Com a participação de mais de 250 membros da Igreja Diocesana – presbíteros, diáconos, consagrados e leigos – se realizou o nosso Congresso Eucarístico. Os congressistas querem partilhar, a partir deste momento e deste lugar, algumas afirmações e reflexões, que exprimem a intensidade dos momentos de graça por todos vividos nos dias do Congresso. Não se trata de conclusões, mas apenas de uma partilha fraterna, que esperamos possa ser fermento de renovação das nossas comunidades. 1. No rosto desfigurado de Cristo aparece a autêntica beleza do Amor que amou até ao fim, mostrando-se mais forte do que toda a mentira e violência, pecado e morte. A beleza é o modo próprio de ser de Deus. Assim, adorar quer dizer render-se à Beleza de Deus. A Eucaristia é uma Pessoa viva. É a beleza redentora de Cristo. A Eucaristia é a actualização das palavras mais originais e inauditas, mais sentidas e amorosas, mais intensas e dramáticas da história da humanidade: “Isto é o Meu corpo. Tomai e comei todos. Isto é o meu sangue. Tomai e bebei todos.”Jesus não nos deu uma coisa de muito valor e estimação. Deu-se a Si próprio. São as palavras daquele rosto desfigurado de Cristo que aparece como autêntica beleza do amor. 2. Os discípulos de Emaús, na sua desilusão, estavam em disjunção com o grupo, com Jerusalém e entre si. Jesus caminha com eles, entra no seu mundo interior e usa a pedagogia serena e soberana de Deus. Reconta-lhes a história que eles não entendiam, aquece-lhes o coração, entra em sua casa, parte o pão e dá-lho, deixa-os, ficando ainda mais com eles. Assim, o Cristo Pascal fica connosco para sempre, e não apenas por mais algum tempo de emotiva satisfação. Em cada celebração da Eucaristia, se relatamos com o mesmo amor, a mesma história, por todos vivida, então caem os muros e somos, finalmente, irmãos inseparáveis. 3. A Eucaristia é sempre princípio e projecto de vida. Não há verdadeiro culto aceitável a Deus, se não há compromisso de justiça a favor dos mais fracos e injustiçados. A participação na Eucaristia deixa-nos, por isso, sempre mais inquietados. Quando no fim nos é dito “Ide em paz”, há que entender: Ide e produzi frutos de alegria, de participação, de solidariedade, de justiça, de paz, de amor, de esperança…E não vos esqueçais que o Jesus que disse “Tomai e comei todos” foi o mesmo que disse: “Tive fome e não me destes de comer…” 4. Quando desaparece o amor, o mundo torna-se mais frio e menos hospitaleiro. Quando desaparece a esperança, tudo se desagrega na pessoa e na sociedade. Quando se mata Deus não se constrói um homem, nem mais humano, nem mais feliz. Os caminhos invertem-se. Porque os humanos não batem à porta de Deus, é Deus que bate à porta dos humanos. Numa dinâmica de visitação e de experiência mútua, o Senhor não força, convida a abrir a porta, entra e fica. Com Ele, a vida recobra sentido. 5. É preciso valorizar o Domingo, como tempo da família, e a participação na Eucaristia, como actividade normal de uma família cristã. Quando a Eucaristia se torna plena à luz da Palavra escutada, ela continua presente a dar luz à nossa vida do dia a dia. “O que a alma é no corpo, são no mundo os cristãos”.Para isso há que criar uma disciplina de vida que alimente: oração diária, leitura e escuta da Palavra de Deus, participação na celebração da Eucaristia, adoração ao Santíssimo, serviço doado aos outros. Só no serviço aos irmãos Deus prestamos glória a Deus, nosso Pai. 6. A Eucaristia com as crianças é sempre festa, e deve projectar, de modo gradual, para a celebração com adultos. Nessa Eucaristia é preciso dar lugar às crianças e sensibilizá-las para que façam com sentido tudo o que lhes é pedido. Nunca se pode perder de vista que a Missa é uma festa. As crianças sentem que é assim e os adultos o vão dscobrindo. Para os jovens é importante compreender que celebrar a Eucaristia é celebrar a fé e celebrar a vida, é estar juntos em comunidade, é iluminar e alimentar os horizontes e as opções. Pensando nos jovens, não há soluções, há caminhos a descobrir e a trilhar que não se podem separar da vida, devem surgir como espaço de afirmação pessoal, favorecer a participação activa e consciente e a identificação com um grupo: a sua comunidade. 7. Há cristãos que, pela sua situação matrimonial, não podem participar plenamente na Eucaristia . Eles têm direito a estar na assembleia eucarística, a ser acolhidos e amados, a que a comunidade reze por eles e com eles. A partir do Deus amor, rico em misericórdia, vamos continuar a procurar formas pastorais de acolhimento e acompanhamento mais expressivas, a facilitar a incorporação mais positiva na comunidade paroquial, a ajudar a libertar de angústias, a experimentar a paz de Deus, que a ninguém é negada. 8. Mesmo que estivessem resolvidos todos os problemas sociais, a comunidade cristã nunca está dispensada de se renovar no seu seio, como comunidade de amor e de partilha com os outros. Só assim ela será cristã e poderá celebrar a Eucaristia. Não basta detectar as carências dos pobres., que são muitas e diversificadas. É preciso procurar as suas causas e organizar-se para lhes dar resposta adequada, não parando nunca, a comunidade, enquanto esta resposta não for total. É sempre a partir da celebração eucarística dominical que a comunidade, como um todo, se deve exprimir no exercício da caridade, em favor dos mais pobres. A vivência da partilha fraterna, que dá valor ao outro na vida de cada um de nós, exige formação que começa logo na catequese e continua, sem parar, ao longo da vida toda. Sem sensibilidade e formação, cai-se facilmente na ajuda rotineira, que não respeita o outro, nem o ajuda a crescer. 9. Em cada um dos nossos gestos é o mundo inteiro que se renova ou de se destrói. A Eucaristia é fonte e escola permanente de novos gestos capazes de renovar o mundo, de lhe dar o sentido de Deus e experiência de amor, que não se esgota. Assim na família, no trabalho, no compromisso social e político. Trata-se de uma vivência cristã singular que, em cada celebração eucarística, se alimenta, se renova, se comunica e se projecta. Aveiro 12 de Junho de 2005
