Adalberto Dias admite complexidade de um projeto que durou 14 anos entre estudos e obra, revelando vestígios desde a Idade do Ferro

Lisboa, 26 jan 2026 (Ecclesia) – O arquiteto Adalberto Dias, autor da obra ‘Renascer da Sé Patriarcal de Lisboa’, assumiu que as obras naquele monumento lhe causaram “muitas insónias”, sublinhando a “complexidade” da história que lhe está ligada.
“De facto, este projeto foi um processo de grande complexidade, não só pela sua natureza, considerando a existência de várias civilizações, vários estratos e vários valores que interessavam salvaguardar, não só os valores históricos, como os simbólicos, arquitetónicos e também religiosos”, disse à Agência ECCLESIA.
“Isto é uma obra de paixões”, acrescentou o arquiteto Adalberto Dias.
O arquiteto sublinhou ainda que a Sé funciona hoje como um compêndio da história do território onde, apesar de se ter confirmado que não existiu ali uma mesquita, se cruzam vestígios de várias civilizações.
“Revelou-se que no seu claustro houve outras civilizações, desde a Idade do Ferro passando pelos romanos, os muçulmanos, a época medieval e hoje, o moderno e o contemporâneo”, explicou.
O entrevistado sublinhou a existência de “vários valores que interessavam salvaguardar”.
Nas obras de recuperação e requalificação da Sé de Lisboa, Adalberto Dias centrou os esforços no desafio de “respeitar e transportar todos estes valores.”
Quando existem valores em jogo, “as incompatibilidades, resistências e incompreensões” são normais.
“Isso verificou-se” e, por isso, foi um “projeto longo que “obrigou a um tempo de elaboração”, salientou.
Um trabalho de estudo e projetos, “incluindo as respetivas aprovações”, com alguns anos que coincidiram com o aparecimento de “novos valores, novos artefactos, novos estilos arqueológicos” que obrigaram a “reavaliar o projeto”.
A recuperação da Sé de Lisboa foi “um projeto vivo” porque “estava sempre a mudar”.



As obras conseguiram conjugar pedras seculares com materiais seculares.
“Uma forma de não interferir uns com os outros e cada um deles – o contemporâneo ou o mais antigo – pudesse manter a sua identidade”, explicou o arquiteto Adalberto Dias.
Para o arquiteto, o “novo material, o contemporâneo”, não deve anular a história, mas “refletir e ampliar o que existia”.
A simbiose entre arquitetura e arqueologia nas obras da Sé de Lisboa teve “tensões”.
O parque arqueológico “não estava de todo identificado, registado e estudado” por isso, o início dos trabalhos “não correspondia àquilo que pudesse ser a realidade do território”.
Em relação às obras de requalificação na Sé de Lisboa, Adalberto Dias revela que os “filhos preferidos dos arquitetos são sempre os últimos” por isso, os arquitetos têm sempre uma relação “muito freudiana com a própria obra”
“Um projeto de arquitetura é sempre diferente, mas temos de encontrá-las como se encontram as riquezas nos filhos”, acrescentou.
A apresentação da obra, no último sábado, esteve a cargo do professor Mário Varela Gomes e do arquiteto Jorge Figueira.
A iniciativa, que aconteceu no Claustro da Sé Patriarcal de Lisboa, foi promovida pelo Cabido da Sé Patriarcal de Lisboa, pelo Instituto do Património IP, pela Ferrovial e pela editora Caleidoscópio.
LFS/OC
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