Se queres a paz, prepara-te para a paz

António Salvado Morgado, Diocese da Guarda

Vale a pena lembrá-lo. Foi há duzentos e trinta anos. Em 1795 Immanuel Kant publicou o opúsculo “A Paz Perpétua – Um projecto filosófico” que viria a inspirar muito o ideal da democracia liberal e a criação e desenvolvimento de muitos organismos de cariz internacional centrados na Paz como a Sociedade das Nações [1919], após a Primeira Grande Guerra, e, particularmente, das instituições que surgiram após a Segunda Guerra Mundial como as Nações Unidas [1945] e Comunidades Europeias. O Direito Internacional Humanitário, de que tando se vem falando recentemente, estará também ligado ao ideal kantiano do projecto filosófico de «Paz Perpétua».

Immanuel Kant, nasceu [22 de Abril de 1724] e faleceu [12 de Fevereiro de1804] em Königsberg, capital da então Prússia Oriental, e aqui terá escrito aquele projecto filosófico, idealista e normativo, sobre a «Paz Perpétua». Por ironia da História – a História está cheia de ironias – a Königsberg da Prússia Oriental, chamada desde 1946 Kaliningrado, constitui hoje um território russo, situado entre dois membros da União Europeia desde 2004, a Lituânia e a Polónia. Relativamente perto, portanto, da zona de conflito bélico resultante da invasão da martirizada Ucrânia por parte da Rússia que veio trazer a intranquilidade à Europa e ao mundo

Também por ironia da História – mais uma – foi ali, em Kaliningrado, que Putin, há vinte anos, em 2005, descerrou uma lápide em honra daquele filósofo, mostrando-se, à altura, real ou ficticiamente, muito kantiano relativamente aos ideais de uma «Paz Perpétua» desenvolvida na base de entendimento e cooperação entre Estados soberanos, como quem, superando o velho dizer «si vis pacem, para bellum» [se queres a paz, prepara-te para a guerra], anuncia: Se queres a paz, prepara rectamente as condições  para a paz.».

Foi há vinte anos que a lápide foi descerrada. Entretanto muitas voltas deu o mundo e hoje as instituições internacionais parecem só dificilmente resistir a tensões e conflitos que explodem em guerras ou as potenciam e parecem alimentar um total cepticismo sobre a possibilidade de concretização da Paz. O Papa Leão XIV na recente audiência ao Corpo Diplomático constata que «Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados.» E acrescenta sem medo das palavras: «A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está se alastrando. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias

Na verdade, a Paz sonhada por Kant era a Paz pensada, não só enquanto ausência da guerra, uma paz negativa, mas uma Paz vista como resultado de um conjunto de condições reais trabalhadas permanentemente e de modo duradouro pelos homens e seus Estados. Era a «Paz Perpétua» sonhada positivamente como ideal cosmopolita alicerçado num quadro de racionalidade política e jurídica que marcava de modo claro e objectivo uma mudança de paradigma nas relações entre os povos.

Olhando para o mundo, particularmente para a situação vivida na Europa, nas Américas, na extrema Ásia e no Médio Oriente, tudo parece concorrer para alimentar o cepticismo nos indivíduos e nos povos. Cepticismo que importa superar.

Agora que se fecharam as portas da Basílica de São Pedro, procedendo assim o Papa Leão XIV ao encerramento do Ano Jubilar da Esperança, importará não esquecer a mensagem do Pontífice para o Dia Mundial da Paz, um de Janeiro. Ela está aí, nas nossas letras de papel, à espera que ela seja escrita nas vidas humanas, das pessoas e das nações, neste momento em que parece vivermos dependentes de interesses e paixões pessoais e loucura de alguns, enquanto se fragilizam as instituições internacionais que nos habituámos a ver como sustentáculo e promotoras da Paz.

É pela esperança jubilar que começa termina aquela mensagem. No início para desfazer «as narrativas privadas de esperança» que se apresentam como «realistas», mas que não são mais do que «uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo.» No final apelando a «todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança, combatendo a difusão de “atitudes fatalistas a respeito da globalização.» Na substância da mensagem eu vejo aquilo a que o Papa João Paulo II designou, metaforicamente na Encíclica “Fides et Ratio”, as «duas asas do espírito»: a fé e a razão.

Naturalmente é a fé que abre a mensagem da Paz de Leão XIV, invocando «a paz de Cristo ressuscitado» cuja luz é necessário ver e nela acreditar «para não nos afundarmos na escuridão dos tempos.» Por isso em «Cristo, nossa paz», «a paz existe, deseja habitar-nos, tem o poder suave de iluminar e alargar a inteligência, resiste à violência e a vence.»

Citando a encíclica “Pacem in terris” de João XXIII, o Papa Leão XIV evoca «os princípios da recta razão» para defender que a verdadeira paz não se baseia no equilíbrio de forças armamentistas, «mas sim e exclusivamente na confiança mútua», sendo certo que o necessário «desarmamento integral é aquele que «atinja o próprio espírito.» Adiante é também «o reto uso da razão» que, a par das grandes tradições espirituais, nos faz ir além dos laços de sangue e étnicos, devendo os fiéis ver como «formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus» o «arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada.»

Citando Isaías (Is 2, 4-5) Leão XIV desafia os milhões de seres humanos que se redescobriram peregrinos no Jubileu da Esperança a iniciarem em si mesmos o «desarmamento do coração, da mente e da vida.» A paz «desarmada e desarmante» é também uma responsabilidade de cada um.

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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