A escolha de Bento para nome do novo Papa apanhou de surpresa os cardeais que o elegeram ao fim de quatro votações mas o eleito – o cardeal Ratzinger passará a chamar-se Bento XVI – explicou as razões de tal escolha: S. Bento, padroeiro da Europa, e Bento XVI, que liderou a Igreja de 1914 a 1922. Os monges beneditinos ficaram satisfeitos com a escolha porque foram os seguidores de S. Bento que evangelizaram a Europa, um “continente que nós queremos politicamente unido” – disse à Agência ECCLESIA o Pe. Geraldo Coelho Dias, monge beneditino. A Europa tendo sido o “primeiro continente cristão” está “profundamente descristianizado”. Em 1964, Paulo VI escolheu S. Bento para padroeiro da Europa, Bento XVI – realça o monge beneditino – pretende “colaborar na aproximação do coração da Europa”. Através da cruz, da pena e do arado, os seguidores de S. Bento construíram “esta Europa que nos orgulhamos de pertencer”. O nome de S. Bento esteve presente “no espírito do Papa Bento XVI” – sublinha o Pe. Geraldo Coelho Dias. Foi buscar às raízes europeias “o nome de um santo que tem uma projecção universal”. Os beneditinos estão espalhados por todo o mundo, o primeiro mosteiro desta ordem “construído no novo mundo – Brasil – foi construído pelos monges portugueses na cidade de S. Salvador da Baia”. Este pontificado “não irá cortar com os anteriores” mas “procurar um nome ligado à missão”. Se S. Bento inspirou a escolha, o Papa Bento XV – o “homem da paz” – também teve influência. Natural da Alemanha, o cardeal Ratzinger viveu “os horrores da última grande Guerra” e sentiu que a figura do seu antecessor – Bento XV – poderia “ser emblemática e significativa para aproximar na paz”. A re-cristianização da Europa será uma prioridade do seu Pontificado mas “Bento XVI tem uma visão da Igreja que é ecuménica e universal”. E acrescenta: “irá abrir-se ao grande mundo dos vários continentes”. Uma escolha “emblemática e significativa”. Com um temperamento “manso e até tímido”, o novo Papa não deixará de “levar ao mundo a mensagem total da Igreja”. Bento XVI “não é aquele cardeal da inquisição e dos medos”. Como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, ele assumiu “a sua função” de “zelar pelo radicalismo cristão”. Na participação no II Concílio Vaticano, ele mostrou “como estava aberto aos grandes problemas do homem e do mundo”. Só uma certa “cegueira” provocada pela Revolução Francesa é que “pode esquecer que os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade são profundamente cristãos” – disse o Pe. Geraldo Coelho Dias. Quando recebeu o Prémio «S. Bento», atribuído pela Fundação de Subíaco para a Vida e a Família, no passado dia 1 de Abril, o agora Bento XVI referiu que “a força moral não cresceu junto ao desenvolvimento da ciência mas que ao contrário diminuiu”. O perigo actual está “no desequilíbrio entre possibilidades técnicas e energia moral”. O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé até a morte de João Paulo II assinalou que a “Europa desenvolveu uma cultura que, num modo desconhecido para a humanidade, exclui Deus da consciência pública, seja negando-o de todo ou julgando que a sua existência não é demonstrável, incerta, e, portanto, algo irrelevante para a vida pública”. Bento XVI terá presente o ardor pastoral do papa que atravessou a primeira guerra mundial. Foi ele que a 29 de Junho de 1919, numa carta apostólica reconheceu a República Portuguesa e a 18 de Dezembro desse ano escreveu aos bispos portugueses para apoiar a criação do Centro Católico Português. Bento XV “olhou para o mundo de hoje, foi o papa da missionação, da abertura da Igreja aos povos que, estando mais longe, com maior dificuldade poderiam abrir-se à fé cristã. O desafio missionário, foi o seu carisma” – frisou o Pe. Vítor Feytor Pinto. Na carta apostólica sobre as missões, Maximum Illud (1919), Bento XV deplora profundamente o “zelo indiscreto” de muitos missionários em servir os interesses e promover o prestígio do seu país de origem, tornando deste modo suspeita a acção propriamente evangelizadora (cf. n. 19-20). Quando D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, foi cumprimentar Bento XVI após a eleição, o actual sucessor de Pedro disse-lhe: “Portugal, Portugal, Fátima. Não se esqueça de apresentar a Nossa Senhora este pontificado”. Esta ligação ao «altar do mundo» está relacionada com a vinda, a 13 de Outubro de 1996, do então cardeal Ratzinger à peregrinação internacional do Santuário de Fátima. Existe uma certa similaridade com Bento XV que restaurou com a Bula “Quo vehementius”, 17 de Janeiro de 1918, a diocese de Leiria – Fátima, que tem como padroeiros Nossa Senhora de Fátima e Santo Agostinho. Bento XV beatificou Nuno Álvares Pereira. Será que Bento XVI o elevará a santo? Bento XVI é germânico mas tem ligações profundas com Portugal. Tem amigos portugueses, alguns dos nossos teólogos foram alunos do cardeal Ratzinger e, em 2001, esteve na Faculdade de Teologia-Porto para proferir uma conferência sobre a Europa. “Uma pessoa muito competente, um grande teólogo que leccionou em várias universidades da Alemanha e um homem muito próximo de João Paulo II” – realçou o bispo auxiliar de Évora, D. Amândio Tomás, e amigo pessoal do eleito a 19 de Abril de 2005.
