Portugal: Dioceses alertam fiéis para celebrações de grupos «fora da comunhão» da Igreja

«Prelatura de São Pedro e São Paulo» está ligada a grupo de padres casados fundado por Emmanuel Milingo, excomungado pelo Vaticano

Aveiro, 14 jan 2026 (Ecclesia) – Várias dioceses portuguesas emitiram alertas aos fiéis católicos sobre a participação em celebrações promovidas por grupos religiosos fora da plena comunhão com a Igreja Católica, esclarecendo a invalidade dos sacramentos ali administrados.

A Diocese de Aveiro informou, em comunicado, ter conhecimento de que Francisco Marques, figura mediática conhecida no passado pela sua proximidade ao Papa Francisco, “terá recebido a ordenação sacerdotal e estará a celebrar a Eucaristia na sua terra natal”, em Oiã, numa casa particular.

O texto esclarece que Francisco Marques “não foi ordenado padre da Igreja Católica”, com a qual não mantém “comunhão”, pelo que “não possui as faculdades necessárias para administrar os sacramentos no território da Diocese de Aveiro”.

A nota episcopal acrescenta que, mesmo na eventualidade de ter recebido ordens sagradas noutra denominação cristã, tal facto impede que administre “validamente os sacramentos da Igreja Católica”, instruindo os fiéis a absterem-se de participar nestes ritos.

A Diocese de Santarém associou-se a este esclarecimento, após ter tomado conhecimento de que “vários fiéis católicos deste território participaram em retiros organizados pelo senhor Francisco Marques”.

O comunicado de Aveiro estabelece ainda uma ligação a Salvatore Micalef, recordando a posição da Diocese de Roma sobre este “autoproclamado patriarca e bispo da Prelatura de São Pedro e São Paulo”, referindo que o mesmo “não possui as faculdades ministeriais necessárias para administrar os sacramentos”.

Salvatore Micalef refere, na sua biografia, ter sido consagrado bispo pelo arcebispo William J. Manseau, que integrou a prelatura iniciada por Emmanuel Milingo em 2006, nos EUA.

A 17 de dezembro de 2009, a Santa Sé anunciou a “demissão do estado clerical” do antigo arcebispo de Lusaca, Emmanuel Milingo, em consequência dos “graves delitos” de que era acusado.

O comunicado oficial destacava a “persistente contumácia” de Milingo, que já em 2006 fora excomungado com os quatro sacerdotes casados que ordenara como bispos, integrantes do grupo “Married Priests Now”.

A pena decretada pela Santa Sé acumula com a excomunhão para o próprio e os bispos por ele ordenados sem mandato do Papa.

Segundo o cânone 292 do Código de Direito Canónico, a pena de demissão do estado clerical implica a perda dos direitos e deveres ligados ao mesmo, excepto a obrigação do celibato, e a proibição do ministério, a não ser em casos nos quais exista perigo de morte.

A partir desse momento, é considerada “ilegítima” a participação dos fiéis em quaisquer novas celebrações promovidas pelo clérigo em causa.

No Funchal, o vigário-geral da diocese divulgou uma “Carta aberta a todos os católicos” para clarificar os critérios de pertença eclesial, num contexto marcado por iniciativas de grupos que podem gerar equívocos.

O cónego Marcos Gonçalves sublinha que a comunhão plena assenta em três vínculos essenciais: “a mesma fé, os mesmos sacramentos e o mesmo governo eclesiástico”, alertando que “se falta um destes vínculos, já não podemos dizer que estamos em plena comunhão”.

O responsável madeirense pede atenção para a distinção entre sacerdotes católicos e ministros de outras denominações que utilizam “linguagem, paramentos ou formas celebrativas semelhantes”, recomendando aos fiéis que verifiquem se o sacerdote “frequentou um seminário de uma diocese da Igreja Católica” e se está devidamente incardinado.

“A nossa Igreja possui todos os meios necessários para a salvação, dados por Cristo e pela ação do próprio Deus”, escreve o vigário-geral, que enquadra a existência de outras comunidades no princípio da liberdade religiosa, mas sem confusão institucional.

Já em 2023, a Diocese de Leiria-Fátima tinha emitido uma nota demarcando-se de retiros de “Cura e Libertação” realizados em Fátima por Francisco Marques e Salvatore Micalef, esclarecendo na altura que as fotografias do jovem com o Papa resultavam de “encontros acidentais” e não serviam para “credibilizar uma atividade que não está em comunhão com a Igreja”.

OC

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