Bento XVI já deixa a sua marca O próximo Sínodo dos Bispos já terá a marca de Bento XVI. Convocado por João Paulo II em 2004, o grande encontro de 250 Bispos de todo o mundo foi confirmado pelo novo Papa e, com a apresentação do Instrumento de trabalho, na manhã de hoje, fica a certeza de que haverá diferenças de método e de conteúdo. As 90 páginas do “Instrumentum laboris” da XI assembleia geral ordinária do Sínodo articulam-se em 4 partes, intituladas “Eucaristia e mundo actual”, “Fé da Igreja no mistério da Eucaristia”, “Eucaristia na vida da Igreja” e “Eucaristia na missão da Igreja”. O título do documento segue o tema da assembleia, “A Eucaristia, fonte e cume da vida e da missão da Igreja”. Um rápido olhar sobre o documento permite perceber a preocupação com “algumas verdades doutrinais”, na linha da acção do Papa teólogo, que durante mais de duas décadas foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A intenção é “colocar em destaque as grandes riquezas pastorais” da Eucaristia, sem deixar de apontar o dedo “a algumas omissões e negligências nas celebrações”. O quadro estatístico que apresenta os números essenciais da presença católica no mundo – mais de mil milhões, 49,8% dos quais na América e 25,8% na Europa – serve para ilustrar o mundo em mudança a que os Bispos têm de atender nos seus trabalhos: o texto revela “um certo distanciamento da vida pastoral da Eucaristia” e uma grande desproporção entre o número de pessoas que comunga e as que se confessam. Nesta linha vem a exigência de fazer da Eucaristia a fonte da moral, com as suas exigências. Como proposta, o Sínodo vai abordar a necessidade de melhorar nos católicos “o conhecimento do conteúdo e do significado do mistério eucarístico”. O “Instrumentum laboris” nasce da recolha de uma enorme quantidade de informação, recolhida através de um questionário enviado a cerca de 4.500 Bispos de todo o mundo. Na conferência de imprensa, os responsáveis pelo Sínodo frisaram mesmo que “não é habitual encontrar um outro organismo que, para elaborar um documento, recolha tal quantidade de dados em todo o mundo”. Novidades O Sínodo pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia de Bispos que representa o episcopado de todo o mundo e tem como tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja, com o seu conselho, para procurar soluções pastorais que tenham validade e aplicação universal. A Assembleia sinodal tem finalidades consultivas, e mesmo que em 2005 os Bispos não sejam convocados por Bento XVI para darem sugestões em vista de intervenções doutrinais, existem razões para que, num tema central para a vida e missão da Igreja, os prelados manifestem as exigências e implicações pastorais da Eucaristia. Entre a doutrina tradicional e o magistério contemporâneo, os trabalhos deste Sínodo foram projectados como “inovação na continuidade”, respeitando os dados positivos que a experiência sinodal (21 assembleias ordinárias, extraordinárias ou especiais) trouxe para cimentar o método colegial. A continuidade, aliás, é garantida pelas normas contidas na Carta Apostólica “Apostolica sollicitudo” e pelo “Ordo Synodi”, promulgados em 1965 por Paulo VI e parcialmente revistos por João Paulo II. Bento XVI começa por deixar a sua marca na duração deste Sínodo, reduzido de quatro para três semanas (2 a 23 de Outubro), com a justificação de concentrar os trabalhos e favorecer ainda mais o aspecto sinodal e colegial”. Entre as novidades de procedimento estão o facto de cada padre sinodal ver o tempo disponível para a sua intervenção reduzido de 6 para 8 minutos. Com esta alteração consegue-se que, em cada dia, haja uma hora para intervenções livres, no final de cada Congregação geral – a fim de favorecer as trocas de impressão sobre questões da actualidade ligadas à Eucaristia. O número de participantes (250) não foi mudado, mas foi reduzido o tempo para os “grupos de trabalho”, que se reúnem segundo as cinco línguas do Sínodo. Na XI assembleia marcarão ainda presença um “número adequado de ouvintes, homens e mulheres”, bem como um grupo de peritos para assistir os padres sinodais. Outra das grandes novidades do próximo Sínodo relaciona-se com o número de “delegações fraternas”, representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais, cujo número duplica. Este é um dos gestos concretos de ecumenismo que Bento XVI tem pedido desde o início do seu pontificado. Enquanto que no último sínodo tinham participado representantes de 6 outras Igrejas, desta vez foram convidados 12 representantes das Igrejas Ortodoxas, das Igrejas Antigas do Oriente e das Comunidades nascidas na Reforma. Instrumentum Laboris • A Eucaristia: Fonte e Cume da vida e da missão da Igreja Notícias relacionadas • Santa Sé apela à unidade dos católicos para responder às dificuldades actuais • Inovação e continuidade no Sínodo dos Bispos • Documento base do Sínodo dos Bispos apresentado no Vaticano