Igreja Católica e Ortodoxos prontos para uma aproximação
João Paulo II deu vida, neste sábado, a mais um momento histórico no caminho do ecumenismo, quando entregou ao Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, as relíquias dos Santos Gregório Nazianzeno e João Crisóstomo, venerados há séculos na Basílica de São Pedro.
A cerimónia representou, nas palavras do Papa, o sinal da vontade de caminhar junto rumo à “plena e visível unidade que Cristo quer para seus discípulos”. A decisão foi saudada pelo Patriarca Ortodoxo Bartolomeu I como “um gesto fraterno”. João Paulo II fez votos para que “o regresso das relíquias a Constantinopla possa ser uma ocasião abençoada para purificar as memórias feridas e reforçar o caminho de reconciliação” entre católicos e ortodoxos.
No mesmo sentido se manifestou Bartolomeu I, na homilia, assegurando que “este gesto sagrado repara uma anomalia e uma injustiça eclesiástica”. “Este gesto fraterno da Igreja de Roma confirma que não existem, na Igreja de Cristo, problemas inultrapassáveis quando o amor, a justiça e a paz se reencontram num espírito de reconciliação e procura da unidade”, acrescentou, agradecendo ao Papa por tudo o que ele tem feito para “cicatrizar as antigas feridas e prevenir novas”.
Antes do gesto de sábado, João Paulo II restituíra, em Agosto, o ícone de Nossa Senhora de Kazan ao Patriarcado Ortodoxo de Moscovo. O Papa ressaltou o papel dos Santos Gregório Nazianzeno e João Crisóstomo, “ardentes intercessores do dom da unidade visível para as nossas Igrejas”. Os dois Santos viveram no século IV, no território que é hoje a Turquia.
As relíquias de São Gregório Nazianzeno encontravam-se em Roma desde o século VIII, num mosteiro de Beneditinas, tendo sido transferidas em 1580 para uma capela na Basílica de São Pedro por iniciativa do Papa Gregório XIII. Os restos de São João Crisóstomo foram roubados há mil anos, no saque a Constantinopla, um dos momentos mais dramáticos da história nas relações entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.
Estas relíquias estão na capela do Santíssimo Sacramento da Basílica de São Pedro desde o século XVII. Cantos latinos e coros gregos alternaram-se ao acompanhar a procissão com as relíquias dos dois Padres e Doutores da Igreja, custodiadas em urnas de alabastro. O momento crucial da celebração, a entrega das relíquias a Bartolomeu I, foi precedido da leitura de uma carta endereçada pelo Papa ao Patriarca de Constantinopla.
Na missiva, lida pelo Arcebispo Leonardo Sandri, Substituto da Secretaria de Estado, o Papa ressalta que a trasladação das santas relíquias representa “uma ocasião abençoada para confirmar que a fé desses nossos Santos é a fé das Igrejas do Oriente e do Ocidente”. “Não me cansarei nunca de buscar, firme e decididamente, esta comunhão entre os discípulos de Cristo, pois o meu desejo, em resposta à vontade do Senhor, consiste em ser servo da comunhão na verdade e no amor”, assegurou o Papa.
Dando seguimento a este gesto, ontem à tarde uma delegação da Santa Sé chegou a Istambul, na Turquia, com Bartolomeu I, para a festa de Santo André, Patrono do Patriarcado de Constantinopla, que se celebra no dia 30 de novembro. À chegada, Bartolomeu I agradeceu diante de uma multidão em festa “a generosa decisão” do Papa e da Cúria Romana, assegurando que este gesto “diferencia-os dos seus predecessores”.
