Frei da Ordem dos Pregadores recorda trabalho em prol dos direitos humanos e da cidadania desenvolvido pelo Instituto Mosaiko, em Angola

Lisboa, 07 jan 2026 (Ecclesia) – O Frei Mário Rui disse hoje que o futuro “não está em quem oprime mas em quem constrói a liberdade, a solidariedade e o cuidado” e, apesar do presente incerto, acredita no potencial das “pequenas comunidades”.
“D. Hélder da Câmara falava das minorias abraâmicas. Não são as maiorias que mudam o mundo; o que muda o mundo são as minorias de convicção. A humanidade já viveu momentos muito sombrios – e eu acho que a Europa tem uma falsa ideia de si mesmo que foi construindo – mas quando somos a marca da justiça, da paz, da atenção aos mais frágeis, o futuro não está em quem oprime. O futuro está em quem constrói a liberdade, a solidariedade, o cuidado com as pessoas. É daí que vem o futuro”, explica o frei dominicano à Agência ECCLESIA.
O frei da Ordem do Pregadores criticou o “gasto de dinheiro” que “alimenta os senhores da guerra da indústria do armamento”, criando a falsa ideia de que aos países se sentem mais seguros: “Isto é uma loucura”.
“Não se trata de uma nova Ordem mundial mas de uma desordem. O mundo descobre, com choque, com a mudança da política externa dos Estados Unidos, mas não é uma coisa de agora. E de facto é uma espécie de cegueira, de não olhar para a realidade, procurando vender a ideia de que temos de nos armar. Gastar o nosso dinheiro não para dar de comer a quem tem fome, não para curar quem está doente, mas para alimentar os senhores da indústria do armamento, fingindo que ficamos mais seguros. Isto é uma loucura”, sublinha.
Durante quase 30 anos a viver em Angola, concretizando o que o Mosaiko – Instituto para a Cidadania procura desenvolver, o frade dominicano recorda a força de mudança quando as pequenas comunidades, “mesmo pessoas que nunca foram à escola mas me ensinaram muito”, conseguem fazer quando “confiantes e mobilizadas para a mudança”: “A vida é feita de surpresas e descobertas”.
O Frei Mário Rui pisou pela primeira vez o país angolano quando em 1988 aterrou na cidade de Waku Kungo, no Quanza Sul, na fronteira de guerra, “enclausurados em 30 quilómetros de missão”, com tropas a circundarem o local; ainda sem pertencer à Ordem dos Pregadores, o jovem permaneceu durante um ano de missão, antes de iniciar o tempo de noviciado.
“Ali somos uma presença muito maior do que nós. Porque somos o sinal de uma presença que não abandona aquelas pessoas. O estar presente ali quando o Exército sai, as ONG’s saem, as Nações Unidas saem, as instituições do Estado saem… Fica a Igreja. Isso o povo sabe o que signfica. Nós estamos ali por uma missão que nos foi confiada e por uma graça que nos foi dada. Para mim, a minha vida não teria nem pouco mais ou menos a graça que tem e a piada que tem, se eu não tivesse podido viver o que vivi, nomeadamente com essas pessoas e aprender com gente que nunca pisou na escola mas que me ensinou muita coisa, sobre a vida e que ajudou a fazer com que eu seja a pessoa que eu sou”, recorda.
De regresso a Angola em 1996, já frade e ordenado padre, o Frei Mário Rui ajudou a concretizar o Mosaiko – Instituto para a Cidadania, procurando não apenas assistir as comunidades onde já se encontravam, mas “dar perspetiva de vida à população”.
“Além do serviço que já fazemos numa paróquia de interior com características de missão – só para ter uma ideia, com um diâmetro de 80 quilómetros, muito estruturada com sete zonas pastorais, 31 centros, mais de 400 comunidades cristãs – surgia a pergunta: Qual pode ser o nosso contributo como dominicanos?”.
A marca “do estudo” mas também “a realidade” abriram caminho para a concretização de um projeto que ajudasse a formar para a cidadania e para os direitos humanos.
“O Moskico é uma tentativa de concretização de um projeto que olhasse para o futuro do país, que estudasse a realidade e que fosse uma marca da vida dominicana, do jeito de ser dominicano naquela realidade, naquela Igreja onde essa presença tinha começado muito recentemente e com projetos ligados a paróquias numa grande cidade e no interior”, recorda.
Num tempo de guerra, em que o outro “é o inimigo”, o frei dominicano lembra o trabalho que o instituto foi fazendo para “olhar a diversidade de povos, de pessoas, a diversidade de culturas, como uma riqueza e não como uma maldição”.
“Falar de direitos humanos em Angola, nos anos 90, era difícil. Mas quando as pessoas percebem que os direitos humanos não são conceitos ideológicos ou estéreis mas ferramentas de transformação de vida, isso transforma a realidade”, assinala.
A conversa com o Frei Mário Rui Marçal pode ser escutada esta noite no programa ECCLESUIA, com emissão na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».
LS
