Organização fala em «traição à responsabilidade global», criticando governos de vários países por colocarem em risco milhões de vidas
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Roma, 27 fev 2025 (Ecclesia) – A confederação internacional da Cáritas lamentou, em comunicado, a “onda de cortes” na ajuda humanitária, falando numa “traição à responsabilidade global”, particularmente dos governos dos EUA e Reino Unido.
“A Caritas Internationalis deplora a onda de cortes drásticos na ajuda internacional ao desenvolvimento que está a varrer os países mais ricos do mundo. A decisão do Reino Unido de reduzir o referido orçamento em 40% é apenas a mais recente demonstração de indiferença cruel para com os milhares de milhões de pessoas mais pobres do mundo que enfrentam a guerra, a fome e a pobreza”, refere a organização católica, em nota enviada à Agência ECCLESIA.
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou esta terça-feira um aumento dos gastos em armamento, financiado com o corte de 40% nas ajudas humanitárias internacionais feitas pelo Reino Unido.
“Esta medida vai matar milhões de pessoas e trai centenas de milhões de outras que sofrerão imenso com isso”, denuncia a Cáritas.
A organização católica de solidariedade e ação humanitária, presente em mais de 200 países e territórios, incluindo Portugal, destaca o “congelamento de toda a assistência dos EUA”, acrescentando que a França, os Países Baixos, a Suíça e a Alemanha também reduziram a sua assistência internacional, “retirando mais 12,5 mil milhões de dólares aos mil milhões de pessoas mais pobres do mundo”.
“Esta mudança terá consequências devastadoras para milhões de pessoas em todo o mundo, impulsionando a migração forçada e minando a própria estabilidade que estes países procuram proteger. Mais uma vez, as contas das nações mais ricas estão a ser equilibradas à custa das pessoas mais pobres”, alerta a Cáritas.
A Caritas Internationalis está chocada com as decisões destes governos de reduzir os seus orçamentos para a Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD) a favor do aumento das despesas com a defesa”.
A organização católica entende que estas decisões assinalam “um recuo perigoso da responsabilidade global numa altura de crise humanitária sem precedentes”.
A confederação internacional da Cáritas indica que o impacto do congelamento do financiamento dos EUA já está a fazer-se sentir, alertando que “programas críticos de assistência alimentar foram suspensos, empurrando milhões de pessoas – especialmente na África Oriental e no Médio Oriente – para a beira da fome”.
“No Sudão, 24 milhões de pessoas necessitam urgentemente de alimentos, 12 milhões correm o risco de morrer à fome e 750 mil pessoas estão em situação de fome. Na Etiópia, 3 milhões de pessoas perderam serviços essenciais, enquanto na RDCongo 1,2 milhões ficaram sem acesso a assistência vital”, elenca o comunicado.
Segundo a Cáritas, os serviços de saúde foram afetados, limitando o acesso às vacinas, aos cuidados maternos e aos medicamentos.
“No Quénia, as crianças subnutridas deixaram de receber alimentos terapêuticos, o que as coloca em risco de subnutrição aguda e de morte”, pode ler-se na nota.
Não se trata de números abstratos numa folha de orçamento. São vidas perdidas, futuros destruídos e um mundo que se tornou mais volátil”.
A Cáritas apela “vivamente” a todos os governos para que reconsiderem “estes cortes cruéis e honrem os seus compromissos para com as pessoas mais pobres do mundo”.
“As pessoas mais pobres não devem pagar o preço da defesa”, refere o comunicado.
OC