Último ano de pontificado marcado por um conjunto de viagens simbólicas, pela preocupação com a grave crise económica e por longas polémicas Bento XVI completa este Domingo o seu quarto ano de pontificado, marcado por um conjunto de viagens simbólicas, pela preocupação com a grave crise económica e financeira que alastra pelo mundo e por um conjunto de polémicas que desgastaram a imagem do Papa e da sua equipa. Este último ano foi de grande actividade – foram publicadas cerca de 700 notícias na Agência ECCLESIA relacionadas com Bento XVI – e teve passagens por quatro Continentes, com as viagens aos EUA (Abril de 2008), Austrália (Julho de 2008, França (Setembro de 2008), Angola e Camarões (Março de 2009). Bento XVI líder espiritual dos mais de mil milhões de católicos em todo o mundo, continua fiel à linha definida desde o início do pontificado, centrado em devolver Jesus ao mundo, com tudo o que isso implica. Se no começo da sua missão, era o Papa “invisível” o alvo das críticas, hoje já se multiplicam as teorias e mesmo alguns mitos em torno das suas palavras e gestos. Considerado por muitos como um Papa “europeísta”, Joseph Ratzinger aprendeu a fazer do mundo a sua casa, como se viu na recente viagem a África – com denúncias à corrupção e à condição das mulheres, apelos aos governantes locais e à comunidade internacional. O contexto de crise financeira serviu para pedir uma nova ordem internacional, ajuda aos países mais pobres e protecção para os trabalhadores, como se viu na mensagem enviada à Cimeira do G20, em Londres, ou para o Dia Mundial da Paz 2009. Praticamente todas as crises internacionais já mereceram, por parte de Bento XVI, um apelo em favor da paz, da reconciliação e do diálogo. O mesmo aconteceu em várias situações de catástrofe natural ou humana, com destaque para o recente sismo em L’Aquila, localidade que o Papa deverá visitar em Maio, mês em que se desloca à Terra Santa e deverá provar que pode ser um elemento a ter em conta na difícil equação da paz no Médio Oriente. Em qualquer situação, contudo, não se deve esperar uma atitude diferente daquela que ele enunciou na homilia da Missa crismal, de Quinta-feira Santa, onde apresentou aos presentes uma reflexão sobre a importância da verdade na vida de um sacerdote. É a preocupação com a verdade, no meio do relativismo reinante, que faz destacar a figura do actual Papa, embora nem sempre isso lhe traga os maiores elogios. Para o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi, o actual pontificado sintetiza-se de forma muito simples: “Levar Deus aos homens e os homens a Deus, o Deus que se manifestou no rosto de Cristo, e traduzir a fé em diálogo, em força de unidade e de testemunho de caridade activa”. Ano de tormentas A eleição do Cardeal Joseph Ratzinger como sucessor de João Paulo II foi recebida com uma boa dose de cepticismo em vários sectores da Igreja e da sociedade. Alguns episódios polémicos servem, sistematicamente, para alimentar os críticos. Como já referi noutras ocasiões, se aos 80 anos de João Paulo II muitos exigiam a sua renúncia, a Bento XVI exige-se uma viragem radical, promovendo mudanças de fundo. Na recente viagem a África, com a polémica gerada pela posição do Papa a respeito do uso do preservativo – “não se pode superar este problema da SIDA só com dinheiro, mesmo se necessário; mas, se não há a alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode superá-lo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema” – surgiram mesmo posições públicas que defendiam o silenciamento de Bento XVI. A “recriminação” do parlamento belga chega mesmo a ser incompreensível, com o Vaticano a reagir duramente, falando numa “clara intenção de intimidar e de dissuadir o Papa de se expressar sobre determinados temas de óbvia relevância moral e relacionados com o ensino da doutrina da Igreja”. Este episódio serve para perceber melhor o que está em causa: o Papa está condenado a ser julgado, quase em permanência, na