São João Paulo II: Vaticano evoca 20.º aniversário da morte do Papa, sublinhando «profecia de paz»

Pontificado ficou ligado a Portugal, com três passagens pelo Santuário de Fátima

Foto: Vatican Media

Cidade do Vaticano, 02 abr 2025 (Ecclesia) – O Vaticano evoca hoje o 20.º aniversário da morte de São João Paulo II (1920-2005), Papa entre 1978 e 2005, falando numa “profecia de paz” que se mantém atual.

“20 anos se passaram desde a noite de sábado, 2 de abril de 2005, quando milhões de pessoas em todo o mundo choraram a morte de São João Paulo II. Duas décadas depois, ele é justamente recordado como um grande defensor da vida, da dignidade humana e da liberdade religiosa”, indica o editorial publicado pelo portal ‘Vaticano News’.

“Acima de tudo, o seu anticomunismo é insistentemente sublinhado. Poucos, porém, se lembram dos seus outros ensinamentos proféticos, particularmente relevantes neste momento negro da história”, acrescenta o texto.

O texto recorda a segunda visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima, venerada na Capelinha das Aparições ao Vaticano, entre 6 a 9 de outubro do Ano Santo de 2000, no âmbito do Jubileu dos Bispos, quando São João Paulo II fez a consagração do novo milénio à Virgem Maria.

“O pontífice polaco quis trazer a imagem de Nossa Senhora de Fátima para a Praça de S. Pedro, pronunciando palavras que ninguém entendeu na altura: ‘a humanidade encontra-se numa encruzilhada. Hoje possui instrumentos de um poder sem precedentes: pode fazer deste mundo um jardim ou reduzi-lo a um monte de escombros’”, assinala o editorial.

O Vaticano realça que João Paulo II já se tinha oposto à primeira guerra do Golfo, em 1991, e foi “deixado sozinho pelos líderes ocidentais que, até dois anos antes, exaltavam o seu papel em relação aos países da Europa de Leste”.

“O Papa repetiu o seu ‘não’ à guerra de forma ainda mais clara em 2003, quando, com base em provas falsas, alguns países ocidentais entraram em guerra contra o Iraque pela segunda vez”, refere Andrea Tornielli, diretor editorial do Dicastério para a Comunicação (Santa Sé).

Hoje, mais do que nunca, com o mundo a arder, com os Estados a apressarem-se a encher os seus arsenais, com a propaganda a criar um clima de alarme e de medo para justificar enormes investimentos em armas, devemos recordar aquelas palavras proféticas do bispo de Roma que veio de ‘uma terra longínqua’, ecoadas hoje pelo seu sucessor, que também foi deixado sozinho para gritar contra a loucura da guerra”.

O Papa João Paulo II foi canonizado por Francisco, a 27 de abril de 2014, no Vaticano.

A biografia oficial destacava o “grave atentado” sofrido pelo Papa polaco a 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro, sublinhando que o santo polaco “perdoou ao autor do atentado”.

“Salvo pela mão materna da Mãe de Deus, após uma longa recuperação, perdoou ao seu agressor e, convencido de ter recebido uma nova vida, intensificou os seus compromissos pastorais com heroica generosidade”, indica a Santa Sé.

Após este atentado, João Paulo II deslocou-se ao Santuário de Fátima, em Portugal, por três ocasiões (1982,1991,2000), tendo oferecido a bala que o atingiu, que se encontra na coroa da imagem da Capelinha das Aparições, como sinal de gratidão.

A biografia oficial recorda as 104 viagens internacionais e os números recorde do pontificado de Karol Wojtyla.

“Nenhum outro Papa se encontrou com tantas pessoas como João Paulo II”, refere o documento, aludindo, entre outros, aos mais de 17 de milhões de peregrinos que participaram nas audiências públicas semanais, e “os milhões de fiéis contactados durante as visitas pastorais em Itália e no mundo” e na celebração das Jornadas Mundiais da Juventude, que criou.

Karol Wojtyla nasceu no dia 18 de maio de 1920 em Wadowice, no sul da Polónia, filho de Karol Wojtyla, um militar do exército austro-húngaro, e Emília Kaczorowsky, uma jovem de origem lituana.

Em 1938 foi admitido na Universidade Jagieloniana, onde estudou poesia e drama; durante a II Guerra Mundial (1939-1945) esteve numa mina em Zakrzowek, trabalhou na fábrica Solvay e manteve uma intensa actividade ligada ao teatro, antes de começar clandestinamente o curso de seminarista.

Durante estes anos teve de viver oculto, juntamente com outros seminaristas, que foram acolhidos pelo cardeal de Cracóvia.

Ordenado sacerdote em 1946, foi completar o curso universitário no Instituto Angelicum de Roma e doutorou-se em teologia na Universidade Católica de Lublin, onde foi professor de ética.

Participou no Concílio Vaticano II, onde colaborou ativamente, de maneira especial, nas comissões responsáveis na elaboração da Constituição Dogmática Lumen Gentium e a Constituição conciliar ‘Gaudium et Spes’.

No dia 13 de janeiro de 1964, Wojtyla assume a sede episcopal de Cracóvia e foi criado cardeal pelo Papa Paulo VI em maio de 1967, aos 47 anos.

Após a morte deste Papa e do seu sucessor, João Paulo I, o cardeal Karol Wojtyla foi eleito como novo pontífice, a 16 de outubro de 1978 – primeiro não-italiano desde 1522.

O Vaticano recorda a sua “constante solicitude pastoral” que o levou, além das viagens internacionais, a fazer 146 visitas na Itália e a passar por 317 das 332 paróquias de Roma.

Entre os seus principais documentos contam-se 14 encíclicas, 15 exortações, 11 constituições e 45 cartas apostólicas, para lá de cinco livros.

João Paulo II presidiu a 147 cerimónias de beatificação, nas quais proclamou 1338 beatos, e a 51 canonizações, com um total de 482 santos.

O primeiro Papa polaco morreu a 2 de abril de 2005 e foi beatificado por Bento XVI a 1 de maio de 2011, numa cerimónia em que o seu sucessor disse que João Paulo II enfrentou “sistemas políticos e económicos” para cumprir o seu desafio de viver a fé sem “medo”.

João Paulo II esteve no Santuário de Fátima em 19821991 e, pela última vez, em 2000, altura em que beatificou os videntes Francisco e Jacinta Marto.

Nessas três visitas, sempre no mês de maio, passou ainda por Braga, Coimbra, Lisboa, Porto, Vila Viçosa, Açores e Madeira, somando-se uma escala técnica no aeroporto de Lisboa (2 de março de 1983), a caminho da América Central

A ida a Roma, em outubro 2000, da imagem original de Nossa Senhora de Fátima da Capelinha das Aparições, no Jubileu dos Bispos, consagrando-lhe o terceiro milénio, confirmou a particular ligação do Papa polaco com o santuário da Cova da Iria.

Simbolicamente, a bala que lhe atravessou o abdómen num dia 13 de maio repousa hoje na mesma imagem da Virgem.

João Paulo II sempre se mostrou seguro de que “uma mão maternal” guiou a trajetória da bala naquela tarde de 1981, no Vaticano.

Um ano depois, Karol Wojtyla chegava a Fátima para “agradecer à Divina Providência neste lugar que a mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular”

Em 2005, passados apenas 42 dias sobre a sua morte, o 13 de maio foi a data escolhida para que Bento XVI anunciasse o início imediato do processo de beatificação – dispensando o período de espera de cinco anos.

OC

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