2026 trouxe uma nova realidade geopolítica: de um lado, a intervenção militar direta dos Estados Unidos na Venezuela para capturar Nicolás Maduro; do outro, a pressão sobre a Dinamarca para a compra da Gronelândia. O Papa apela ao respeito pela soberania de cada país e várias organizações católicas recordam o primado do direito internacional. Para nos ajudar a ler este mapa de incertezas, é convidado da ECCLESIA e da Renascença Miguel Monjardino, docente de Geopolítica e Geostratégia no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e analista de política internacional

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
Escreveu recentemente que, do ponto de vista da administração Trump, o que está em curso na Venezuela “não é uma mudança de regime, mas sim uma alteração da chefia do país”. O que é que esta distinção diz sobre a forma como Washington olha agora para a soberania dos Estados?
Do ponto de vista desta administração, a soberania e os interesses dos Estados Unidos da América sobrepõem-se à soberania e os interesses dos países que os EUA consideram estar na sua esfera de influência. Todavia, do meu ponto de vista, na trajetória da história norte-americana, isto não é novo. Ou seja, se nós olharmos para o início do século XIX, com a primeira versão da “doutrina Monroe”, depois com o presidente [Wiliam] McKinley e o presidente Theodore Roosevelt no final do século XIX e início do século XX, e agora com Donald Trump, o que nós vemos é que regularmente os Estados Unidos proclamam este tipo de direito, por assim dizer, imperial. O que é diferente, do meu ponto de vista, é que no início do século XIX, na doutrina Monroe, os Estados Unidos eram fracos militarmente, comparado, por exemplo, com os países europeus, e precisavam de tempo e de espaço para a sua expansão interna. A doutrina Monroe é para impedir ou aniquilar, se quisermos, o Império Espanhol na América Latina; portanto, a soberania das repúblicas latino-americanas era do interesse norte-americano. Agora passa-se o oposto, o que está a mudar é a forma como esta administração interpreta a doutrina Monroe, sobretudo em direção a norte; em direção a sul não me parece ser novo, pode ser é chocante para nós, europeus.
Na última semana, o jornal do Vaticano fez um elenco das intervenções norte-americanas na América Latina, no século XX…
Sim. Só na década antes da Guerra Civil, numa situação de fragilidade interna nos Estados Unidos, conto pelo menos seis intervenções norte-americanas na América Latina. Após a Guerra Civil, quando os Estados Unidos ascendem à condição de grande potência, essa tendência acentua-se. Depois diminuiu, foi reinterpretada, e agora com Donald Trump regressa.
Há uma grande comunidade portuguesa na Venezuela que também está envolvida nesta situação. Existe o risco de que a Venezuela se torne um protetorado norte-americano, de facto, ou há outro risco ainda maior, que é que toda esta tensão vá desembocar numa Guerra Civil?
Há vários riscos aqui. O primeiro é, para percebermos o que está a acontecer: Donald Trump tem pouco tempo. O calendário de decisão de Donald Trump e da sua administração tem um prazo de validade que é novembro deste ano, porque a administração receia, e Trump tem-no dito, que os democratas ganhem o controlo da Câmara dos Representantes. Penso que o Senado será mais difícil.
A variável tempo é importante para percebemos o processo de decisão desta administração. Tem pouco tempo para concretizar os seus objetivos, e isso explica, do meu ponto de vista, a opção que foi tomada, que não é uma mudança de regime, como muita gente pensou, mas sim uma alteração da chefia. Porquê? Isto é o fantasma do Iraque e do Afeganistão, ou seja, esta é a administração que quer proteger o que considera ser os seus interesses na Venezuela e no perímetro da América Latina, mas não quer correr o risco que morram militares norte-americanos em combate, como aconteceu no Iraque e no Afeganistão e, portanto, entendeu que a melhor maneira de defender esses interesses era alterar a chefia do Estado, sem haver empenhamento militar norte-americano. Como é que isto será feito? Através da coerção energética e militar sobre o atual regime da Venezuela.
Estes Estados Unidos têm a disciplina e a capacidade para executar esta política? Eu pessoalmente tenho dúvidas de uma administração tão caótica. Segunda variável, como é que o regime venezuelano reagirá?
Também há pressões internas…
Eu não tenho dúvidas que houve personalidades altamente influentes na Venezuela, que colaboraram direta ou indiretamente com os Estados Unidos, para “exportar” Nicolás Maduro e a sua mulher para os Estados Unidos. Mas como é que o regime se vai reorganizar internamente? Nós não sabemos. Sabemos, todavia, que sempre que este regime se sentiu ameaçado, a repressão interna aumentou.
