Sugestões para um exame de consciência

P. João Aguiar Campos, Director do Diário do Minho 1. Leio no “Público” de 17 de Maio de 2003: «Portugueses mudam de opinião sobre a guerra no Iraque». Atraído pelo título e pelo prestígio de quem faz a sondagem – a Universidade Católica Portuguesa – interno-me no texto e dele recolho a constatação: no espaço de um mês, a percepção dos portugueses sobre a intervenção norte-americana e inglesa no Iraque «alterou-se significativamente». E de tal modo que, hoje, 56% consideram que «perante os prós e os contras, a guerra acabou por valer a pena». Isto, quatro semanas depois de 46% afirmarem a recusa liminar do conflito, mesmo que autorizado pela ONU… O texto sugere algumas explicações, que não sei se suportam toda esta volatilidade. Aliás, pareceria lógico que, agora, o encarniçamento anti-bélico pudesse ser maior, tendo em conta que não foram encontradas as tais armas químicas e quejandas, que serviram de pretexto para a acção militar!… Terão sido as valas comuns a justificar a mudança? O desprezo do luxo de Saddam pela miséria do seu povo? O facto de se saber que a simples posse de uma antena parabólica dava, no Iraque, direito a seis meses de cadeia? O consumo lúdico de uma guerra servida ao sofá pelos jornalistas “embebded”, qual jogo de consola? É natural que tudo isto tenha ajudado. Mas não nos esqueçamos do tempo, essa terrível arma de destruição massiva das memórias, já de si tão curtas… Não sei quantos se lembrarão de que o Iraque continua sem paz e o caos no trono, a ponto de o novo administrador civil, Paul Bremer III, ter anunciado, logo que pisou Bagdade, que os militares estão autorizados a «atirar a matar». Mas isso agora até nem parece interessar muito… Basta registar como, pouco a pouco, o Iraque começou a ser secundarizado nos alinhamentos dos noticiários, para acabar quase num rodapé diversivo; o que é mais de meio caminho andado para entrar no rol nutrido das guerras esquecidas… Os políticos e os meios de comunicação social têm, aliás, este dom: tiram e dão “estatuto” aos acontecimentos, com enorme facilidade. Alguns parece sentirem, até, uma extraordinária vaidade em “marcar a agenda”. Mas, fazem-no, as mais das vezes, à custa de dramas reais, esquecidos logo que deixam de servir a sua imagem ou interesses económicos. Arquivam o “assunto”, sem porventura se aperceberem que arrumam… pessoas. Será que os meios de comunicação social católicos sabem resistir a esta voragem?… Fica a pergunta. Com a certeza de que se a resposta for negativa significa que deixaram (deixamos) de ser diferentes exactamente onde a sua diferença é obrigatória: na dimensão ética. 2. À medida que outros “factos” emergem nos media, mais clara se torna, entretanto, a hipocrisia que envolveu e envolve este conflito: a hipocrisia dos que ressuscitaram apressadamente a guerra preventiva, aqui e ali com argumentos messiânicos; assim como a hipocrisia daquilo a que alguém chamou o “pacifismo hemiplégico”, cuidadosamente selectivo – que não pode confundir-se com o genuíno e integral, «que combate as causas da guerra e não as suas consequências e que, além disso, diagnostica correctamente a quem cabem as principais responsabilidades». Concordo que o ataque “aliado” ao Iraque não foi verdadeiramente motivado pelo facto de Bagdade constituir um perigo grave e iminente para a segurança internacional. Mas também não acredito que Berlim e Paris estavam seguros da eficácia das inspecções; ou que não tinham interesses económicos junto de Saddam. Além disso, não sei se alguém será capaz de afirmar, em boa consciência, que não houve políticos-manifestantes movidos apenas pelo aproveitamento de mais um pretexto, apodando os outros de alinhados e seguidistas sem escrúpulos, ou até de prosaicos gangsters do direito internacional… A verdade que a comunicação social tem obrigação de procurar atinge-se mediante percursos em campo minado pela propaganda e desinformação, cujos mestres se ultrapassaram. O prefácio da guerra e o seu desenvolvimento foi notoriamente maniqueu, revelando que os construtores da paz têm uma duríssima tarefa: trabalhar para que sejam esbatidos os egoísmos nacionais, de modo que ganhem forma as solidariedades regionais e, depois, mundiais. Não há guerra nenhuma que se combata com manifestações e sentimentos. Para além das emoções, urge construir uma cultura de paz, sobre os quatro pilares que, há 40 anos, a “Pacem in terris” tão bem enumerava: a verdade, a justiça, a caridade e a liberdade. A Mensagem do Papa João Paulo II para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais é elucidativa e muito pedagógica a este respeito. 3. Passado o escasso tempo que passou, pode agora afirmar-se que fiéis a si mesmos e ao povo iraquiano (e aos povos vítimas de todas as guerras) continuam apenas os verdadeiros construtores da paz: os que não se opõem às guerras por meros motivos políticos ou económicos, mas por razões morais. Como o Papa João Paulo II, para citar apenas o exemplo mais notório e também mais mal compreendido… Explico-me: tenho para mim que o Santo Padre não foi correctamente interpretado por muitos dos que se agarraram às suas palavras e acções, numa espécie de concordância excepcional, fazendo do seu nome um prefixo de credibilidade. Mas não o foi também por muitos católicos que o ouviram distraídos e, por isso, repetem, um pouco desgostosos, o que não disse e situam-no onde não está. Penso que os media católicos de maior expansão têm alguma culpa nestas distorções, que lhes competia evitar ou, ao menos corrigir. Só que nem sempre é fácil resistir a cavalgar também a onda e preferir ter tempo e espaço para interpretar, explicar, contextualizar… A este propósito não posso omitir a recomendação três textos suficientemente breves que pude ler (www.arvo.net): um de Vicente Huerta, resumindo as razões da Igreja para dizer «não» à guerra; outro de Antonio Orozco, que fez uma séria tentativa para «ler e escutar sossegadamente o Papa», deixando ao mesmo tempo vir ao de cima as dúvidas de quem, sentindo-se absolutamente vinculado a princípios, vive a tensão íntima das decisões práticas; e, sobretudo, as considerações de D. Rafaele Renato Martino sobre “o Papa e a paz”. Estas considerações resumem as três linhas de intervenção da Santa Sé perante o conflito: actividade diplomática, oração e jejum. E explicam, claramente, como João Paulo II foi capaz de libertar a paz das ideologias e de toda a eventual instrumentalização, tornando-a indisponível às manipulações partidárias e revelando-a como vocação. Ao fim e ao cabo, a vocação de cada um e de cada “meio” que assume a comunhão como meta da comunicação. Braga, 18 de Maio de 2003

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