Isabel Figueiredo, diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Socais

Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais

“‘Para que possas contar e fixar na memória’ (Ex 10, 2). A vida faz-se história”

Conhecemos o título da mensagem do Papa Francisco para este dia, desde o passado mês de Janeiro. Nada fazia prever o que o mundo iria viver meses mais tarde, assim como nada podemos antecipar sobre como iremos viver num futuro próximo. Mas todos intuímos que a nossa memória dificilmente apagará imagens a que todos assistimos, palavras repetidas em todas as línguas. E todos sabemos que na memória do coração, estão guardados tantos sentimentos diferentes: o medo, a preocupação, a saudade, a solidão, a gratidão, a alegria, a tristeza, a esperança. Tudo se misturou e, se por um lado, desejamos ardentemente que tudo volte a ser como era, por outro estamos conscientes de que isso não vai acontecer tão depressa. Ou talvez não volte mesmo. Não vai ser igual, mas isso não significa que seja pior. E talvez seja por aqui que podemos ir fazendo caminho. Pode ajudar-nos perceber que a Igreja tem aberto tantos caminhos ao longo da história. O caminho da comunicação é um dos mais evidentes. Porque a comunicação é intrínseca à condição de ser Igreja. «Ide e anunciai» é missão, é serviço, é vocação, é razão de viver e de dar a vida. Num dia como este faz bem à cabeça e ao coração, reler o Decreto Inter Mirifica do Papa Paulo VI. Os 54 anos que passaram, não conseguem tirar a actualidade e a clareza das palavras que lá estão escritas, nem os conceitos que as suportam, nem os desafios que lançam. Escreveu o Papa Paulo VI: «A Igreja católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para levar a salvação a todos os homens, e por isso mesmo obrigada a evangelizar, considera seu dever pregar a mensagem de salvação, servindo-se dos meios de comunicação social, e ensina aos homens a usar rectamente estes meios.»

Voltando à realidade que vivemos nos últimos meses é surpreendente a forma como a Igreja de então, se dirigiu ao mundo: «Procurem, de comum acordo, todos os filhos da Igreja que os meios de comunicação social se utilizem, sem demora e com o máximo empenho nas mais variadas formas de apostolado, tal como o exigem as realidades e as circunstâncias do nosso tempo (…)»

É verdade que todas estas palavras se traduziram num imenso trabalho que nos trouxe até aos dias de hoje, num progressivo conhecimento de tudo o que envolve o mundo da comunicação, estejamos a falar da imprensa, da rádio, da televisão ou do mundo digital. Mas a experiência destes últimos meses, dá-lhes uma dimensão nova. Lemos e ouvimos estas palavras e sentimos que foram escritas para hoje. Um hoje que colocou a Igreja na linha da frente da comunicação, numa capacidade nova de impactar o mundo com a única e inesquecível imagem do Papa Francisco sozinho na Praça de São Pedro, ou as incontáveis transmissões de celebrações ao longo da Semana Santa, que traziam para a casa de cada um, a dimensão paroquial da vida pastoral. Todos ansiamos pelo regresso à normalidade, pela vivência comunitária, pela presença que toca o mistério da nossa Fé, mas nada será como dantes. Entramos numa nova fase da vida social e comunitária e, também por essa razão, em novos desafios para a comunicação da Igreja. Uma nova fase, que será certamente marcada pelas questões económicas e, também neste ponto, as palavras do Papa Paulo VI, foram claras ao chamar a atenção para a necessidade de se ajudarem os meios de comunicação da Igreja.

E não poderia terminar sem citar o ponto referente à celebração deste Dia Mundial das Comunicações Sociais. O tipo de linguagem situa-nos na época em que o documento foi redigido, mas a essência permanece e ganha a consistência da cadeia que não se rompe… «Para que se revigore o apostolado da Igreja em relação com os meios de comunicação social, deve celebrar-se em cada ano em todas as dioceses do mundo, a juízo do Bispo, um dia em que os fiéis sejam doutrinados a respeito das suas obrigações nesta matéria, convidados a orar por esta causa e a dar uma esmola para este fim, a qual ser destinada a sustentar e a fomentar, segundo as necessidades do orbe católico, as instituições e as iniciativas promovidas pela Igreja nesta matéria.»

Para que possas contar e fixar na memória… meses intensos, cheios de desafios, de vitórias e derrotas, de consolações e de desolações. Meses cheios de histórias, muitas dramáticas e intensas, mas muitas também belas, capazes de nos fazer acreditar na solidariedade, na generosidade, na gratuidade, no espirito de sacrifício e de partilha. E meses claramente cheios de uma renovada capacidade de comunicar, de fazer chegar a noticia, a presença, a esperança na vida que recomeça a cada dia e cada dia, bem o sabemos, é sempre um dia novo.

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