Luísa Gonçalves, Diocese do Funchal
Nos últimos dias têm surgido algumas opiniões críticas em relação ao facto de a Diocese do Funchal ter passado a dispor de um Vinho de Missa próprio. Importa, por isso, trazer serenidade ao debate, esclarecer conceitos e contextualizar esta realidade à luz da tradição e da prática da Igreja.
Antes de mais, convém sublinhar um dado essencial: a Diocese do Funchal não é a única diocese em Portugal — nem no mundo — a ter um Vinho de Missa. Diversas dioceses portuguesas recorrem a vinhos certificados para uso litúrgico, tal como acontece em inúmeros países com forte tradição vitivinícola, como Itália, Espanha, França, Alemanha ou regiões da América Latina. Em muitos casos, esses vinhos são produzidos localmente, precisamente para garantir qualidade, autenticidade e conformidade com as normas da Igreja.
Mas afinal, o que é um Vinho de Missa?
O Vinho de Missa é o vinho utilizado na celebração da Eucaristia, destinado à consagração, tornando-se — segundo a fé da Igreja — o Sangue de Cristo. Por essa razão, não pode ser um vinho qualquer.
A legislação litúrgica da Igreja Católica é muito clara quanto às suas características. O vinho deve:
- Ser natural, proveniente exclusivamente da fermentação da uva;
- Ser puro, sem misturas, corantes, açúcares adicionados ou aromatizações;
- Não estar avinagrado nem alterado;
- Conservar-se em boas condições, garantindo dignidade e respeito pelo sacramento.
Estas exigências não são meros formalismos. Elas traduzem o cuidado da Igreja com aquilo que é central na sua vida: a Eucaristia. Garantir um vinho que cumpra estes critérios é uma responsabilidade pastoral e litúrgica, não um capricho institucional.
No caso da Diocese do Funchal, a existência de um Vinho de Missa próprio permite precisamente esse controlo e essa garantia. Acresce ainda o valor simbólico de recorrer a um produto ligado à terra, à história e à cultura local, algo que sempre fez parte da vivência cristã: a fé encarna-se nos povos, nas suas realidades e nos seus frutos.
As críticas que surgem, muitas vezes, partem do desconhecimento ou da ideia errada de que se trata de uma iniciativa comercial ou de privilégio. Não é. Trata-se de assegurar dignidade, fidelidade à tradição da Igreja e respeito pelo sacramento, algo que a Diocese não só pode como deve fazer.
Num tempo em que tantas vezes se pede transparência e rigor às instituições, talvez seja justo reconhecer que, neste caso, estamos perante uma prática antiga, legítima e amplamente partilhada na Igreja universal. Mais do que polémica, este tema convida ao esclarecimento — e o esclarecimento ajuda sempre a fortalecer a comunhão.
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