Isabel Figueiredo, Diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais
Filha de um militar, andei por África em criança. Ainda me lembro do cheiro da terra molhada, do verde intenso das árvores, do branco dos campos de algodão. Das noites quentes, da areia que nos escaldava os pés, em praias desertas e belas. Ainda me lembro dos mercados, das pessoas, de uma outra forma de viver que me prende a memória e me provoca uma saudade difícil de explicar.
Éramos crianças sem medos, mas sentimos a alegria da revolução, quando a vida se tornou normal, porque o pai já não ia para a guerra, porque íamos viver, para sempre, na mesma casa… a noção das implicações do fim de uma ditadura, assim como dos direitos da democracia, demorou tempo. O tempo da adolescência que nos atravessava o corpo e o coração, deixava-nos longe da vida politica.
Quando chegou a idade de votar, senti e continuo a sentir-me muito grata. Porque me senti e sinto, livre. Livre para exercer um direito de escolha, um direito que tem implicações na minha vida e na vida de todos, um direito que me obriga a pensar, a confrontar, a optar. Talvez por ter crescido muito marcada pela consciência dos deveres, não foi complicado, nem difícil, nem estranho, perceber que este direito era igualmente um dever. Se tantos homens e mulheres tinham lutado por esta liberdade, como não me sentir grata e devedora de cumprir a minha parte?!
Tive então a fase em que discutia com veemência cada eleição, em que ia de transportes públicos aos comícios, orgulhosa das minhas escolhas; escolhas e opiniões defendidas com o ardor e alegria, quando sentia que conseguia fazer vingar a minha opção, e com lágrimas e zangas quando perdia uma discussão. Era tudo muito intenso, graças a Deus!
Mais tarde, a vida afastou-me destas discussões acesas, deste interesse pelo exercício da politica. Fui tendo as minhas ilusões e desilusões, mas nunca deixei de votar. Tal como nunca deixei de me sentir grata por vivermos em democracia, em liberdade.
A minha Fé também foi um caminho, passo a passo com o que lia, pensava e rezava. Sempre me senti como parte de um todo imenso, onde a língua que falamos, a cor da pele que temos, os estudos que fizemos, a casa onde vivemos, não são identitários, nem segregadores. A Fé que professamos não escolhe, não nos arruma em caixas e caixinhas, não nos separa, não nos diminui nem nos eleva. Somos Filhos de Deus, irmãos em Cristo, homens e mulheres, crianças e jovens, ricos e pobres, doentes e saudáveis, analfabetos e letrados. A todos é possível tocar o mistério do Amor de Deus por cada um de nós. Esta grandeza atrai-me, seduz-me, encanta-me. Esta descoberta de nos sabermos amados, todos amados, surpreende-me, consola-me, inquieta-me. Até hoje.
O cruzamento entre o meu direito e dever de votar e a vivência da minha Fé foi e é inevitável. Acredito que assim aconteça com milhares e milhares de crentes, assim aprendi com a Doutrina Social da Igreja que a todos insere na vida, de uma forma extraordinária, porque nova e inspiradora. E procurei ir respondendo, consciente de que era chamada a cumprir o meu dever cívico, o meu direito enquanto pessoa livre.
Sempre considerei que a luta partidária é necessária, faz parte, é um desafio saudável da conquista e do exercício da democracia. Mas quando a luta partidária nos revela gente sempre pronta a atacar, a lançar lama, a mentir sem receio, a falar mais alto, a aproveitar-se do conforto de quem fala sem ter de prestar contas do que faz ou não faz, quando a democracia permite este nível de luta partidária, algo está errado. Quando a luta partidária invoca a Fé como componente identitário e o desalento como elemento agregador algo está muito errado.
Quem ganha eleições governa. Quem perde eleições, pode e deve escrutinar o trabalho de quem governa, mas tem de ser capaz de sobrepor o interesse da maioria dos cidadãos aos seus interesses partidários. O que tem de implicar outra forma de estar na Assembleia da República, outra forma de fazer oposição, outra forma de estar na politica.
Precisamos de estar atentos à questão do aproveitamento na vida politica. Todos sabemos que o aproveitamento dos outros se faz de muitas formas erradas e desonestas intelectualmente. Também vimos como o aproveitamento de uma catástrofe, se faz à luz do dia, sem vergonha, nem pudor. O aproveitamento da Fé, custa mais a reconhecer. Mas também se faz.
Perante a atualidade imprevista e dramática é injusto sermos incapazes de reconhecer o esforço de quem governa, o valor dos outros. Tal como é essencial reconhecer que a consciência dos limites – nas palavras e nas ações – é um bem maior na vida pessoal de cada um de nós e na vida em sociedade.
Domingo somos chamados a votar. Um direito e um dever. Que nos pede consciência, discernimento e coerência. O país que somos é muito mais do que um campo de batalha politica.
Isabel Figueiredo
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