Faculdade de Medicina de Lisboa volta a travar Médicos de Leste. 86% dos chumbos, no exame de equivalência de curso, ocorreram nesta instituição Um conjunto de médicos provenientes de países de Leste foi desafiado a lutar pelo sonho de exercer a sua profissão no nosso país, mas a realidade está a deixar muitos deles à beira do desespero. Vinte e dois médicos de vários países fizeram na semana passada o exame de equivalência de curso, na Faculdade de Medicina de Lisboa. O resultado foi esmagador: apenas três conseguiram passar. São onze homens e onze mulheres, com idades entre os 25 e os 45 anos, que, na maioria, falharam uma prova muito dura, capaz de mudar as suas vidas. Todos passaram pelo processo da confirmação documental do grau de habilitações académicas obtidas nos países respectivos, e desde há seis meses estavam em estágio num hospital central, o de Santa Maria. O Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) deu um primeiro passo e estabeleceu um protocolo com a Fundação Calouste Gulbenkian que permite a estes médicos efectuarem um estágio profissional e os exames que lhes permitam obter a equivalência para o exercício da profissão em Portugal. Rosário Farmhouse, directora do JRS em Portugal, fala de um caminho sofrido. “Nenhum deles chegou ao nosso país como estudante, mas como trabalhadores. Nós desafiamo-los a deixar o trabalho que tinham, e criaram-se expectativas que depois não se concretizam”, constata. Os médicos que aderem ao projecto têm um curso de português, inscrevem-se na faculdade após o reconhecimento dos documentos e fazem o referido estágio (de 4 a 6 meses). No final do estágio são confrontados com o exame de estado, seguindo depois para uma ano e meio de medicina tutelada. Para o protocolo de 3 anos com a Gulbenkian estão inscritos 120 médicos. O insucesso na altura dos exames preocupa seriamente a directora do JRS-Portugal. “A minha primeira reacção é de admiração, porque não sei o que se passa em Santa Maria, onde grande parte dos médicos chumba sempre, enquanto nas outras universidades não”, revela. Os números são eloquentes: até agora 65 médicos fizeram exame, 43 passaram, 22 chumbaram, sendo que 19 destes “chumbos” ocorreram na Faculdade de Medicina de Lisboa, o que equivale a 86% dos casos. Rosário Farmhouse assegura que o presidente do júri de avaliação se limitou a explicar que os médicos “não estavam preparados”. A partir de agora é preciso “dar acompanhamento psicológico” aos últimos 19 médicos “chumbados”, para depois tentar encontrar-lhes trabalho, relata esta responsável. “É uma pena que não se aproveite a capacidade destas pessoas, alguns com 25 anos de experiência”, lamenta. A respeito deste protocolo, já tinha sido divulgado que a integração dos médicos com as equivalências não foi tão fácil como julgavam os intervenientes, sobretudo a nível da inserção social. O programa tem ainda 20 a 30 candidatos, em lista de espera, e mais de 50 imigrantes já contactaram o JRS-Portugal, que de momento prefere não criar expectativas.
