Arcebispo brasileiro afirma que o presidente dos EUA é «malévolo» e rejeita «absolutamente» a ideia da América do Sul como «quintal dos Estados Unidos»

Lisboa, 06 jan 2025 (Ecclesia) – O arcebispo brasileiro D. Luiz Fernando Lisboa rejeitou “absolutamente” o ataque militar dos EUA à Venezuela, considerando-o um “absurdo”, e apontou críticas ao presidente norte-americano, mostrando-se preocupado com as ameaças a outros países.
Em declarações à Agência ECCLESIA, esta segunda-feira, em Lisboa, o bispo da diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim disse ter visto com “muita tristeza” e com “muito espanto” a intervenção norte-americana no país sul-americano, no sábado, durante a qual foram capturados o chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores.
“Quando as pessoas acham que são donas do mundo, que podem tudo, acontece isso. [Donald] Trump tem a mentalidade de que a América do Sul é quintal dos Estados Unidos. Ele quer ressuscitar uma teoria antiga, mas nós rejeitamos absolutamente isso”, afirmou.
O arcebispo brasileiro salienta que o regime até “pode não ser o mais adequado, os líderes podem falhar o quanto for, mas nada justifica uma invasão”, indicando que “os EUA querem é o petróleo da Venezuela”.
“Não justifica essa invasão. Cada povo é soberano e deve autodeterminar-se, não o outro país invadir e querer comandar o outro”, reforça.
Sobre as consequências para outros países e as ameaças de Donald Trump, D. Luiz Lisboa mostrou-se apreensivo, acrescentando que ninguém sabe o que pode acontecer no futuro.
Alguns dizem que o [Donald] Trump é louco. Eu não concordo. Ele é mau, é malévolo. É uma política má de domínio, uma política imperialista, de acharem que eles podem tudo. Já falou da Gronelândia, já falou do canal do Panamá. Ele está cumprindo aquilo que todo mundo achava que era uma grande asneira”, referiu.
O bispo da diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim disse que a situação “preocupa muito” também os brasileiros, uma vez que o país tem a Amazónia, minérios, terras raras que, segundo D. Luiz Lisboa, interessam ao presidente dos EUA.
“Já andou a falar sobre isso. Então preocupa-nos. Porque tanto o Brasil, como Colômbia, como Chile, são lugares ricos em recursos. Ele começou na Venezuela. Não é impossível que ele queira expandir essa maluquice para outros lugares”, expressou.
Ainda assim, o responsável católico destaca a contestação que Donald Trump já está a enfrentar dentro dos EUA, nomeadamente dentro do próprio partido: “Não é possível que os republicanos não vejam os absurdos que esse homem está a cometer. Não é possível que eles aceitem isso, só se forem pessoas que não pensam, que não refletem, que não têm visão de mundo”.
Questionado sobre a nova ordem internacional que está a nascer e uma possível tensão entre os EUA, Rússia e China no futuro, D. Luiz Lisboa entende que “é importante que haja um conserto entre líderes mundiais”.

“Vários países já se manifestaram contra essa ocupação da Venezuela. É uma pena que a ONU esteja tão desgastada e sem poder nenhum, porque ela seria uma instância de apaziguar e de dar orientações, mas, infelizmente, está do jeito que está”, lamentou.
À semelhança do Papa, que pediu que se respeite a soberania do país, o arcebispo brasileiro espera que líderes grandes mundiais se posicionem e que haja “algum encontro” para que se tirem “alguns consensos”.
O presidente [Donald] Trump tem que ser questionado e tem que haver alguém que o pare, porque não é possível ele colocar em prática essas coisas que ele tem falado”, sublinhou.
D. Luiz Lisboa considera que, infelizmente, a Europa “está muito enfraquecida”, lembrando as tarifas que o presidente dos EUA impôs e que o continente “aceitou”, o que, segundo o arcebispo, não deveria ter feito.
Apesar disso, o entrevistado reconhece que a Europa ainda tem um “grande papel”, porque são vários os países que dela fazem parte que têm um “poderio muito forte”.
“Teriam que se unir para tomar uma posição mais enérgica, mais forte em relação ao que está acontecendo”, declarou.
| Sobre o cenário internacional marcado por guerras, D. Luiz Lisboa evidenciou os conflitos em África, que nunca são falados, e que surgem por causa de “recursos naturais”.
“Quando nós falamos de Cabo Delgado, em Moçambique, lá onde eu vivi e fui bispo, há um milhão de deslocados. Isso já é um absurdo. Mas quando falamos de Sudão, são 13 milhões de refugiados. E não se fala nessa guerra”, destacou. O arcebispo brasileiro recordou a invasão da Ucrânia, enfatizando que o que a Rússia pretende é retomar o território do país invadido: “Isso é muito triste. Guerra por causa de poderio económico, por causa de ganância. É o que está acontecendo”. Apesar de já não ser bispo de Pemba, papel que ocupou entre 2013 e 2021, D. Luiz Lisboa relata que continua a acompanhar a situação em Cabo Delgado e mantido o contacto com D. António Juliasse, atual bispo. “Falo muito sobre África. Eu saí há quase cinco anos de África, mas África nunca vai sair. A experiência que eu fiz em África foi muito importante, aprendi muito, gostei muito. Então, tudo o que eu posso fazer para ajudar, eu faço”, disse. |
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