Será que Papa Leão XIV andou a ouvir a Rosalía?!

Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Foto: Agência ECCLESIA/MC

A madrugada é uma hora estranha: não é já noite, mas ainda não é dia. É o tempo em que a casa parece suspensa, em que a memória fala mais alto, em que o coração mede forças com aquilo que o feriu. Na canção “De madrugá”, Rosalía coloca-nos precisamente nesse intervalo — e, sem o dizer com linguagem religiosa, descreve um combate interior, que a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026 reconhece como decisivo: a paz começa dentro, ou não começa.

“A cruz no peito calibra o meu corpo / para me desforrar, eu tenho direito.” É um verso duro, quase físico. A cruz não aparece como ornamento, mas como peso e bússola, como instrumento que “calibra” — afina, orienta, aponta. E, no entanto, o impulso que emerge é o da desforra. A canção não romantiza: admite o direito sentido, o instinto imediato, a tentação de equilibrar a balança pela força. E logo a seguir aparecem as correntes: “pesam as cadeias”, “tanto olhar para trás”. É assim que a vingança se instala: prende-nos ao passado, reduz o futuro ao tamanho da ferida, faz-nos repetir por dentro aquilo que jurámos não repetir por fora.

Leão XIV chama a isto, com outra linguagem, as trevas e o medo, que nos roubam o realismo verdadeiro. Há um “realismo” sem esperança — diz ele —, que se apresenta como lucidez, mas é apenas cegueira: narrativas que esquecem a beleza do outro, a graça, a possibilidade de mudança. A vingança é uma dessas narrativas: parece forte, mas é pobre; promete justiça, mas entrega cativeiro.

A canção atira-nos depois uma frase que corta qualquer fantasia: “Não há arma, uma Glock ou Beretta, que dispare e te traga de volta.” Aqui, a letra encontra a tese central do Papa: a paz de Cristo é desarmada. Não é que ignore a violência; é que recusa o seu método. Jesus, diante da espada, diz: “Mete a espada na bainha”. A arma pode impor silêncio, mas não devolve a vida; pode vencer um corpo, mas não cura uma história. E quando a guerra — pessoal, social, política — se torna “solução”, entramos naquela lógica denunciada na mensagem: aumentar armamentos, educar para a ameaça permanente, normalizar o medo como fundamento da segurança. Uma espiral onde a paz vira ideal distante e a agressividade, hábito quotidiano.

“Eu não procuro vingança; a vingança procura-me.” O verso (em ucraniano) é um retrato perfeito do que o Papa descreve: a paz é uma presença que quer habitar-nos, mas pode ser esquecida; e, quando é esquecida, algo ocupa o seu lugar. A vingança não é só decisão; é assédio. Procura-nos nas madrugadas, nas conversas repetidas, nos comentários azedos, na vontade de “repor” o outro no seu lugar. E, de repente, a nossa vida fica “ocupada” por aquilo que nos diminui.

É por isso que Leão XIV fala de uma paz desarmante: a bondade desarma, porque interrompe o ciclo. Deus fez-Se criança — indefeso — e é essa fragilidade que nos torna mais lúcidos sobre “o que faz viver e o que mata”. A cruz no peito, então, deixa de “calibrar” para a desforra e começa a calibrar para outra coragem: a de não devolver golpe por golpe, a de procurar diálogo, mediação, justiça restaurativa, a de reconstruir confiança.

E no fim da canção, a imagem muda: “Todos os luzeiros do céu se refletem no meu cabelo… trago mil línguas de fogo.” Madrugada, estrelas, fogo: sinais de luz que não grita, mas insiste. É quase a definição do Papa para os promotores da paz: sentinelas na noite. Num tempo de conflitos e desestabilização, a paz não é ingenuidade; é vigília. Não é fraqueza; é persistência humilde.

Talvez seja isto que a “madrugada” nos pede: não negar a ferida, mas negar-lhe o comando. Guardar a paz como pequena chama ameaçada pela tempestade — e, mesmo com as cadeias a pesar, escolher não ficar a olhar para trás. Porque a arma não traz ninguém de volta. Mas a paz, quando é acolhida, pode trazer-nos de volta a nós mesmos.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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