Autor do livro «De profundis – pensar e acreditar em Auschwitz» reclama uma «ética universal» que não esqueça a morte de milhões e atue nos dramas dos «refugiados, vítimas da guerra, pobres indevidamente repatriados, vítimas de ditaduras horrendas e escravos contemporâneos»

Funchal, Madeira, 11 de fev 2026 (Ecclesia) – O padre João Gonçalves, autor do livro «De profundis – pensar e acreditar em Auschwitz», diz que a Teologia corre o risco de falar mais do “outro mundo do que deste” e “perder o sentido”.
“A Teologia deve estar atenta a esses sinais, a esses movimentos. Não pode apenas pensar nos grandes princípios inomináveis – a encarnação, os mistérios da encarnação de Cristo, a inefabilidade de Deus, a impassibilidade de Deus, os atributos eternos. Essas dimensões são todas importantes, mas tem que perceber a terra, a carne, e tantas vezes os teólogos ou crentes parecem que sabem mais das coisas do outro mundo do que deste, e isso não me faz muito sentido”, explica à Agência ECCLESIA o sacerdote da Diocese do Funchal.
A investigação, agora publicada em livro, quis partir da “inquietação” sobre a presença de Deus “bom e omnipotente” que “coexiste com o mal”, concretamente “o mal incarnado no século XX com os horrores do Holocausto”.
O padre João Gonçalves reclama uma “ética universal, conciliadora, fundada em princípios que originaram as civilizações”.
“O que acontece na Alemanha nazi é a evidência de que não é por uma maioria dizer que vamos por um determinado caminho, que esse caminho passa a ser certo. E, claramente, os julgamentos de Nuremberga dão-nos conta disso. Há uma exigência no coração humano, que é capaz de reconhecer que, apesar da lei – e a lei pior que possa ser fabricada – um coração humano tem que ser capaz de reconhecer que é uma lei má, que há uma dignidade inviolável, que é a dignidade da pessoa humana porque está e deve estar acima de qualquer lei”, sublinha.
O autor cita dramas atuais – “dos refugiados às vítimas da guerra, dos pobres aos indevidamente repatriados, das vítimas de ditaduras horrendas aos escravos contemporâneos, entre outros inúmeros e terríveis exemplos” – para afirmar que “apesar da lei, a dignidade da pessoa humana deve estar acima de tudo e de qualquer coisa”.
O padre João Gonçalves reflete na “presença de Deus junto dos pequeninos, dos mais fracos” e, por isso, afirma que “Deus foi vítima em Auschwitz”: “Ali ele foi novamente crucificado”.
“Durante um tempo, Deus parece-nos como o todo-poderoso, juiz, afastado, como que um pai mau. Mas não podemos esquecer uma outra verdade que é o Deus que se faz pequenino. Jesus identifica-se com aqueles que estão à margem, com aqueles que são vítimas – o próprio Jesus diz que tudo aquilo que foi feito a um mais pequenino, a um mais frágil, foi feito diretamente a ele. Então, penso termos caminho aberto para dizer que em Auschwitz Jesus foi gasificado; Jesus morreu na câmara de gás porque foi feito isso a mais pequeninos”, traduz.

O sacerdote indica a importância de a Teologia dialogar com a Literatura, “grande repositório da humanidade e laboratório da condição humana” e que esta tem “obrigatoriamente” de ser “inserida no pensamento teológico”.
“A Teologia faz-se a partir do que é humano. E nada do que é humano pode ser estranho à Teologia. A literatura do Holocausto desafia a Teologia, em primeiro lugar, dando-lhe humanidade, sendo um repositório de humanidade. É verdade, numa situação dramática, numa situação difícil, mas dá matéria para que a Teologia possa trabalhar. A Teologia já não se faz mais só sobre conceitos abstratos, etéreos, sobre grandes princípios universais. A Teologia tem de fazer uma audição teológica das obras da literatura, para poder estar a falar para pessoas que existam, e não para anjos”, indica.
Autores que contaram o que viveram consequência do regime nazi, na Alemanha, como Elie Wiesel, Primo Levi, Etty Hillesum ou Dietrich Bonhoeffer, são “grandes testemunhos e alertas para uma sociedade que pode estar a esquecer-se de que entre 1939 e 1945 tivemos campos de concentração que matavam milhões de pessoas”.
“É importantíssimo que eles não sejam esquecidos, que não fiquem só nos livros, mas que sejam trazidos para o nosso quotidiano”, reconhece.
Também a Literatura sobre o Holocausto reflete um “claro/escuro”, visível, por exemplo, numa “racionalidade de Elie Wiesel” e numa “poesia orante e afetuosa de Etty”.
“Essa liberdade amorosa dada por Deus tanto é usada para o bem como é usada para o mal. É nesse jogo de claro e escuro, que depois o palco da história vai sendo povoado de tantos atos bons, de tanto amor, de tanta bondade, mas também de tanta barbárie”, indica.
A conversa com o padre João Gonçalves, autor do livro «De profundis – pensar e acreditar em Auschwitz», vai ser emitida na Antena 1, esta noite no programa ECCLESIA, e disponibilizada no podcast «Alarga a tua tenda».
LS
