D. António Marcelino, Bispo de Aveiro, celebrou este fim-de-semana as suas bodas de ouro sacerdotais. Em entrevista à Agência ECCLESIA, o prelado, uma das figuras mais respeitadas da Igreja em Portugal, fala do seu percurso e do que ainda pensa fazer Agência ECCLESIA – Qual é o balanço que faz de 50 anos de vida sacerdotal? D. António Marcelino – Quando nós nos entregamos a Deus de forma total, abertos às possibilidades que o Senhor nos vai mostrando através da sociedade, a vida é um desafio fascinante. Nós não somos capazes de perceber, na sua totalidade, o mistério do sacerdócio quando somos ordenados. É na confiança que o Senhor depositou em nós e naquela que depositamos nele, que nunca pode falhar, que descobrimos aquilo que é ser Padre. AE – Que mudou no Pe. António Marcelino desde a sua ordenação? AM – Percebi desde o princípio que queria ser de Deus e, mais tarde, que a nossa vida em Deus passa pela nossa história humana. 50 anos permitem perceber, agora, que é Deus que nos conduz. O Senhor foi-me tomando pela mão, aqui e ali, nos êxitos e nos fracassos, mas sempre como amigo. Ofereceu-me possibilidades que não imaginava, ao serviço do Evangelho, purificou outras coisas, e é uma aventura apaixonante quando sentimos isso. Eu sonhava ser um pároco na minha diocese, mas há sempre novos horizontes que se abrem e o Senhor foi-me conduzindo de outra maneira. AE – Como começou este percurso? AM – Após a ordenação fui logo para Roma, o que considero ter sido uma graça muito grande. Descobri a dimensão da catolicidade rezando o mesmo Credo com gente de outras raças, no contacto com o Papa, na universidade internacional. Esta experiência preparou-me para a abertura que Deus me deu, no mundo em que estamos a viver. Regressei em 1958 para o seminário maior de Portalegre, para começar uma nova caminhada, após ter entendido que também éramos padres para preparar os leigos. Depois veio o Concílio, um novo horizonte que se abriu. Na altura senti que o fruto estava maduro: era altura de o comer ou dele apodrecer. Vivi esses anos de forma apaixonada, e empenhei-me fortemente na sua divulgação – chefiando uma equipa que passou pelas dioceses do país, oferecendo cursos novos sobre temas conciliares. Entretanto surgiram possibilidades de eu começar a ir à África, onde estive pela primeira vez em 1968. Comecei por orientar retiros e encontros, um trabalho intensivo, verdadeiramente louco: depois fui durante 5 anos seguidos, dando as minhas férias e até mais do que isso. Trabalhei, aqui, em todas as dioceses do país e conheço padres em todas elas, tudo aquilo em que me empenhava era com paixão eclesial. Gosto de dizer que não fiz passeios, fiz caminhadas de trabalho. AE – Um percurso de sucesso? AM – Pus sempre muito entusiasmo naquilo que fiz e isso é muito importante. De vez em quando surgiram doenças graves, como hepatites e hemorragias, quando pensava que era indispensável. Deus foi-se mostrando, sempre, através deste tempero das capacidades com as fraquezas. Sempre senti que o Senhor mostrava a sua força nas nossas debilidades, pelo que me levantava facilmente quando caía. Tudo isto para mim foi algo de extraordinário, porque me ajudou a pensar que o que fazia era força de Deus. Após vários anos em Portalegre fui nomeado vigário episcopal para a Pastoral geral e corri todos os cantos e recantos. Fiz algumas loucuras por não pensar em descansar, mas isso fazia parte da minha caminhada. Até que um dia me desinquietaram para ser Bispo, na altura em que pensava que o meu lugar era em Portalegre, porque a diocese era grande e precisava. Mas não foi assim e tive de vir para Lisboa, onde fui responsável pela área do Oeste e aí foi a mesma coisa: também posso dizer que não canto onde não tenha ido, em qualquer dos Concelhos. Depois chamaram-me para Aveiro, continuando aquilo que sempre disse: estou em Missão. A Igreja tem de ter a fisionomia da comunidade humana onde está e eu procurei que essa fisionomia existisse. Tive um antecessor notável, D. Almeida Trindade, um homem sereno e calmo, um teólogo. Depois tentei inovar, passando semanas nas paróquias, praticamente, preparando visitas pastorais. Não creio que fosse, no fundo, um activista à procura de consolação pessoal. Sou dinâmico, isso sim, apaixonado, sentia sempre presente a urgência do Evangelho: é preciso evangelizar, é isso que nos ajuda a viver. AE – Nestes anos, além do Concílio do Vaticano, viveu a Revolução de Abril… AM – Essa foi outra experiência extraordinária, dado que já tinha responsabilidades diocesanas muito grandes. Vi sequestros, assaltos, mas Deus deu-me uma força fantástica e a capacidade de correr riscos. Essa foi uma boa escola de formação. Nesses dois acontecimentos que vivi, para além da experiência que tive em África, há em comum a vontade de Deus em mostrar o amor que tem por todos: pelos políticos do 25 de Abril, pelos parados no Concílio, pelos instalados no pré-Concílio, pelos pobres em África. Esse amor de Deus leva a Igreja a perceber que tem de ter respostas: a Igreja é porta bandeira desse amor infinito de Deus. Onde quer que encontro desafios, encontro possibilidades. Lamentavelmente, sinto que a Igreja não está atenta ao que Deus semeia nos seus filhos. O Concílio, de facto, abriu-me horizontes e mostrou-me uma Igreja presente no mundo sem ser do mundo, mas hoje há muitas coisas em que não conseguimos estamos presentes. AE – Ainda há projectos para o futuro? AM – A minha vida persiste e continua, aderindo aos novos desafios que o Senhor me vai propondo. Nunca me conformei, nunca fui um instalado, e quando não posso fazer tudo aquilo que julgo ser necessário, fico um pouco inconformado com as limitações. O Bispo, contudo, não tem de marcar o seu ritmo, mas o ritmo de Deus, do seu Evangelho. Às vezes sinto que sou, talvez, demasiado cansativo para os meus colaboradores, porque tenho muita genica. A gente só pode cá estar, contudo, quando está vivo: se não está vivo, não interessa. Por isso, tenho de estar vivo até ao fim e ter projectos, necessariamente. O projecto a que me quero dedicar até ao fim é despertar para o diálogo Igreja-mundo, e penso que a renovação da Igreja passa pelo serviço. A Igreja ainda fica muito pelo templo, mas este é um lugar de passagem, de fortalecimento – ninguém vive dentro das igrejas.
