Vaticano nega conflito com o governo espanhol

O Vaticano negou hoje tenha qualquer intenção de abrir um conflito com o Governo espanhol, apelando ao diálogo entre as partes para resolver as questões que se levantaram após o discurso de João Paulo II no início desta semana. Esta foi a resposta a um comunicado lançado ontem pelo Ministério espanhol dos Negócios Estrangeiros, no qual se criticava o discurso do Papa aos bispos espanhóis em visita ad Limina, de 24 de Janeiro passado. Em declarações proferidas esta manhã pelo director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, a Igreja Católica manifestou a sua vontade de dialogar num espírito “de respeito mútuo” com o executivo socialista liderado por Zapatero. “Recebemos com satisfação a vontade do Governo espanhol em manter uma relação frutuosa com a Igreja, através de um diálogo permanentemente animado pelo respeito mútuo”, assinalou o porta-voz do Vaticano. “Esta foi e será sempre a linha da Santa Sé”, acrescentou. O representante do Papa em Espanha, Núncio Manuel Monteiro de Castro, encontrou-se ontem com o subsecretário dos Negócios Estrangeiros de Espanha, Luis Calvo, que manifestou a “estranheza do Governo” pelas referências do Papa a restrições de liberdade religiosa no país por parte do Executivo. No comunicado emitido pelo ministério espanhol nega-se que “um suposto laicismo restritivo que pudesse limitar a liberdade religiosa possa ser atribuído a uma atitude deliberada do Governo”. Em resposta a estas críticas, Navarro-Valls sugeriu “uma leitura atenta de todo o discurso do Papa, porque ilustra bem a posição da Igreja”. Na passada segunda-feira, João Paulo II criticou duramente o crescimento da “mentalidade inspirada no laicismo” em Espanha, considerando que essa ideologia leva à restrição da liberdade religiosa. O Papa indicou que a Igreja Católica não pode admitir que a fé seja relegada para a esfera do privado. “No âmbito social, vai-se difundindo uma mentalidade inspirada no laicismo, ideologia que leva gradualmente, de forma mais ou menos consciente, à restrição da liberdade religiosa, ao promover o desprezo ou ignorância do religioso, relegando a fé para a esfera do privado e opondo-se à sua expressão pública”, referiu. O Papa sublinhou que a Espanha é um país de forte tradição católica, com marcas “na vida e cultura dos espanhóis”, que não pode ser silenciada. “Um recto conceito de liberdade religiosa não é compatível com esta ideologia (laicismo, ndr), que por vezes se apresenta como a única voz da racionalidade”, disse João Paulo II, em referência directa aos vários atritos entre a Igreja Católica e o governo socialista de Zapatero. Os Bispos espanhóis foram alertados pelo Papa para a necessidade de encontrar soluções diante do crescimento, nas novas gerações, “do indiferentismo religioso, a ignorância das tradições cristãs, com o seu rico património espiritual e cultural, e o permissivismo moral”.

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