Aliás, há receio internamente com quem vamos falando. Dizem-nos isso claramente.
Só pode haver. Num país em que o regime e os seus aliados estão fortemente armados, não são só as Forças Armadas, os coletivos, esse é um regime que, obviamente, está determinado a manter o poder e a riqueza, e, portanto, é um regime determinado a resistir.
Mas há aqui a questão da legitimidade da intervenção. O direito internacional está, de facto, em causa depois desta operação militar dos Estados Unidos?
Essa é uma pergunta fascinante. E é uma pergunta que mostra a forma como nós pensamos. Deixe-me virar a questão ao contrário. Qual é o problema? Há quem diga que é o direito internacional. E eu respondo de uma forma diferente. O problema é o poder. O que nós fizemos na Europa, nas últimas décadas, do ponto de vista político, do ponto de vista religioso, foi tentar criar uma ordem internacional, ou uma ordem regional, se nós quisermos, na Europa, que abolisse o problema do poder. Daí nós acentuarmos o primado do direito em termos internos e o primado do direito internacional em termos externos na conduta dos Estados.
Aliás, na linha das várias posições dos Papas, incluindo Leão XIV…
E que está perfeitamente de acordo com a doutrina da Igreja e da “guerra justa” ao longo da história. O que Donald Trump nos vem relembrar é que há uma outra maneira de nós olharmos para tudo isto, que é o exercício do poder. E ele está determinado a exercer o poder. As questões legais e as questões de legitimidade internacional, do ponto de vista dele, não devem constranger a afirmação do poder dos Estados Unidos como potência imperial. E é isso que ele está a fazer, ao atuar desta forma, muito rapidamente. Do meu ponto de vista, Donald Trump é um presidente cinematográfico, todos os dias tem que haver um episódio novo, essa é que é a realidade.
Nós, como jornalistas, podemos confirmar que todos os dias estamos à espera de qualquer coisa…
Ele cria os factos e o nosso papel é tentar interpretar e acompanhar os factos. Mas ele é que é o ator principal do filme, essa é a realidade, nós olhamos do ponto de vista de uma realidade diferente. Mas a realidade do poder é algo com o qual nós estamos a ser confrontados, e obviamente este é um problema muito difícil para a Europa e para um país como Portugal, que viu no primado do direito internacional a forma de garantir a sua estabilidade e a sua segurança.
Vamos agora olhar para o Ártico, para a Gronelândia. Há pouco referia a que a grande diferença é a forma como os Estados Unidos agora se relacionam com o Norte. Por que é que este é um assunto tão importante, estrategicamente, para a Europa e também para Portugal?
Historicamente, a primeira tentativa de expansão norte-americana foi para o Norte, para o Canadá. Mas essas incursões militares falharam sempre, e é só depois disso que os Estados Unidos se viram para o Sul. Portanto, a maneira como nós olhamos para a trajetória estratégica norte-americana tem sido muito dominada por essa herança histórica de exercício do poder na América Central e na América do Sul.
Como Donald Trump disse na conferência de imprensa, no dia que o Nicolás Maduro e a sua mulher foram capturados, o que interessa agora é o território, é o comércio e são os recursos – implícito nisto estão linhas de comunicação marítimas. Obviamente isto tem implicações ao Sul, mas tem implicações ao Norte, e tem a ver com a coerção que ele tem exercido sobre o Canadá e tem a ver com a coerção que ele tem exercido sobre a Gronelândia, que é algo que do nosso ponto de vista não faz sentido, não faz sentido porque os Estados Unidos já quiseram comprar a Gronelândia em 1946, houve uma conversa exploratória no sentido de conseguir isso, a Dinamarca não aceitou. E agora também não aceita, então toda esta coerção pública – nem imagino em termos privados o que estará a ser dito, visa coagir o governo canadiano e visa coagir o governo dinamarquês e o governo regional da Gronelândia. E nós, na Europa, julgamos que não faz sentido por uma razão muito simples: o Tratado de 1951 que o Washington tem com Copenhaga, e que foi modificado e que se manteve após 2004, dá praticamente aos Estados Unidos o poder de fazer o que quiser na Gronelândia em termos militares e em termos económicos. Mas eu acho que há duas coisas que nós temos de ter em atenção aqui, que são as coisas mais perturbantes para nós.
