Turquia: Leão XIV desafia católicos e ortodoxos a trabalho conjunto diante de desafios da guerra, da crise ecológica e das novas tecnologias

Papa e Patriarca ecuménico e apelam à «paz» e «unidade», face a um mundo fragmentado

Foto: Lusa/EPA

Istambul, Turquia, 30 nov 2025 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje, na sede do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, na Turquia, a um trabalho conjunto de católicos e ortodoxos face aos desafios da guerra, da crise ecológica e das novas tecnologias.

“Neste tempo de violência e conflitos sangrentos em lugares próximos e distantes, os católicos e os ortodoxos são chamados a ser construtores de paz. Trata-se certamente de agir, fazer escolhas e realizar gestos que edifiquem a paz, sem esquecer que ela não é apenas fruto do empenho humano, mas é um dom de Deus”, disse Leão XIV, no final da celebração da Divina Liturgia na Igreja Patriarcal de São Jorge, em Istambul, presidida pelo patriarca Bartolomeu.

Na festa de Santo André, irmão de São Pedro e padroeiro da Igreja de Constantinopla, o Papa sustentou que os cristãos devem cuidar “de toda a humanidade e de toda a criação”.

Sobre a questão ambiental, Leão XIV elogiou a liderança de Bartolomeu, conhecido como o “patriarca Verde”, e pediu uma “conversão espiritual” para salvaguardar a criação.

“Católicos e ortodoxos são igualmente chamados a trabalhar juntos na promoção de uma nova mentalidade, para que todos reconheçam a responsabilidade de cuidar da criação que Deus nos confiou”, indicou.

O Papa identificou ainda um terceiro “desafio comum”, ligado ao uso das novas tecnologias, especialmente no campo da comunicação.

“Católicos e ortodoxos devem trabalhar juntos para promover o seu uso responsável, a serviço do desenvolvimento integral das pessoas, e a sua acessibilidade universal, para que esses benefícios não sejam reservados a um pequeno número de pessoas e aos interesses de poucos privilegiados”, declarou.

No seu discurso, Leão XIV definiu a busca pela unidade como “uma das prioridades da Igreja Católica” e do seu ministério, garantindo que o caminho para a plena comunhão deve respeitar as “legítimas diferenças”.

Já o líder da Igreja Ortodoxa destacou que a unidade cristã “não é um luxo”, mas “um imperativo, especialmente nestes tempos tumultuosos”, alertando para o sofrimento causado pela violência e pela “exploração desenfreada dos recursos naturais”.

“Não podemos ser cúmplices do derramamento de sangue que ocorre na Ucrânia e em outras partes do mundo e permanecer em silêncio diante do êxodo de cristãos do berço do cristianismo”, declarou Bartolomeu.

“Não podemos ignorar os problemas da poluição, do desperdício e das mudanças climáticas”, acrescentou.

O patriarca ecuménico é considerado como ‘primus inter pares’ entre as várias Igrejas ortodoxas, embora não tenha jurisdição sobre as mesmas, ao contrário do que acontece com o Papa, no caso dos católicos.

Bartolomeu evocou os 60 anos do levantamento dos anátemas, quando o seu antecessor Atenágoras e o Papa Paulo VI assinaram a declaração comum com que católicos e ortodoxos revogaram as excomunhões recíprocas em vigor desde o Cisma de 1054, quando as duas Igrejas se separaram.

Para o responsável, esse gesto representou “primavera espiritual”, após o “inverno das divisões”.

A intervenção evocou ainda a celebração conjunto dos 1700 anos do primeiro concílio ecuménico, em Niceia, que decorreu na sexta-feira.

“O Símbolo da Fé promulgado pelo Concílio de Niceia revela-se uma confissão de fé que transcende o espaço e o tempo”, sustentou o líder ortodoxo.

O Papa e o patriarca abordaram também o trabalho da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico.

“Só podemos rezar para que questões como o ‘filioque’ e a infalibilidade, que a Comissão está atualmente a examinar, sejam resolvidas de forma a que a sua compreensão deixe de constituir um obstáculo à comunhão das nossas Igrejas”, declarou Bartolomeu.

No final da Divina Liturgia, Leão XIV e o patriarca ecuménico dirigem-se à varanda para a bênção ecuménica conjunta, almoçando depois na sede do Patriarcado de Constantinopla.

O Papa encerra assim a sua visita à Turquia, iniciada na quinta-feira, antes de partir para o Líbano.

OC

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