Venezuela: Organizações católicas condenam «agressão militar» dos EUA e rejeitam intervenção externa

«Pax Christi» Internacional e organismos da região amazónia alertam que violação da soberania abre «precedente perigoso»

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 05 jan 2026 (Ecclesia) – A ‘Pax Christi’ Internacional, a Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam) e a Conferência Eclesial da Amazónia (Ceama) condenaram a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, classificando-a como uma ameaça à paz mundial e à estabilidade da região.

Num comunicado divulgado após a operação de 3 de janeiro, a ‘Pax Christi’ Internacional denuncia a “grave violação do direito internacional” por parte do Governo e das Forças Armadas norte-americanas.

“Este ato de força intervencionista dirigido contra o território e a população civil constitui uma afronta à paz mundial e uma ameaça direta aos fundamentos da coexistência soberana entre os Estados”, refere o movimento católico global pela paz.

Para a organização, a ação dos EUA estabelece um “precedente muito perigoso” que corre o risco de “legitimar novas violações” por parte de potências militares, precipitando o cenário internacional para uma situação de “injustiça e violência descontrolada”.

A ‘Pax Christi’ apela à comunidade internacional para que exija o cumprimento da legalidade e o cessar urgente das ações militares, invocando os apelos do Papa Leão XIV por uma paz “desarmada e desarmante” e o respeito pela Carta das Nações Unidas.

Continuaremos a acompanhar o princípio da autodeterminação dos povos e a acompanhar solidariamente o povo venezuelano na sua luta pelo respeito pelos seus direitos humanos e por uma vida digna, incluindo a comunidade hoje em diáspora.”

Também a Repam e a Ceama emitiram uma nota conjunta de solidariedade, expressando “proximidade fraterna” ao povo venezuelano perante acontecimentos que “agravam a violência” e violam os princípios democráticos.

As instituições eclesiais alertam para os riscos de intervenções armadas externas, sublinhando que o uso de forças bélicas “põe em perigo a paz e abre a porta a um confronto de maiores proporções”, num cenário regional já marcado por alta tensão.

Citando a mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz de 2026, os responsáveis católicos da Amazónia defendem que o momento exige “unidade” para fortalecer o compromisso com a democracia, os direitos humanos e a justiça socioambiental.

“O bem do amado povo venezuelano deve prevalecer acima de qualquer outra consideração”, insistem a Repam e a Ceama, recuperando as palavras do Papa no Ângelus deste domingo, onde pediu a garantia da soberania do país.

Em sintonia com a Conferência Episcopal da Venezuela, as organizações apelam à “oração fervorosa” pela paz e rejeitam qualquer tipo de violência, pedindo a Deus que proteja a “vida digna” das populações locais.

O Papa manifestou este domingo a sua “preocupação” com a situação na Venezuela, após a intervenção dos EUA para capturar e julgar Nicolás Maduro, presidente do país, apelando ao respeito pela “soberania” de cada nação.

“Com o coração cheio de preocupação, acompanho os desenvolvimentos da situação na Venezuela. O bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outra consideração e levar a superar a violência e a empreender caminhos de justiça e paz”, disse Leão XIV, desde a janela do apartamento pontifício, após a recitação do ângelus.

O Papa apelou a todas as partes, para que garantam “a soberania do país, assegurando o Estado de direito inscrito na Constituição, respeitando os direitos humanos e civis de cada um e de todos”.

Leão XIV convidou os venezuelanos a trabalhar para “construir juntos um futuro sereno de colaboração, estabilidade e concórdia, com especial atenção aos mais pobres que sofrem devido à difícil situação económica”.

Os Estados Unidos lançaram na madrugada de sábado “um ataque em grande escala contra a Venezuela” e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.

O anúncio foi feito pelo presidente norte-americano, Donald Trump, horas depois do ataque contra Caracas, que levou à captura de Nicolás Maduro e da primeira-dama da Venezuela, Cilia Flores.

Em resposta a esta intervenção, o Governo venezuelano denunciou a “gravíssima agressão militar” dos Estados Unidos e decretou o estado de exceção.

OC

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