Aprender com Teresa de Lisieux

Um século depois da sua morte, Santa Teresinha do Menino Jesus realiza as suas ânsias missionárias. Impossibilitada em vida de partir para terras de missão — Saigão, cujo Carmelo fora fundado pelo de Lisieux — por causa da precaridade da sua saúde, haveria de tornar-se missionária rezando pelos missionários, sustentando os seus sonhos, animando as suas correrias apostólicas, encoran-jando a sua entrega, intercedendo pela sua fé, ardor e, inclusivé, resistência e saúde. Em 1994 os seus restos mortais — isto é, do pouco que de mortal tinha Teresinha — peregrinaram aos Santuários franceses, depois aos Carmelos, seguidamente a alguns países da Europa, América, Ásia… Num total de quase 50! O sonho concretizava-se, enfim. Para além do tempo da sua vida Teresinha tornava-se missionária nas cinco partes do mundo, ia aos Países e Ilhas mais distantes concitando multidões, assinalando a Boa Nova, chamando para Jesus, propondo a pequena vida da confiança, a humildade e opção pelas pequenas coisas, a entrega ao amor misericordioso e a dedicação a todos e cada um dos irmãos, qualquer que ele seja e onde quer que ele se encontre. Neste Outono, Teresinha chegou como peregrina a Portugal. Em Lisboa acolhia-a, em Leiria entreguei-a de mão em mão, em Fátima carreguei e velei o seu relicário. Já a visitara em Lisieux, surpreendi-a duas vezes em Roma e cruzamo-nos em Paris. Onde vi que a viram vi surpresa cálida, proximidade agradecida, intimidade serena, intercessão confiante. Aqueles pobres ossos que transportei e agora varrem os corações e almas de Portugal como um furacão, evocam o triunfo de Cristo que mais se vê quanto mais frágil e débil é o suporte que O dá a ver; falam da pequenez e humildade de Teresinha, imensa amiga de Jesus a quem ela amou com amor incondicional, a quem ela nos ensinou a amar no decurso dum caminhinho de confiança muito ténue, feito incansavelmente montanha acima. Aqueles ossos são restos, são rasto, são prova. São restos duma mulher que serviu escondidamente a Igreja, rezou pelo mundo, aspirou à santidade, à união com Jesus. São restos de quem teve uma alma com história em cujo enredo entrou Deus como protagonista principal, a fim de a usar como se usa um instrumento maravilhoso para ensinar a pedagogia do amor a uma cultura que decidira já não necessitar de o aprender. São rasto discreto da inundação do Espírito de Deus no frágil vaso de barro que foi a Petit Thérèse. São prova para quem não chega ver sem ver, para quem precisa de ver já não apenas com a fé nem com os olhos mas também com as mãos, e são ânimo até para quem já nem forças tem para pedir provas. Aqueles ossos pequeninos são relíquias, mas não exigem a adesão da fé. São sinais que não têm valor em si, que não apontam para si mas para Quem a chamou à vida, à fé e à eternidade. As relíquias de S. Teresinha ainda hoje nos falam porque ontem ela privilegiou a atenção e o cuidado das pequenas coisas; e porque também por entre as ninharias da vida e das pequenas coisas anda e se revela o Senhor. Aquelas relíquias são sinais de fogo que provam que a morte não vence o amor. E nos levam para além da praça do encontro reenviando-nos para todos os lugares e horizontes onde possamos fazer ao mais pequenino dos irmãos como se o fizéssemos a Cristo. Aquelas relíquias são o último resto daquela pequena vida que sofreu e amou, cantou e rezou, duvidou e seguiu em frente, se consagrou e entregou tão extraordinariamente. Aquelas relíquias são fragmentos de luz cuja presença no meio de nós falam que «Tudo é graça», e gritam por intercessão e alívio para os cansados da vida, os dizimados pela dor, os prostrados pela injustiça, os surpreendidos pelo sem-sentido, os encarcerados no labirinto das dúvidas, os bêbados de escuridão e de noite sem fim. Que se aprende na escola de Teresinha, junto dos restos do seu corpo santo? Aprende-se a seguir Jesus suceda o que suceder, aconteça o que aconteça, surpreenda-se quem se surpreender, perturbe-se quem se perturbar. Aprende-se a tudo dar sem medida e dar-se a si mesmo sem olhar a quem, a ouvir a calada voz interior que nos engrandece com sua presença e nos empurra mar adentro, como quando o vento leste suavemente impele as velas da barca. Eu vi claramente visto – mesmo que não precisasse de ver – que Teresinha infunde confiança, anima os cansados, afasta o desânimo, formoseia a almas, chama ao compromisso amoroso com cada irmão, porque, nas margens do mundo, também eu posso ser o que ela foi no coração da Igreja: o amor. Frei João Costa, ocd

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