Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro
De entre as várias histórias do “Decameron” – aquele conjunto de narrativas que um grupo de amigos, às portas de Florença, conta durante uma quarentena –, há uma particularmente significativa para os católicos inseguros e perplexos dos tempos de hoje. Reconto-a em traços largos. Boccaccio que me perdoe se desfiguro a sua obra-prima.
O mercador Abraão, judeu, por insistência do seu amigo cristão Giannotto, também mercador, pensa em aderir ao cristianismo. Mas antes tem de pôr as coisas em pratos limpos. “A prova é que quero ir primeiro a Roma [viviam em Paris] ver aquele a quem chamas Vigário de Deus na terra, observar a vida que leva, as suas maneiras e igualmente a dos seus irmãos, os cardeais. Se vir que a conduta dele vem confirmar as tuas palavras e ela me levar a compreender que a vossa fé é superior à minha, tal como tentaste demonstrar-me, cumprirei a minha promessa: senão, judeu sou e judeu morrerei” (citações da edição do Círculo de Leitores).
Giannotto claro que fica preocupado. Roma, naqueles tempos, não era local muito aconselhável para se encontrar pessoas virtuosas, pelo que tenta impedir que o seu amigo faça a viagem. Mas Abraão vai e vê clérigos dados a “espetáculos” como a luxúria, “e não só segundo a inclinação natural”, a gula, a “cupidez de dinheiro” e “muitos outros que é melhor calar”.
Sabendo do regresso do judeu a Paris, Giannotto vai ao seu encontro, sem qualquer esperança na sua conversão. Abraão conta o que viu e conclui: “Deus deve castigá-los a todos sem exceção. (…) Não me pareceu ver em nenhum desses clérigos qualquer santidade, devoção, caridade, dignidade (…)”. Mas depois acrescenta: “A meu ver, o vosso pastor, e por conseguinte todos os outros que vêm depois dele, parecem consagrar todos os seus esforços a reduzir a nada e a expulsar do mundo a religião cristã, de que deviam ser os alicerces e responsáveis. Mas, como vejo que tal finalidade não foi atingida e que a vossa religião se vai estendendo dia a dia, projetando uma luz cada vez mais deslumbrante, julgo compreender que o Espirito Santo é, com toda a justiça, o seu alicerce e o seu responsável (,,,)”. E a consequência: “Vamos pois à igreja e faz-me batizar segundo os princípios habituais da nossa santa religião”. Abraão é batizado na Notre Dame de Paris.
É só uma história, claro. O “quanto pior, melhor” não resulta nos tempos de hoje. Há muito tempo que o trono de Roma só é ocupado por pessoas virtuosas. Ainda que muitos dos que os rodeiam não o sejam, os papas dos séculos XX e XXI são todos admiráveis – e uma boa parte deles oficialmente santos.
Mas se olhamos para grandes personalidades católicas que nos últimos tempos caíram em desgraça por terem sido revelados pecados e crimes, mais recentes ou mais antigos, talvez devamos pensar um bocadinho como o Abraão de Boccaccio. O Espírito Santo atua para lá das pobres pessoas. José Kentenich, fundador de Schoenstatt, Jean Varnier, fundador da Arca, Abbé Pierre, do Movimento de Emaús, ou Mark Rupnik (ainda entre nós), que com a sua comunidade criou o painel da Basílica de Santíssima Trindade, de Fátima (há um padrão: são todos homens e estão todos envolvidos em escândalos de natureza sexual), entre outros, fizeram muito bem, deixaram belas palavas e admiráveis obras, mas estão marcados por falhas graves.
Os escândalos doem-nos porque pensamos que a fé se impõe pelo exemplo e testemunho (como tanto se repete), quando se impõe pela graça. E a graça pode surgir em qualquer lugar, em qualquer contexto, mesmo com contratestemunhos. Doem-nos porque a meritocracia infiltrou-se na Igreja. Doem-nos porque julgámos ultrapassada a depravação humana, a inclinação para o mal, o pecado original. Doem-nos porque nos esquecemos que todos os santos são pecadores perdoados. Por vezes, parece que não acreditamos na conversão. A nossa e a dos outros. Mas a Jesus, não a pessoas. Boa Quaresma.
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