Vaticano: Papa anuncia consistórios anuais e convoca novo encontro de cardeais para junho

No encerramento da reunião extraordinária com o Colégio Cardinalício, Leão XIV confirmou realização de Assembleia Eclesial em outubro de 2028

Cidade do Vaticano, 08 jan 2026 (Ecclesia) –Leão XIV anunciou hoje, no Vaticano, a intenção de se reunir o Colégio Cardinalício com uma periodicidade anual, confirmando já um novo consistório para o próximo mês de junho.

Ao concluir a terceira e última sessão de trabalhos do primeiro Consistório extraordinário do seu pontificado, que reuniu cerca de 170 cardeais, o Papa explicou que esta decisão surge em “continuidade” com as solicitações feitas pelos cardeais durante as congregações gerais que precederam o conclave de 2025, no qual foi eleito.

O próximo encontro terá a duração de dois dias e decorrerá junto à solenidade dos Santos Pedro e Paulo (29 de junho).

Segundo Leão XIV, a intenção é que os futuros consistórios possam ser alargados para uma duração de três a quatro dias, servindo como “prefiguração do caminho futuro” da Igreja.

Na sua intervenção final, o Papa confirmou também a realização da Assembleia Eclesial de outubro de 2028, um evento inédito anunciado originalmente em março passado e que servirá como novo marco no processo sinodal global.

De acordo com o calendário divulgado pelo Vaticano, para a implementação das orientações da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (2021-2024), o ano de 2026 será focado na incidência local (dioceses), seguindo-se em 2027 as assembleias de avaliação nacionais e internacionais, e em 2028 as assembleias continentais, antes da inédita Assembleia Eclesial.

Após uma Missa presidida pelo Papa, esta manhã, os cerca de 170 cardeais presentes estiveram reunidos em duas sessões de trabalhos, que se focaram nos temas da sinodalidade e da evangelização, escolhidos na tarde de quarta-feira, primeiro dia do encontro.

Segundo o portal de notícias do Vaticano, Leão XIV esclareceu que as outras questões propostas – a Liturgia e a reforma da Cúria Romana – “não devem ser esquecidas”, uma vez que estão “fortemente ligadas” ao magistério conciliar.

A sessão de encerramento foi também marcada por um olhar sobre a “situação geral do mundo”, com o Papa e os cardeais a sublinharem a urgência de uma resposta eclesial perante os cenários de conflito.

Leão XIV manifestou a sua proximidade às comunidades cristãs que “sofrem guerras e violência”, reforçando o papel da Igreja como sinal de paz e comunhão nestes contextos.

O Papa dirigiu ainda um agradecimento especial aos cardeais mais idosos que viajaram até Roma, classificando o seu esforço e testemunho como “preciosos” para a vida da Igreja universal.

Em conferência de imprensa, esta noite, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, destalhou que os trabalhos matinais se centraram na sinodalidade entendida como “ato eclesial” e missionário, sob a moderação de D. José Tolentino Mendonça, cardeal português e prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação.

O diretor da sala de imprensa da Santa Sé referiu que a reflexão introdutória do cardeal Mario Grech, secetário-geral do Sínodo, apresentou a sinodalidade como “colegialidade na comunhão”, mantendo o primado do Bispo de Roma [o Papa] como princípio de unidade, antes de sublinhar a necessidade de aprofundar uma “espiritualidade da escuta” onde a estrutura hierárquica se enriquece com a “participação missionária de todo o povo de Deus”.

Matteo Bruni relatou que os grupos de trabalho insistiram na valorização dos organismos de participação e na “internacionalização” da Cúria Romana nas suas relações com as conferências episcopais.

Houve ainda referências à necessidade de novas diretrizes no Direito Canónico, com os cardeais a defenderem que a sinodalidade “cresce nas periferias” e tem como fim a missão, devendo refletir-se numa “forma de exercer a autoridade” e numa formação para uma eclesiologia “mais relacional”.

Sobre a sessão da tarde, o porta-voz do Vaticano indicou que o foco recaiu na “frescura” da exortação ‘Evangelii Gaudium’ (2013), do Papa Francisco, sobre o anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo, afastando a ideia de que seja um texto ultrapassado.

Bruni citou a intervenção do cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o qual reafirmou a centralidade do “anúncio do querigma”, definido como a manifestação do “amor salvífico de Deus em Jesus Cristo”, e realçou a urgência de uma “paixão pelo povo” e de uma “conversão sinodal missionária” que coloque em segundo plano tudo o que não serve o primeiro anúncio.

O responsável pela comunicação da Santa Sé partilhou que os cardeais descreveram a Igreja como um “hospital de campanha”, chamada a aproximar-se com humildade das “vidas quebradas” e das pessoas marginalizadas.

Matteo Bruni acrescentou  que o debate valorizou a oração como “primeira forma de missão” e alertou para a importância de evitar que a “linguagem da fé seja arrastada para as batalhas da política”, privilegiando o testemunho da “ternura como forma de beleza” e o papel da comunicação no mundo digital.

A concluir o dia, Matteo Bruni referiu que o Papa Leão XIV agradeceu a “sinodalidade não técnica” vivida no encontro, vendo-a como um instrumento para “crescer nas relações” e conhecer melhor os participantes.

O Colégio Cardinalício conta atualmente com 245 membros (122 eleitores e 123 com mais de 80 anos), de 92 países.

Este Consistório extraordinário aconteceu oito meses após o conclave de 2025, que escolheu Leão XIV, no qual estiveram quatro portugueses: D. Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima; D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação; e D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal.

OC

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