Segredos da Renascença na hora da mudança

Na hora da saída da Rádio Renascença, onde chegou há 31 anos, Magalhães Crespo abre o livro das memórias e fala do carisma especial da “sua” casa Na hora da saída da Rádio Renascença, onde chegou há 31 anos, Magalhães Crespo abre o livro das memórias e fala do carisma especial da “sua” casa. Aos 75 anos foi nomeado Presidente Emérito da Emissora Católica Portuguesa e não esconde a alegria pelo percurso num local que, em 1974, não conhecia… Agência ECCLESIA – Depois de um percurso de sucesso na Renascença, como se sente na altura de passar o testemunho? Magalhães Crespo – Posso dizer que me sinto muito tranquilo – o que poderia não acontecer -, mas satisfeito, não só pelo trabalho feito como também pela pessoa a quem vou passar o testemunho, o padre João Aguiar Campos, um amigo desde há 25 anos e uma pessoa com profundos conhecimentos de comunicação social e da RR. Estou satisfeito ainda pelas pessoas que permanecem no Conselho de Gerência, que vão assegurar a continuidade de gestão na Renascença. Tirando Luís Torgal Ferreira, que veio comigo para a RR em 1974, os outros três nomes (José Luís Ramos Pinheiro, Maria Helena Brissos de Almeida e Luís Soromenho de Alvito) foram por mim indicados: estiveram três anos como assessores e, em Fevereiro de 2003, foram nomeados gerentes com pelouros distribuídos. Sei que eles terão outra maneira de dirigir, como é natural, com a minha passagem para não-executivo. AE – Como é que um Engenheiro mecânico chega à Renascença? MC – Sou de uma família tradicionalmente católica, fiz o meu liceu no Colégio dos Jesuítas, formei-me no Instituto Superior Técnico e tinha uma carreira, antes de chegar à Renascença com muita experiência na área da gestão. Na altura em que fui convidado estava na direcção geral da maior empresa de consultores que existia em Portugal. Nos primeiros dias após o 25 de Abril fui contactado pelo Eng. Silvério Martins, entretanto já falecido, que aconselhava o Patriarca D. António Ribeiro. Ele sabia que havia muitas pessoas preocupadas com a sua situação política ou económica em face do que estava a acontecer com a Revolução. Quando me perguntou se eu estaria disponível para ajudar o Patriarca respondi, naturalmente, que sim e no dia 7 de Julho de 1974 D. António Ribeiro chamou-me, dizendo que várias pessoas – pelos vistos não tinha sido só o Eng. Silvério – tinham indicado o meu nome para tomar conta da Renascença, juntamente com um advogado que eu conhecia de um jantar (Luís Torgal Ferreira), e de um cónego que eu não conhecia (Cón. António Gonçalves Pedro, entretanto falecido). Aquilo que eu disse ao Patriarca foi que, se me tinha oferecido para o ajudar e se as pessoas que me referenciaram acreditavam que eu era capaz eu aceitava, mas precisava que me dizesse uma coisa… onde é que ficava a Renascença. AE – Não ouvia a Renascença nessa altura? MC – Não fazia a mais pequena ideia onde é que Renascença ficava. Assinava o “Novidades”, jornal católico da altura, mas não era propriamente um fã da rádio, passava pela Renascença como passava por outros canais. AE – Qual foi a reacção do Cardeal-Patriarca? MC – Ele sorriu como era possível sorrir naquela altura e lá me disse o que era a Renascença. Perante isso, perguntei-lhe se, depois de uma carreira profissional muito vivida, muito intensa, eu encontraria alguma dificuldade em aplicar as técnicas de gestão mais actuais. D. António Ribeiro respondeu logo que não, que o facto de ser católico não significava que não se utilizassem todas as técnicas que entender serem mais adequadas. Deu-me total liberdade. Quando eu ia fazer uma terceira pergunta, ele interrompeu-me logo: “mas não me peça dinheiro, porque não tenho”. O Patriarca explicou-me que a Igreja não pretendia tirar dividendos da sua emissora católica e, tirando um pequeno donativo quando foi constituída a Universidade Católica, nunca de lá saíram dividendos. O que a Igreja pretende, como me disse D. António Ribeiro, é chegar a toda a população portuguesa, para quando precisar de se dirigir às pessoas ter um veículo, hoje ainda mais importante. AE – A Renascença é líder de audiências há mais de um quarto de século. Qual é a razão para esta capacidade de ser a preferida? MC – Posso dizer que o segredo é muito simples e pode revelar-se, porque a dificuldade não é conhecê-lo, mas executá-lo. O segredo da Rádio Renascença foi algo que eu ouvi num congresso da UNDA, associação internacional das rádios católicas: a rádio deve ser uma “companhia amiga”. Procuramos, por isso, aliar a melhor informação com uma programação que acompanhe as