Primeiro é a vaidade, a vaidade é uma coisa importante na condição humana. E Donald Trump gostaria de acrescentar, do meu ponto de vista, o território norte-americano na Gronelândia, porque assim poderia ombrear com James Polk ou William McKinley, que foram os presidentes que historicamente adicionaram território aos Estados Unidos. Da mesma forma que Vladimir Putin se vê como um herdeiro de Pedro, o Grande e Catarina, a Grande, Donald Trump também gostaria de ter um lugar na história americana como um presidente que expandiu o território.
Número dois: se os Estados Unidos estiverem em retraimento estratégico, e Donald Trump claramente pensa que sim, é preciso, do seu ponto de vista, criar um novo perímetro para os Estados Unidos – fortificar, do ponto de vista financeiro, do ponto de vista comercial, do ponto de vista cultural e do ponto de vista militar, o perímetro dos Estados Unidos.
Isto vai desde a Venezuela-Colômbia à Gronelândia e ao Ártico. Sob esse ponto de vista, a questão não é a racionalidade económica de fazer ou não fazer na Gronelândia, é impedir que a Dinamarca ou os países europeus tenham uma posição avançada perto do perímetro dos Estados Unidos e do Ártico.
Eu acho que é isso que explica o desejo que ele tem de adquirir ou conquistar o território da Gronelândia, que é uma aspiração antiga, e se ele concretizar isso, na mente de Donald Trump e desta administração, ele garante uma área geográfica para a afirmação do poder dos Estados Unidos durante mais de um século.
É o “make America great again”, tornar a América outra vez grande.
É uma nova versão, com um perímetro mais alargado, que concretiza o destino histórico dos Estados Unidos e garante para Donald Trump o lugar na grande história norte-americana.
Bom, mas no caso da Gronelândia, trata-se de um Estado membro da NATO, a coagir outro Estado membro. A NATO está em risco neste momento?
Claramente que sim. Esse é que é o grande problema para nós. Nós até o final de 2025 achávamos que a principal ameaça à segurança dos países europeus, sobretudo no Báltico, Norte Europa e na Europa Central, era a Rússia.
No início de 2026, a Europa marítimo-atlântica percebe, de repente, que a principal ameaça que nós poderíamos ter não é só a Rússia, é esta administração norte-americana. Para uma região que viu na dependência da hegemonia norte-americana a garantia da sua segurança, porque baixou os custos imensos da segurança e defesa europeia, isto obviamente é extremamente perturbante, especialmente para um país como Portugal, que viu na criação de uma relação especial com os Estados Unidos, na integração na NATO e na integração na União Europeia, a forma de garantir, de uma forma bastante barata, a segurança de um país arquipelágico. Eu sou dos Açores, há gente da Madeira, a maior parte das pessoas que vivem em Portugal Continental parece que não tem a consciência de que nós somos um país arquipelágico. Numa transição geoestratégica deste tipo, tem muito em que pensar daqui para a frente.
O Miguel vive na Terceira, que tem uma base norte-americana, nas Lajes…
A Terceira tem uma base portuguesa, que é usada pelos Estados Unidos, essa distinção é interessante.
Mas isso tem um significado particular, o facto de ser utilizada por norte-americanos coloca também uma tensão maior na nossa análise.
Tem sido altamente benéfico para o país, porque os países que têm instalações militares norte-americanas tendem a não ter problemas de segurança. Portugal é um dos países que está no limite da zona europeia e da zona de influência norte-americana. Nós portugueses estamos no hemisfério ocidental.
Donald Trump diz que os Estados Unidos passarão a ser a potência hegemónica no hemisfério ocidental, e às vezes eu penso que em Portugal as pessoas já não sabem geografia e já não sabem onde é que o hemisfério ocidental começa e acaba. Nós estamos, o território português, incluindo a Madeira e os Açores, no hemisfério ocidental. Portanto, isto obviamente, juntamente com outros países, a Inglaterra é um bom exemplo, a Irlanda, a Dinamarca, a Holanda, todos os países europeus da Europa Atlântica, estão a sofrer um enorme choque estratégico no ano em que os Estados Unidos fazem 250 anos.
Esta é uma boa altura para nós lembrarmos duas coisas. Primeiro, a política externa norte-americana não começou em 1991 com o final da Guerra Fria. Dois, a política externa norte-americana não começou em 1945 com o final da II Guerra Mundial. Há uma longa tradição antes dessas datas, que nós desconhecemos porque achamos que a história já não interessa e porque a ficção literária também não interessa, e que convém que nós a estudemos outra vez, porque vamos precisar dessa memória histórica para tomar, obviamente, decisões muito importantes para nós.
Nesse contexto, como é que avalia a reação dos países europeus, que parecem ter sido apanhados de surpresa por esta mudança?
