Na meditação de abertura do Consistório extraordinário, cardeal Timothy Radcliffe pediu unidade e abertura à «novidade inesgotável de Deus»

Cidade do Vaticano, 07 jan 2026 (Ecclesia) – O cardeal Timothy Radcliffe desafiou hoje o Colégio Cardinalício a acompanhar o Papa Leão XIV no meio das “tempestades terríveis” da atualidade, rejeitando uma postura de recuo ou de divisão ideológica.
“Jesus ordenou aos discípulos que entrassem no barco e fossem à sua frente. Pedro não deve enfrentar a tempestade sozinho. Esta é a nossa primeira obediência: estar na barca de Pedro, com o seu sucessor, enquanto ele enfrenta as tempestades dos nossos tempos”, afirmou o teólogo dominicano, na meditação que abriu os trabalhos do Consistório extraordinário, no Vaticano.
O assistente espiritual da assembleia sinodal (2023-2024) sublinhou que os cardeais não podem permanecer “na praia” a criticar o rumo da Igreja, mas são chamados a uma unidade que permita ao Papa exercer o seu ministério.
“Se o barco de Pedro estiver cheio de discípulos que discutem, não seremos úteis ao Santo Padre. Se estivermos em paz uns com os outros no amor, mesmo quando discordamos, Deus estará realmente presente”, advertiu, numa reflexão divulgada pelo Vaticano.
O cardeal Radcliffe traçou um cenário de crise global, citando a violência crescente, o abismo entre ricos e pobres e as incertezas provocadas pela Inteligência Artificial.
“A ordem mundial que surgiu após a última guerra mundial está a desmoronar-se. Se não estamos nervosos, deveríamos estar”, observou.
No campo eclesial, o religioso dominicano referiu que a própria Igreja é abalada por “tempestades” de abusos sexuais e divisões.
“O Senhor ordena-nos que naveguemos nessas tempestades e as enfrentemos com sinceridade, sem esperar timidamente na praia. Se fizermos isso neste Consistório, veremos que Ele vem até nós. Se nos escondermos na praia, não o encontraremos”, advertiu.
Sobre a dinâmica interna do Colégio Cardinalício, o pregador rejeitou qualquer disputa entre os “defensores da memória”, que valorizam a tradição, e os que se alegram com a “novidade surpreendente de Deus”.
A memória e a novidade são inseparáveis na dinâmica da vida cristã. As nossas discussões ganharão vida se estivermos enraizados na nossa memória das grandes coisas que o Senhor fez e abertos à sua novidade sempre renovada.”
Este é o primeiro consistório do pontificado de Leão XIV, eleito em maio de 2025, e assume o formato de uma reunião extraordinária para “consulta alargada”.
Os trabalhos, que decorrem à porta fechada na Sala do Sínodo, incidem sobre a missão da Igreja (Evangelii Gaudium), a reforma da Cúria (Praedicate Evangelium), a sinodalidade e a liturgia.
A agenda prossegue esta quinta-feira com uma Missa presidida pelo Papa às 07h30 (06h30 em Lisboa), no Altar da Cátedra, seguida de duas sessões de trabalho para concluir o discernimento sobre as prioridades da Igreja para os próximos dois anos.
Ao contrário dos consistórios ordinários (habitualmente para a criação de novos cardeais), estas reuniões extraordinárias são momentos de consulta alargada. O Papa Francisco convocou dois encontros semelhantes durante o seu pontificado: em 2014, sobre a família; e em 2022, sobre a reforma da Cúria Romana.
Muitos dos participantes estiveram presentes, esta terça-feira, na cerimónia de encerramento da Porta Santa e na Missa da Epifania, que marcou o fim do Jubileu.
Entre os eleitores do Conclave de 2025, que escolheu Leão XIV, estiveram quatro portugueses: D. Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; D. António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima; D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação; e D. Américo Aguiar, bispo de Setúbal.
O Colégio Cardinalício conta atualmente com 245 membros (122 eleitores e 123 com mais de 80 anos), de 92 países.
OC