pessoas, para que elas sintam que do lado de cá somos amigos. AE – Trabalhar na emissora católica trouxe-lhe alguma dificuldade acrescida? MC – Pessoalmente, sob o ponto de vista da Doutrina Social da Igreja, cheguei à Renascença com uma boa experiência, porque era director-geral de uma das metalomecânicas dos arredores de Lisboa, a única que não teve greve em Maio de 1968. Nessa altura já tinha criado um comité de empresa, com os funcionários, e aí dialogávamos. Desde cedo percebi que a Doutrina Social da Igreja poderia ser um modelo de gestão e para mim era-o, de facto. AE – Na programação da RR, ser católica implica ter uma marca especial? MC – Podemos falar da informação mais completa, honesta e objectiva. Simultaneamente, a música, os passatempos permitem que as pessoas sintam alegria ao ouvir a Rádio Renascença. Vejamos o futebol, por exemplo: agora já não, mas perguntaram-me muitas vezes o que tinha a ver um relato de futebol com a missão da RR enquanto emissora católica portuguesa. Para mim é muito simples: poucas são as pessoas que não têm uma afeição clubística e quanto mais dificuldades têm na vida, mais se afeiçoam aos clubes. Temos de pensar no trabalhador com uma vida amargurada e que ao fim-de-semana a única coisa que tem é ouvir o relato de futebol, porque não pode ir ao estádio. Para ele, ouvir o relato do seu clube é uma evasão e, nesse momento, estamos a contribuir para que seja um pouco mais feliz. Somos emissora católica portuguesa. Os próprios jogos de antena, como o jogo da mala, cumprem essa missão. Quando uma pessoa compra um bilhete de lotaria ou joga no Euromilhões, fica a pensar se irá ganhar, há uma evasão, mas paga. Nós oferecemos isso graciosamente. Quantas pessoas passavam a vida a escrever o montante, à espera que lhe saísse. Estávamos nesse momento a ter uma hábil promoção das audiências, mas era também através desse meio que se preenchia a nossa função como emissora católica. AE – A preocupação por cumprir a missão específica da Renascença colide com a preocupação das audiências? MC – É preciso dizer que sem audiências estaríamos a gastar energias em vão. Nunca quis cá sacristães na Rádio Renascença, quis gente convicta que cumpra uma missão, alguns católicos, outros que acreditam que há algo mais – não é só ganhar dinheiro aqui na Renascença. A preocupação para com as pessoas é que estejam melhor informados, que tenham uma companhia amiga. Todos sentem que estão a contribuir para que os outros sejam mais felizes, estejam mais satisfeitos, sobretudo quando vão nas nossas reportagens. Os que trabalham na Renascença sentem orgulho quando falam dela, porque quando procuramos ajudar para que as pessoas sejam mais felizes, o feed-back é imediato. E contribuir para a felicidades dos outros é contribuir para a nossa própria felicidade. AE – Como é seu o dia-a-dia na Renascença? MC – Normalmente ouço o noticiário das 10h00 no automóvel e venho para a Renascença. Ao longo da semana, almoço com vários dos directores, correndo os diversos sectores. Hoje intervenho menos no conteúdo diário das rádios do grupo é muito menor do que há uns anos atrás, se tenho alguma observação a fazer, faço-a ao gerente do pelouro. Só saio daqui depois das 20h00, pelo que preciso de descansar um pouco após o almoço (risos). AE – Que balanço faz deste percurso? MC – Tenho agradecido a Deus a oportunidade que tive de aplicar aqui todos os meus conhecimentos. Nunca me arrependi nem nunca tive qualquer dificuldade em recusar as oportunidades que me surgiram, mesmo vendo colegas ter grandes lugares na banca ou nas empresas públicas. Este foi um lugar que preencheu totalmente o meu desejo de satisfação pessoal, o meu ego. Agradeço também a enormíssima liberdade de actuação dada por D. António Ribeiro e seguidamente por D. José Policarpo. Espero que o Cón. João Aguiar tenha igualmente essa liberdade, porque não seria fácil gerir a Renascença através do quotidiano da hierarquia da Igreja, dado que existe aqui uma necessidade de decisão imediata, naturalmente enquadrada na linha de orientação que lhe é definida. AE – Não se trata de uma adeus à Renascença… MC – Sim, continuarei ligado à RR. O Cardeal-Patriarca e o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa decidiram distinguir-me com um título que me dá satisfação, porque “Emérito” é quem fez uma carreira e chega ao seu término – diferente de honorário, que é quem fez qualquer favor. Ficarei como presidente do Conselho Consultivo, que não tem funções executivas, mas que se reporta ao Patriarcado de Lisboa e à CEP.

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