Sim, completamente, e eu percebo porque é que nós fomos apanhados de surpresa, porque os custos de dizer claramente aos eleitorados, há um ano ou dois, “esta é a trajetória dos acontecimentos” foi considerada inaceitável pelos decisores políticos e provavelmente pelas sociedades. E aqui há uma distinção importante: a mim o que me interessa é a trajetória das sociedades e a dinâmicas dos sistemas, portanto o meu tempo de análise é longo, mas nós vivemos no tempo Instagram, o tempo Instagram é agora, o momento…
Vivemos todos fixados no presente, no dia, e perdemos a capacidade de interpretar o tempo na trajetória histórica, e é por isso que nos desabituámos a considerar o problema do poder, do exercício do poder. Há um duplo problema: esta é uma administração americana que entende que vale a pena correr o risco do exercício do poder agora, é uma questão de oportunidade, e as questões de legitimidade são secundárias. Nós pensamos ao contrário. Nós achamos que as questões de legitimidade são mais importantes do que as questões de poder, portanto olhamos para as questões de um ponto de vista completamente diferente. Houve um congressista norte-americano, eu tenho aqui as minhas notas, Andy Ogles, que é do Partido Republicano, que disse “nós somos o predador dominante no hemisfério ocidental”. Eu vou repetir, “nós somos o predador dominante no hemisfério ocidental”. Quando alguém diz isto publicamente, para legitimar a coerção sob um aliado da Nato, estamos perante algo completamente novo.
E como é que lidamos com isso? Eu insisto na questão da sobrevivência das instituições: a própria União Europeia, a ONU, como é que ficam no meio de tudo isto?
Vai depender muito do que vai acontecer na Gronelândia, nos próximos dias ou semanas. Se se caminhar para uma solução em que os Estados Unidos realmente comprem, adquirem, anexem a Gronelândia contra os interesses do governo dinamarquês e contra os interesses da população da Gronelândia, ou a NATO acaba, ou a NATO como nós a conhecemos acabou e teremos de caminhar para algo completamente novo. Mas eu não acho que nós consigamos ter uma relação com os Estados Unidos equilibrada sem termos poder a sério.
Nós, bloco europeu…
Sim, porque Trump aposta claramente que não haverá bloco europeu e que a Europa se fragmentará. Nós, se quisermos negociar com esta administração, teremos de ter poder.
E a Europa de facto está em sanduichada entre a América e a Rússia.
E a China. Portanto, nós teremos de ter poder e isso é uma questão completamente nova para as sociedades europeias. Deixe-me dar um exemplo. Estamos em campanha presidencial: nós não temos falado sobre isto.
Quase nada…
Eu não sei quem é que vai ganhar as eleições presidenciais. Tenho o meu candidato preferido, como todos nós, mas estará essa pessoa, seja ele quem for, preparado do ponto de vista do quadro mental, para começar o processo de adaptação a algo que nós não temos memória histórica. Não é só o próximo presidente da República. Somos nós como sociedade, não há ninguém vivo que tenha memória do exercício do poder norte-americano desta forma, porque temos de regressar a um período antes da II Guerra Mundial e, portanto, as pessoas que eventualmente tenham 95, 100 anos, não tinham idade adulta. Portanto, nós vamos ter de regressar à história, para tentar perceber o que é que isto significa, para tentar compreender esta América, para tentar compreender esta administração e, depois, para pensarmos no que podemos fazer, ou no que devemos fazer. Esta será uma conversa difícil para todos os governos e todas as sociedades europeias, porque nós estamos perante o impensável.
Antigamente, quando nós queríamos ver ficção, até o ano passado, víamos a Netflix. Agora nós não vemos Netflix para ver ficção, a realidade supera a ficção, portanto, nós vemos a Netflix ao fim do dia, sei lá, para nos acalmarmos, para pensarmos noutra coisa. Mas os factos estão à nossa frente e nós teremos de nos adaptar a este processo.
Há quem diga “vamos esperar mais um ano, dois ou três, porque esta administração acabará”. É uma opção, mas nós pensámos o mesmo em 2020…
Já se passaram seis anos…
Passámos o mesmo em 2016. Eu diria que, independentemente de quem venha a ganhar as eleições em novembro deste ano, independentemente de quem venha a ganhar as eleições nos Estados Unidos em 2028, eu acho que devíamos começar este processo de adaptação o mais rapidamente possível.
A Europa tem de fazer mais do que está a fazer, tem de fazer essa reflexão interna? Isto vai exigir uma reforma da própria União Europeia?
