Um Concílio para a história

Pensar a Igreja 40 anos depois do Vaticano II Há 40 anos, no dia 8 de Dezembro de 1965, Paulo VI fechava o Concílio Vaticano II, abrindo na Igreja uma nova época de desejos, expectativas, esperanças. Articulada na multiplicidade de ministérios e enriquecida pela variedade de carismas, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica passava a entender-se como Comunhão, na linha da Constituição Dogmática “Lumen Gentium”. As mudanças da concepção do Concílio sobre o lugar do laicado é uma das suas marcas mais importantes, que ainda hoje perduram. Eduardo Borges de Pinho, professor de Teologia na UCP, refere ao programa ECCLESIA que “a partir dali voltou-se a tomar consciência de que o cristão, cada um, é sujeito da sua própria história de fé”. Nesse sentido, refere o especialista, a experiência dos primeiros séculos é “um dos elementos absolutamente decisivos para que nós hoje falemos da Igreja como comunhão, que se sabe realizada em cada lugar – daí a importância da Igreja local, que o Concílio coloca novamente em primeiro plano – e suportada pelas variadíssimas vocações, pelo chamamento de cada um ao que Deus lhe pede”. “Há distinções feitas por nós que serão permanentes porque são funcionais, como aquela entre leigos e clérigos, mas é preciso lembrar que os primeiros cristãos viviam a fé de uma maneira muito mais natural, expontânea, muito menos marcada por essas concepções e práticas que, em grande parte, vêm de uma história de quase 2 mil anos”, refere Borges de Pinho. O “retomar” do lugar dos leigos dentro da Igreja é considerado “decisivo” pelo professor, mas não isenta de riscos: “houve uma altura em que se pensou o Povo de Deus, os leigos, de um lado, e os ministros ordenados por outro”. “Na realidade todos pertencem ao Povo de Deus, não há essa dicotomia, mas é evidente que não se trata aqui de fazer qualquer tipo de questionamento ao lugar do ministério ordenado na Igreja. Trata-se de reposicionar as questões, equilibrar aquilo que cada um é chamado a fazer”, acrescenta. A valorização da diversidade de carismas é, para Borges de Pinho, um dos maiores dados do Concílio em termos de reflexão eclesiológica, ao “chamar a atenção para o Espírito Santo no nascimento e construção da Igreja ao longo dos tempos”. “Não podemos compreender a acção da Igreja sem esta acção continuada do Espírito”, indica. “Tudo isto era uma grande mudança. O esquema piramidal era um esquema cristomonista, e o Concílio veio dizer que é a acção do Espírito, que vem do Pai e de Jesus, que dá a capacidade de perceber e de viver o que Jesus significa para nós e para a história da humanidade”, prossegue. Nesta linha, compreender-se-á que “cada cristão é capacitado pelo Espírito para uma determinada vocação, para um determinado caminho e serviço”. “A questão do ser leigo na Igreja adquire um sentido positivo: não é um não-clérigo, mas aquele que tem carismas que informam positivamente a sua existência e que é chamado a realizar na Igreja e no mundo”, esclarece Borges de Pinho. Igreja aberta a todos A Constituição lança os fundamentos para uma Igreja aberta à humanidade, conceito que viria a ser desenvolvido na “Gaudium et Spes”. Para Eduardo Borges de Pinho, esta ideia começa a estar presente logo no início da “Lumen Gentium”, quando se diz que “a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano” (nº 1). “A Igreja é colocada numa linha de serviço, afirmando-se que não existe para si mesma, mas para ser um sinal. Portanto, tudo o que ela faz só tem sentido se for anúncio, testemunho do Evangelho no mundo em que vivemos”, precisa. Esta reflexão é desenvolvida nos nn. 13 a 16, quando se aborda a questão da pertença à Igreja num sentido positivo. “Toda a humanidade, no plano salvífico de Deus, está de uma maneira ou de outra relacionada com a Igreja”, observa Borges de Pinho. Sobre a possibilidade de um novo Concílio, o teólogo assegura que ainda há muito caminho por fazer relativamente ao Vaticano II, “porque todo o acontecimento conciliar tem o seu processo de recepção e há questões que só o tempo ajudará a amadurecer”. “A tarefa primeira é, neste momento, explicitar, concretizar e ser fiéis ao Concílio Vaticano II”, conclui.

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