Isabel Maia, Diocese de Coimbra
O 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado anualmente pela Igreja Católica, terá como tema escolhido por Papa Leão XIV: “Preservar vozes e rostos humanos”. Será uma reflexão sobre o impacto da tecnologia na comunicação humana e nunca um pedido de menos ciência ou inovação, mas de mais consciência. Num mundo de máquinas que se multiplicam, falam, respondem e aprendem, coexiste uma verdade inultrapassável: ser humano não é uma função, é uma condição.
Tal como um submarino não substitui uma baleia, o Homem nunca será confundido com a máquina.
Neste tempo, de domínio da IA, tende-se a imaginar consequências num futuro distante. O Papa Leão XIV recentra-nos e diz que esse futuro é Hoje. Na justificação da escolha do tema, explica que a lógica algorítmica já nos contaminou e é visível na comunicação política e mediática, com ou sem máquina.
Vejamos, nas recentes eleições em Portugal, foi notada a tendência para amplificar gestos simbólicos simples, emocionalmente eficazes e facilmente reconhecíveis, tornando-os virais nos meios digitais – manipulando algoritmicamente o resultado? Diz-se já ter ocorrido nas eleições americanas e em outras. Neste contexto, o uso amplificado e explícito da identidade religiosa é aproveitada, por exemplo, ao serem filmadas intervenções públicas à saída de uma missa. O gesto é legítimo no plano pessoal. O problema começa quando a fé se transforma num código eleitoral padronizado, repetido e consumido sem discernimento.
Mas, qual a ligação desta mudança com a lógica algorítmica? Desde logo, a identificação de padrões que geram adesão psicológica emocional de forma eficiente. Esta associação entre religião, moral e autenticidade ou dignidade funciona, no espaço público, como um atalho simbólico, nem sequer exige coerência ética sustentada. Facilmente a comunicação social se torna a via rápida de uma comunicação eficiente e pouco humanizada.
Conseguir “Pensar” continua a ser apenas possível ao ser humano e pensar politicamente exige mais do que reconhecer símbolos: é preciso saber distinguir a fé vivida da fé instrumentalizada, ou distinguir um sentimento pessoal de uma estratégia comunicacional. A máquina não faz estas distinções e é aqui que Leão XIV nos alerta para o perigo de o Homem deixar de as fazer também.
Todos temos de estar conscientes de que não se trata de um desafio tecnológico, mas antropológico como identifica Leão XIV. Não basta mostrar o gesto, repetir a imagem, amplificar a frase, sem escutar o contexto, sem ver o rosto, sem interrogar a coerência entre discurso, a prática política e os valores cristãos fundamentais como é a dignidade humana, a solidariedade ou o bem comum.
A fé não pode ser um instrumento de segmentação, que não questiona a veracidade, apenas usada por conveniência, tal como a imprensa pode relatar o discurso sem o questionar, mas estando a cumprir a sua função democrática.
O Papa Leão XIV não nos pede que rejeitemos a tecnologia, nem que policiemos a fé alheia. Pede algo mais difícil, o discernimento. É preciso pensar, ver e escutar devagar num tempo de respostas imediatas, sobretudo quando podemos estar a usar uma ferramenta de poder.
Não é a IA que está em causa, é o compromisso humano de pensar e responder eticamente.
Isabel Maia, Comissão Diocesana Justiça e Paz
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