Comissão de Apoio às Vítimas do Tráfico de Pessoas apela à sensibilização para um problema «escondido» mas «próximo da realidade de todos»

Lisboa, 06 fev 2026 (Ecclesia) – A irmã Maria Manoel, presidente da Comissão de Apoio às Vítimas do Tráfico de Pessoas (CAVITP), disse que combater o tráfico de pessoas é responsabilidade de todos e pediu que termine a cultura do “não é comigo”.
“Em Portugal o tráfico para efeitos laborais é o mais frequente e tantas vezes os alimentos que consumimos são fruto de escravatura em cadeias de cultivos nacionais. Muitas vezes não temos consciência da origem do que consumimos, e alguns resultam de trabalho escravo”, indica à Agência ECCLESIA.
A responsável recorda o desmantelamento recente de uma “rede de tráfico no Alentejo, que explorava pessoas vindas do Paquistão e outras nacionalidades”.
“As pessoas estavam ali em condições indignas, sem salários, sem documentos, de forma desumana e a rede foi desmantelada”, explica.
A irmã Maria Manoel, Escrava do Sagrado Coração de Jesus, reconhece uma predominância nas redes de tráfico predominantes em Portugal com o objetivo laboral, mas indica que a “exploração laboral esconde outros contornos”.
Assinala-se a 8 de fevereiro Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, data que a CAVITP procura assinalar com vista à sensibilização da opinião pública para um tema entendido por tantos de forma “escondida mas mais próxima do que se pode pensar”.
“É um grande desafio sensibilizar as congregações religiosas, em especial as masculinas, para este trabalho. A CAVITP tem uma equipa pequena e as congregações não entendem esta área como prioritária na sua missão. É difícil motivar e conscientizar as pessoas em geral e a vida religiosa também para esta causa, sendo que está tão próxima de nós”, lamenta.
A irmã Maria Manoel sublinha a necessidade de combater “discursos populistas” e dar conta de que as pessoas “são vítimas” com uma “grande necessidade de urgência e melhoria de condições de vida”, cuja fragilidade é aproveitada “pelos traficantes”.
“Estas pessoas são vítimas; não são ladrões, não são bandidos – é gente que vem em busca de melhores condições de vida, em situação de fragilidade, e depois ainda são mais fragilizados quando entram nessa dinâmica de acusação, de estigmatização. São pessoas que procuram uma vida digna, que às vezes no próprio país não tem, com guerras, com situações económicas muito dramáticas, e vêm em busca de vida melhor para os filhos, para as famílias. Alguns vêm a trabalhar para depois mandar dinheiro”, dá conta a religiosa.
A nível mundial a irmã Maria Manoel explica que 72% das pessoas traficadas são mulheres e crianças.
A trabalhar em parceria com as autoridades civis e judiciais, a CAVITP e concretamente as ordens religiosas que trabalham diretamente com a população traficada – Irmãs Adoradoras, Irmãs do Bom pastor, Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor, Escravas do Sagrado Coração de Jesus, as irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, irmãs do sagrado Coração de Maria – são chamadas a ser “uma porta aberta” num trabalho que, entende, ser “de formiguinha”.
“Nós vamos tentando estar à par da situação, denunciar quando é possível denunciar e, sobretudo, sensibilizar as pessoas para esta causa, porque quanto mais gente estiver sensibilizada, mais fácil é detetar essas situações. Quando as vítimas são identificadas têm um tempo para reconhecimento da situação e são reconduzidas para casas, reconhecidas pelas autoridades, para que se possa desenvolver um projeto de vida com as pessoas”, explica.
Um trabalho de “acompanhamento, basicamente, de trabalhar as feridas que trazem, de trabalhar a dignidade da pessoa e depois a sua autonomia” – um trabalho que, regista, “não tem um calendário”.
A igreja de São Mamede, em Lisboa, acolhe ao final da tarde uma eucaristia e uma vigília de oração pelas vítimas de tráfico.
“Durante a Vigília vão ser lidos vários testemunhos de pessoas que contam o que viveram. Quem chega procura uma vida melhor, mas procura também quem possa escutar a sua história, reconhecer a sua luta e o seu esforço. Poder falar, restitui dignidade e ser escutado é o primeiro passo para que tal aconteça”, indica.
A conversa com a irmã Maria Manoel pode ser acompanhada no programa ECCLESIA emitido na Antena 1, este sábado, pelas 6h.
LS
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