Vida Consagrada: Médica e religiosa vive no Benim para promover a saúde dos mais pobres e ajudar a formar profissionais

Irmã Monique Bourget, da congregação das irmãs de Santa Marcelina, nasceu no Canadá e viveu 25 anos no Brasil, onde ajudou a criar projetos de saúde pública 

Ganvie, Benim, 28 fev 2025 (Ecclesia) – A irmã Monique Bourget, da congregação das irmãs de Santa Marcelina, é natural do Canadá e está desde 2020 no Benim, a trabalhar na promoção da saúde comunitária e nos cuidados primários, atendendo famílias muito pobres.

“A saúde comunitária é o caminho para humanizar a saúde, ao mesmo tempo responder às necessidades. A medicina forma os médicos de uma forma muito técnica, e esquece a parte social, humana, espiritual. Eu acho que está se transformando – e eu vi isso acontecer no Brasil. O médico forma-se num hospital terciário, superespecializado, quando a maior parte das coisas acontecem na comunidade. Se houvesse a possibilidade de trabalhar e prevenir as doenças a um nível maior da comunidade, muitas coisas não chegariam no hospital”, explica em entrevista à Agência ECCLESIA.

Com formação médica no seu país de origem, a religiosa foi enviada para São Paulo, em 1994, onde o seu contributo foi essencial no desenvolvimento da política de saúde.

O sistema de saúde era recente no Brasil, com o governo a iniciar o Programa Saúde da Família, e a irmã Monique começou a trabalhar na ajuda à formação dos médicos que careciam de experiência.

“O Ministério pediu para as irmãs, que eram muito reconhecidas, fazerem uma experiência na grande cidade de São Paulo, para implantar as equipes de saúde da família, pensando que, de fato, se desse certo numa grande cidade, o resto do Brasil ia dar certo. E assim foi”, recorda.

Durante 25 anos, a irmã Monique Bourget expandiu o trabalho, ampliou as equipas médicas, qualificou pessoas e, durante sete anos, foi diretora técnica de um hospital público.

Foto irmã Monique Bourget

Em 2020 a irmã viaja para o Benim, e ali procura implementar um programa de Pastoral da Criança, a desenvolver em cada paróquia que cruza a sensibilização para cuidados de saúde básicos, para a amamentação, a nutrição, onde abordam também questões sobre a não-violência nas famílias mais vulneráveis.

O Papa Francisco, no Pacto Educativo Global, indicava o exemplo da educação comunitária em África, e de facto, aqui nós podemos aprender a vivência comunitária, a partilha que contraria o individualismo da sociedade ocidental, mas também a simplicidade na vida – as pessoas aqui não têm nada e são mais felizes”.

A religiosa nota que nas comunidades no Benim tudo acontece à volta da igreja: “Não há restaurantes, cafés, tudo acontece à volta da igreja. As pessoas têm Deus e a igreja é o centro das atividades. Na nossa igreja há sete grupos corais todos os dias, onde se canta e dança. A alegria é muito importante”.

Há cinco anos neste país africano, a religiosa fala na barreira da língua, uma vez que os dialetos são muito difíceis de entender, e procura ultrapassar o facto de ser branca, numa sociedade marcadamente machista.

“Aqui não há uma miscigenação e eu apesar de falar cinco línguas, o dialeto é muito forte e difícil e isso afasta-te das pessoas. De qualquer forma estou a tratar da minha cidadania para as pessoas perceberem que estamos juntos e eu estou para ficar”, assinala.

O projeto Missão África, que aconteceu este ano pela segunda vez, leva estudantes de medicina do Brasil, para uma missão de 15 dias no Benim, nas cidades de Adjarra e Ganvie, promovendo cerca de 500 atendimentos diários.

A religiosa fala numa dívida moral que o Brasil tem para com o Benim, fruto da rota dos escravos que alimentava o trabalho no país da América do Sul, e através da ONGD ‘Sementes da Saúde’ foi já possível fazer pequenas cirurgias, acompanhar o crescimento das crianças e das suas famílias, prestar cuidados paliativos e salvar vidas, em paróquias onde as pessoas são mais pobres.

Nas vistas ao domicílio, os estudantes conhecem as carências e a situação concreta das pessoas, conhecem-se patologias avançadas porque as pessoas demoram a procurar ajuda, não têm recursos, e conhece-se uma realidade que até no Brasil é desconhecida”.

Foto irmã Monique Bourget

A irmã Monique fala numa “Igreja fora de muros” que estimula, que vai ao encontro das pessoa mais vulneráveis “não só as católicas, mas as muçulmanas, protestantes, do cristianismo celeste, pessoas do vudu, todos”.

“Não conseguimos salvar todos a realidade é dura, muitas crianças morrem e morrem muito pequenas. Ontem morreu uma criança que acompanhávamos com sarampo, já órfã, era cuidada pela avó, que várias vezes avisada para ir com o neto ao centro de saúde não atendeu os pedidos. Para ter um impacto na mortalidade materna, infantil, há muito trabalho ainda para fazer, são sementes que semeamos e que nos dão esperança. Há uma outra criança que sem o acompanhamento da Missão era teria falecido – foi ao hospital, está curada e vai voltar para casa. Chama-se Paz”, sublinha.

A conversa com a irmã Monique Bourget vai estra no centro do programa ECCLESIA, emitido este sábado, na Antena 1, pelas 06h00.

LS

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