatura” e o ser humano “criador”.

No entanto, o prelado alertou para os riscos de uma utilização que dispense a relação pessoal e a vivência comunitária, dando o exemplo da catequese.

“Imaginemos que alguém se arvora em fazer aqueles temas todos em sua casa com a inteligência artificial e vir dizer: ‘olha, padre, eu sei tudo’. Mas não viveu, não conviveu, não fez comunidade. O seu corpo, a sua dimensão humana de relação não aconteceu”, advertiu.

O mesmo princípio aplica-se ao aconselhamento pastoral: “Imaginemos que uma pessoa vai ter com o sacerdote e lhe põe um problema e o sacerdote dá-lhe a resposta da inteligência artificial. Aí está, uma relação standard, uma chapa genérica, modelo 5”, criticou, defendendo um acolhimento único para cada rosto.

O arcebispo de Évora revelou ainda que a Conferência Episcopal Portuguesa vai promover formação sobre este tema para os bispos a nível nacional, reconhecendo a importância do diálogo entre os criadores de tecnologia e a ética da Igreja.

“Oito dos mais importantes criadores da inteligência artificial têm-se dirigido à Santa Sé e pedido a colaboração como uma entidade crítica, no sentido do saber ético”, destacou.

As jornadas de formação, organizadas pelo Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE), decorrem até esta quinta-feira, reunindo especialistas nacionais e internacionais para debater os desafios da IA numa sociedade pós-cristã.

OC

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