Leão XIV propõe uma «paz desarmada e desarmante», que começa no coração e recusa a violência

Cidade do Vaticano, 18 dez 2025 (Ecclesia) – O Papa denunciou hoje, na sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, a instrumentalização da religião para fins violentos, rejeitando discursos de exclusão e guerra
“Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada”. refere Leão XIV, na mensagem para o 59.º Dia Mundial da Paz, que se celebra a 1 de janeiro de 2026.
O texto, divulgado pelo Vaticano, destaca que as grandes tradições espirituais convidam os crentes a ir “além dos laços de sangue e étnicos”.
“Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus. Por isso, juntamente com a ação, é mais do que nunca necessário cultivar a oração, a espiritualidade, o diálogo ecuménico e inter-religioso como caminhos de paz e linguagens de encontro entre tradições e culturas”, exorta Leão XIV.
O Papa convida cada comunidade cristã a tornar-se uma “casa de paz”, onde se neutraliza a hostilidade através do diálogo e onde se pratica o perdão, mostrando ao mundo que a concórdia “não é uma utopia”.
A mensagem propõe revolução “silenciosa” baseada na paz de Cristo, apresentando-a como uma realidade “desarmada e desarmante” que deve transformar as relações pessoais e comunitárias.
“Os sucessores dos apóstolos exprimem todos os dias e em todo o mundo a revolução mais silenciosa: ‘A paz esteja convosco!’. Desde a noite da minha eleição como bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio”, escreve o pontífice.
O texto retoma a primeira saudação do sucessor de Francisco, a 8 de maio, quando se dirigiu à multidão reunida na Praça de São Pedro com a saudação “A paz esteja convosco”, apresentada agora como uma “mudança definitiva” para quem a acolhe.
“A paz de Jesus ressuscitado é desarmada, porque desarmada foi a sua luta, dentro de precisas circunstâncias históricas, políticas e sociais”, sustenta o Papa, convidando os fiéis a libertarem-se interiormente do “engano da violência”.
O documento, intitulado ‘Rumo a uma paz desarmada e desarmante’, alerta para o risco de ceder a “narrativas privadas de esperança” e marcadas pelo medo.
Leão XIV elogia os promotores da paz que, “no drama daquilo que o Papa Francisco definiu como ‘terceira guerra mundial em pedaços’, ainda resistem à contaminação das trevas, como sentinelas na noite”.
O Papa cita o pensamento de Santo Agostinho para lembrar que a paz deve ser primeiro uma conquista interior: “Se quereis atrair os outros para a paz, tende-a vós primeiro”.
Esta paz, acrescenta, não é um ideal distante ou passivo, mas uma “presença e um caminho” que exige escolhas concretas no quotidiano.
“A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança”, reflete o pontífice, recordando a celebração do Natal e apontando o cuidado com os mais frágeis e com as crianças como caminho para desarmar o coração.
O Dia Mundial da Paz foi instituído, em 1968, pelo Papa São Paulo VI (1897-1978), e é celebrado no primeiro dia do novo ano.
OC