A União Europeia e a NATO, como nós as conhecemos, do meu ponto de vista, não sobrevivem com a configuração e as regras atuais. Se quisermos ter poder, vamos ter de mudar muita coisa em termos internos nestas duas instituições. Se quisermos ter poder, nós podemos perfeitamente dizer que não queremos. Essa é uma decisão que as sociedades terão de tomar e votar em processos eleitorais, porque vamos ter de eleger alguém nos próximos anos, nas sociedades democráticas europeias, e, portanto, essa é uma coisa como que nos vamos ter de confrontar e deveria começar já nas eleições presidenciais em Portugal.
Do ponto de vista da defesa dos direitos humanos, as Nações Unidas também estão em risco ou têm aqui uma oportunidade de se reforçar?
A capacidade das Nações Unidas de exercerem o seu papel dependeu sempre da interpretação que as grandes potências fazem da ordem internacional. E o que nós temos são uma administração Trump, uma Rússia liderada por Vladimir Putin e uma China liderada por Xi Jinping, que entende, por razões diferentes, que a ordem internacional, como está estruturada, deixou de servir os seus interesses. Quando isso acontece, o poder do secretário-geral, António Guterres, e da instituição em si, é obviamente muito menor, mas eu gostaria de chamar a atenção a uma coisa.
A afirmação do poder da administração Trump e a forma como nós olhamos para os Estados Unidos, e também para a sociedade, pode ser a Rússia, pode ser a China, podem ser outros países, visa concentrar a nossa atenção na ação externa desses países, mas nós estamos a esquecermos do que se passa internamente nestas sociedades. Há aqui um paradoxo. À medida que as dificuldades internas aumentam nos Estados Unidos, aumentam na Rússia e aumentam na China, a propensão para o exercício desenfreado do poder por parte das lideranças desses países aumenta, é uma forma de desviar as intenções e tentar concretizar rapidamente determinados objetivos de política externa antes que internamente a situação se altere. Mas o que isto sugere é uma situação extremamente volátil em termos internacionais, em que países pequenos ou médios, como são a maior parte dos países europeus, terão uma enorme dificuldade em adaptar-se, porque nós julgámos que estes problemas tinham desaparecido do Velho Continente e hoje estão a regressar com grande, grande força.
Falamos muito do exercício do poder, da força, até da eficácia que estas intervenções estão a ter. O que sobra para os atores da paz? Diplomacias, como as do Vaticano, que papel têm neste mundo que está numa mudança bastante significativa?
O papel, penso que será, sobretudo, continuar a conversar, continuar a conversar a todos os níveis e tentar criar novas coligações que ajudem, primeiro, a defender os valores e os interesses das nossas sociedades e, sobretudo, que a partir de certa altura ajudem primeiro a estabilizar o sistema internacional. O sistema está em desequilíbrio, mas mais tarde ou mais cedo o sistema vai reequilibrar-se. A pergunta nestas circunstâncias é, então, qual é a nossa contribuição, nossa portuguesa ou nossa europeia, para a estabilização do sistema?
O que é que nós estamos dispostos a fazer, o que é que nós podemos fazer? Essa é uma questão nova para nós, antigamente eram os outros que faziam isto, eram os Estados Unidos, por assim dizer. Os Estados Unidos davam um exemplo, os Estados Unidos eram a potência hegemónica.
Agora que a estabilidade hegemónica está a esboroar-se, o primeiro problema é que, nos últimos 80 anos a potência hegemónica estabilizou o sistema e, portanto, todos nós somos o produto dessa época. Agora que a potência hegemónica desestabiliza o sistema, esta é uma situação completamente inédita para nós. Já aconteceu, ao longo da história, já aconteceu várias vezes.
Deixe-me dar um exemplo, o do desafio napoleónico, um exemplo clássico na história europeia de uma potência que desestabiliza, uma potência revolucionária que desestabiliza o sistema. Portanto, se nós olharmos para a história, vemos exemplos parecidos com aquilo que está a acontecer. Mas cá está, a história também mostra a enorme dificuldade que nós teremos em reagirmos e adaptarmos a estas circunstâncias.
Este debate deveria ter começado nas eleições presenciais, que me parecem muito fixadas em questões de política interna e não na estrutura do sistema onde Portugal se encerre. Ou ainda durante a campanha eleitoral ou depois da campanha eleitoral, nós teremos de fazer este processo de adaptação com alguém nos Estados Unidos, alguém no Canadá e obviamente com as outras potências europeias e os nossos aliados fora da Europa e dos Estados Unidos.