base de uma série de clichés – conservador, duro, retrógrado, eurocentrista, etc. Boa parte da imprensa deste lado do mundo ficou presa no “caso” do preservativo – ao contrário do que aconteceu em África, porque a viagem foi muito aos Camarões e Angola foi muito mais. A ideia de fundo que se aplica a todas as matérias abordadas é sempre a mesma: se os africanos não assumirem as suas responsabilidades, não se sentirem protagonistas, não são ajudas vindas de fora que irão resolver o problema. Mais surpreendentes ainda do que as reacções às considerações do Papa sobre o uso do preservativo no combate à SIDA – sente-se em muitos meios uma estranha necessidade de criticar Bento XVI – foram as avaliações que menorizavam as intervenções papais em solo africano sobre temas centrais: guerras civis, pobreza, tribalismo e rivalidades étnicas, má governação, corrupção e violação de direitos humanos, desigualdade entre sexos e marginalização das mulheres, práticas desumanas e exploração dos recursos naturais por uma globalização injusta. Apesar do desgaste provocada por esta polémica, terá sido o caso da remissão da excomunhão aos 4 Bispos consagrados pelo Arcebispo Lefebvre, em Janeiro deste ano, que mais incomodou o Papa. De facto, na carta enviada em Março aos Bispos da Igreja Católica a propósito desta questão, aparece um Bento XVI preocupado e mesmo magoado ao constara feridas antigas, falta de paz e inclusive hostilidade para com o Papa. “Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos – que no fundo, poderiam saber melhor como tudo se desenrola – se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste”, escreve. Por outro lado, Bento XVI reafirma que não tinha conhecimento das posições negacionistas do Bispo Williamson, mas admite que no futuro a Santa Sé deverá estar mais atenta à Internet, como “fonte de notícias”. Casos A dança em volta das responsabilidades em relação a Richard Williamson também foi problemática: O Cardeal Darío Castrillón, presidente da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, defendeu-se das acusações de que teria escondido de Bento XVI as declarações negacionistas do bispo da Fraternidade São Pio X e atacou o porta-voz da Santa Sé (Pe. Federico Lombardi, que antes negara qualquer desentendimento com o Cardeal colombiano), defendendo que este não deve dizer que um Cardeal tem de saber algo que ele não tem obrigação de saber e remetendo responsabilidades para a Congregação para os Bispos. Um episódio semelhante aconteceu na troca de acusações entre o arcebispo do Recife, D. José Cardoso Sobrinho, e o arcebispo Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, em torno do aborto de uma menina brasileira de 9 anos, grávida de gémeos. O Arcebispo italiano escreveu no Osservatore Romano que “antes de pensar na excomunhão, era necessário e urgente salvaguardar sua vida inocente e recolocá-la num nível de humanidade da qual nós, homens de Igreja, devemos ser anunciadores e mestres”. A arquidiocese do Recife, em comunicado, acusou este responsável de falar sem conhecimento de causa, assegurando que a família e a criança foram acompanhadas a todo o momento. Na Áustria, mais um caso coloca em questão o funcionamento da “máquina” que rodeia Bento XVI: o padre Gerhard Wagner é nomeado Bispo auxiliar de Linz. A Conferência Episcopal do país reagem em comunicado à escolha de um sacerdote conhecida pelas suas posições polémicas e este acaba por renunciar à ordenação. Já em 2007, houvera um episódio semelhante, em volta da nomeação do Arcebispo de Varsóvia, quando o,escolhido pelo Papa, D. Stanislaw Wielgus, apresentou a renúncia ao cargo na sequência de acusações de colaboracionismo com o antigo regime comunista polaco. Cúria Romana A actual Cúria Romana – o conjunto dos dicastérios e dos organismos que coadjuvam o Papa no exercício da sua missão – tem já muitos homens da confiança de Bento XVI, a começar pelo seu Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone. Nas