Vaticano: Papa alerta contra «fantasmas da divisão» no governo central da Igreja

Leão XIV evoca «voz profética» do Papa Francisco no seu primeiro discurso de Natal aos responsáveis dos organismos centrais de governo da Igreja

Foto Vatican Media/EPA/Lusa

Cidade do Vaticano, 22 dez 2025 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje os cardeais e responsáveis da Cúria Romana sobre a qualidade das suas relações humanas, alertando contra os “fantasmas da divisão” no governo central da Igreja.

“Por vezes, por trás de uma aparente tranquilidade, agitam-se os fantasmas da divisão. E estes fazem-nos cair na tentação de oscilar entre dois extremos opostos: uniformizar tudo sem valorizar as diferenças ou, pelo contrário, exacerbar as diversidades e os pontos de vista em vez de procurar a comunhão”, apontou Leão XIV, num encontro transmitido pelos meios de comunicação do Vaticano.

No primeiro encontro de Natal com a Cúria Romana, o Papa prestou homenagem ao seu antecessor, que faleceu a 21 de abril.

Desejo antes de mais recordar o meu amado predecessor, Papa Francisco, que neste ano concluiu a sua vida terrena. A sua voz profética, o seu estilo pastoral e o seu rico magistério marcaram o caminho da Igreja nestes anos, encorajando-nos sobretudo a recolocar a misericórdia de Deus no centro”.

Leão XIV abordou a vida interna da Cúria (“ad intra”), sublinhando que, ao tratar temas de fé, liturgia ou moral, os colaboradores da Santa Sé podem correr o risco de cair “vítimas da rigidez ou da ideologia, com as contraposições que daí advêm”.

O discurso apresentou uma reflexão o ambiente de trabalho e as ambições pessoais, no Vaticano.

“Percebemos com desgosto que certas dinâmicas relacionadas ao exercício do poder, ao desejo desenfreado de se destacar e à defesa dos próprios interesses não mudam facilmente. E perguntamo-nos: é possível ser amigos na Cúria Romana? Ter relações de amigável fraternidade?”, interrogou o pontífice.

Leão XIV defendeu a necessidade de uma conversão pessoal onde “caem máscaras e subterfúgios” e onde “as pessoas não são usadas nem “passadas por cima”.

O Natal recorda-nos que Jesus veio para nos revelar o verdadeiro rosto de Deus como Pai, para que todos pudéssemos tornar-nos seus filhos e, em consequência, irmãos e irmãs entre nós. O amor do Pai, que Jesus encarna e manifesta nos seus gestos de libertação e na sua pregação, torna-nos capazes, no Espírito Santo, de ser sinal de uma nova humanidade”.

O discurso abordou a dimensão externa da missão (“ad extra”), realçando que as estruturas da Igreja devem estar ao serviço da evangelização.

“As estruturas não devem sobrecarregar, retardar a difusão do Evangelho ou impedir o dinamismo da evangelização”, referiu, acrescentando que é necessária “uma Cúria Romana cada vez mais missionária” e não apenas “para garantir a administração ordinária”.

O Papa deixou ainda uma palavra para o contexto mundial, lamentando o clima de tensão social e política na sociedade.

“Assistimos também a um aumento da agressividade e da raiva, frequentemente instrumentalizadas pelo mundo digital e pela política”, observou, pedindo que a Igreja seja “fermento de fraternidade universal”.

A encerrar a sua intervenção, Leão XIV recordou os 50 anos da exortação ‘Evangelii Nuntiandi’, de São Paulo VI, sublinhando que “o testemunho de uma vida autenticamente cristã” é “o primeiro meio de evangelização”.

A intervenção XIV decorreu na reta final do Jubileu convocado e aberto pelo Papa Francisco.

O Jubileu deste ano lembrou-nos que somente Cristo é a esperança que não engana. E, justamente durante o Ano Santo, datas importantes nos fizeram lembrar outros dois eventos: o Concílio de Niceia, que nos remete às raízes da nossa fé, e o Concílio Vaticano II, que, fixando o olhar em Cristo, consolidou a Igreja e a impulsionou ao encontro do mundo, na atitude de escutar as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje”.

A saudação inicial esteve a cargo do cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício, que destacou o impacto do Ano Santo e elogiou os “apelos à reconciliação e à paz desarmada e desarmante”, no atual pontificado.

O Papa reúne-se ainda hoje com os trabalhadores da Santa Sé, Estado da Cidade do Vaticano e Vicariato de Roma, para a troca de votos natalícios.

OC

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