Papa assume liderança no caminho ecuménico

Muito se especulou sobre o que seria a dificuldade de suceder a João Paulo II no campo do ecumenismo. Tendo sido o Papa polaco aquele que mais avançou no diálogo com as Igrejas Cristãs, o receio de alguma falha na passagem de testemunho foi adensado quando a escolha dos Cardeais recaiu sobre Bento XVI, o homem que nos seus tempos de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tinha promovido a célebre “Dominus Iesus”, a Declaração sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja Católica (2000). Para surpresa de muitos, desde o início do pontificado Bento XVI escolheu como missão primeira “a reconstituição da unidade plena e visível de todos os seguidores de Cristo” e já ninguém pode duvidar que está a cumprir essa promessa. Após ter recebido, no Vaticano, o secretário-geral do Conselho Ecuménico das Igrejas (CEI), pastor Samuel Kobia, o Papa enviou a Moscovo o Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a promoção da Unidade dos Cristãos, numa visita que, apesar da falta de resultados espectaculares, permitiu abrir caminhos para entendimentos futuros. Hoje, no Vaticano, a solenidade litúrgica de São Pedro e São Paulo, apóstolos fundadores da Igreja de Roma, foi aproveitada pelo Papa para reafirmar a importância do seu ministério enquanto garante da “unidade”, assinalando que “como Bispo de Roma, o Papa desenvolve um serviço único e indispensável à Igreja universal: é o visível e perpétuo princípio e fundamento da unidade dos Bispos e de todos os fiéis”. Citando a constituição Lumen Gentium do Concílio Vaticano II, o Papa disse que “na comunhão eclesiástica estão legitimamente as Igrejas particulares, com as suas próprias tradições, permanecendo íntegro o primado da Cátedra de Pedro, a qual preside na comunhão universal da caridade, protege a variedade legítima e zela para que aquilo que é particular, não só não corroa a unidade, mas a sirva”. O dia de hoje contou com a habitual presença de uma delegação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, um dos parceiros privilegiados do diálogo entre as Igrejas. O Papa disse à delegação ortodoxa que “o primado da Igreja que está em Roma e o do seu Bispo é um primado de serviço à comunhão católica”, sendo a referência central para a unidade doutrinal e pastoral. Bento XVI não passou ao lado, por isso, de uma das grandes questões no ecumenismo, que se relaciona com a interpretação do exercício do papado. Mais do que considerar a sua missão enquanto Papa como um obstáculo à plena e visível unidade entre os Cristãos, o sucessor de João Paulo II avança: é o Papa quem deve estar na frente do caminho ecuménico. Por isso mesmo, num dia tão simbólico como o de hoje, foi possível ouvi-lo rezar: “que o ministério petrino do Bispo de Roma não seja visto como obstáculo, mas sim como apoio para o caminho rumo à unidade, e nos ajude a realizar quantos antes o desejo de Cristo: Ut unum sint (que todos sejam um)”.

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