presidências das nove Congregações estão seis escolhas do actual Papa e mesmo nos Conselhos Pontifícios, são já mais de metade os presidentes nomeados por Bento XVI: seis em onze. Actualmente, além do Secretário de Estado do Vaticano, três dos presidentes das nove Congregações da Cúria Romana são italianos: O Cardeal Giovanni Battista Re e os Arcebispo Angelo Amato e Antonio Maria Vegliò. As outras Congregações são presididas por um polaco, um brasileiro, um norte-americano, um indiano, um esloveno e um argentino. A estes três Cardeais italianos juntam-se o Cardeal Attilio Nicora, presidente da Administração do Património da Sé Apostólica; o Arcebispo Velasio De Paolis, presidente da Prefeitura dos Assuntos Económicos da Santa Sé e o Cardeal Giovanni Lajolo, presidente do Governatorato da Cidade do Vaticano. A tendência acentua-se no caso dos Conselhos Pontifícios: o Cardeal Renato Martino, o Cardeal Ennio Antonelli e os Arcebispos Francesco Coccopalmerio, Gianfranco Ravasi e Claudio Maria Celli. As outras seis presidências cabem a dois alemães, um francês, um espanhol e dois polacos. Nos próximos meses é possível que se venha a assistir a mais mudanças na Cúria, dado que três Cardeais têm já mais de 75 anos: Walter Kasper, Renato Martino e James F. Stafford. Esta idade é o limite estabelecido pelo Direito Canónico para exercer os seus cargos e o Papa poderá aceitar a sua renúncia a qualquer momento. Confiança Apesar de todas as dificuldades, as multidões que se juntaram em volta do Papa em África ou que continuam a acompanhá-lo no Vaticano são um sinal de confiança. Em Portugal, o Bispo de Vila Real escreveu que “estes quatro anos revelaram um homem atento e corajoso, delicado e firme. Fez várias visitas pastorais, sem pressa, às paróquias de Roma, a sua diocese como bispo diocesano, e à Itália, e como Supremo Pastor da Igreja fez visitas demoradas a outros países distantes e estruturas científicas e de poder político”. “O seu estilo é o que poderemos chamar uma linguagem substantiva, onde as palavras são somente as necessárias, escolhidas, com rigor e afecto. Afasta do seu discurso os adornos românticos e retóricos, mas não exclui os sentimentos protocolares e a memória do coração. Neste aspecto tem surpreendido pela positiva, ultrapassando o estilo da reflexão teológica académica e de análise disciplinar de muitos anos”, refere D. Joaquim Gonçalves. Já D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu, reagiu às especulações m volta da alegada solidão de Bento XVI escrevendo que “todos os Cristãos – Leigos, Religiosos, Sacerdotes, Bispos ou Cardeais – temos a noção do sentido e da importância da missão do Papa na Igreja e do apoio, respeito, atenção, unidade e comunhão que lhe devemos. Temos a certeza, também, da presença e da assistência do Espírito de Deus que acompanha, orienta e guia as pessoas que, de coração aberto, vivem, com amor, o Evangelho como a Boa Nova para os tempos e as pessoas de cada hoje”. “Nunca está só porque, para além desta assistência divina e sobrenatural, tem todos os canais intermédios de corresponsabilidade e de comunhão, criados pelo Concílio Ecuménico do Vaticano II, que o Papa reúne, ouve e respeita”, acrescenta. A expectativa para os próximos meses passa, sobretudo, pela viagem à Terra Santa, pela publicação da anunciada encíclica social – necessariamente revista após a crise financeira e económica que se instalou no mundo – e do segundo volume do livro “Jesus de Nazaré”. O interesse em volta dos gestos e das palavras do Papa – mais de 50 discursos contabilizados pelo Vaticano, desde o início de 2009 – não tem desmorecido, embora nem sempre seja bem entendido. Não se deve esperar, contudo, qualquer inflexão dramática ou viragem espectacular num homem que se orienta por convicções profundas a que não irá renunciar. Notícias relacionadas • Revista do ano 2008 • Cronologia dos 3 primeiros anos de pontificado

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