Os burros na vida de Jesus – Onoterapia espiritual

Pe. José Miguel Cardoso, Diocese de Braga

1. O tempo de Natal evoca um dos seus elementos cristãos (e culturais!) mais preponderantes: o presépio. O seu centro já sabemos quem é: Jesus. Mas há uma outra figura presente que, à primeira vista, parece um pouco estranha: um burro. Embora o texto bíblico não o cite claramente (Lc 2,7), a tradição cristã, perpetuada pelo presépio de Francisco de Assis (1181-1226) e pela subsequente arte devocional, intuiu a presença deste animal porventura em base da profecia de Isaías (Is 1,2-3) e de textos apócrifos (cfr. Pseudo Mateus). Mas se o burro está ali no presépio, lá terá as suas razões.

Provavelmente usado pela Sagrada Família na fuga para o Egipto (ex.: procissão da burrinha da Semana Santa de Braga), só por uma vez Jesus usou um animal para deslocação na sua vida pública (G. Perego), aquando da entrada em Jerusalém dias antes da sua condenação e prisão. Qual o animal que Ele solicitou? Isso mesmo, um burro (jumento) jovem (Mc 11,2-3; cfr. Zc 9,9). Só este detalhe já nos cria uma desilusão: se pensávamos que Jesus se apresentaria em modo triunfal, ao estilo militar (montando um cavalo), afinal apresenta-se como um servo humilde (montando um burro). Para sermos sinceros, Ele já nos tinha advertido disso: «o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos» (Mc 10,45). Mas que coisa nos pode ensinar um burro?

 

2. Os animais não são um elemento secundário na História da Salvação, desde logo pelo seu destaque nos primeiros versículos da Escritura (Gn 1,20-22). Por curiosidade, no texto sagrado são enumerados cerca de 160 animais (L. Bortolin), sobre os quais emerge este princípio hermenêutico: a triangulação Deus – animal – humano (P. Stefani). Os animais são um elemento intermediário, que tanto nos aproximam de Deus como Deus de nós (Sl 148,10), ou vice-versa (Gn 3,1).

No caso do burro, este certamente que mais nos aproxima do que nos afasta de Deus. Emblemática é a passagem da burra (égua/mula, conforme a sinodalidade bíblica da tradução) de Balaão: é por meio dela que Deus purifica a intenção deste homem que, em nome de uma compensação, pretendia amaldiçoar o Povo de Israel (Nm 22,21-35).

 

3. A nível histórico, o burro foi provavelmente um dos primeiros animais a ser domesticado, em virtude de algumas das suas caraterísticas: a sua capacidade ímpar de trabalho (força tratora e capacidade de carga); a sua mansidão e obediência, não sendo um animal agressivo e imprevisível, mas calmo e disponível; e o seu baixo custo, seja na compra, na saúde (raramente fica doente) e na alimentação. Daí um provérbio popular que o comprova, mesmo a jeito desta época natalícia: “é mais barato manter um burro a pão-de-ló, do que manter um guloso”.

Comparando, se o cavalo é um animal alto, veloz e solene, associado à guerra, à caça, à nobreza e à competição, o burro é um animal mais pequeno, lento e discreto, símbolo da humildade, da sobriedade, do trabalho e da paciência.

Se tempos houve em que a Igreja, no seu xadrez de evangelização, apostava mais em cavalos, talvez hoje deva apostar mais em burros, isto é, naquilo que os burros significam. Dito de um outro modo, apostar na onoterapia. O que é isso? Uma terapia mediada por animais, neste caso o burro (grego: ὄνος), com o intuito de promover na pessoa determinados benefícios físicos, cognitivos e sociais. No caso eclesial, uma “onoterapia espiritual”: promover benefícios espirituais.

 

4. É certo que o burro nem sempre gozou de grande reputação cultural na sociedade (A.G. Pereira), pelo que já não servirá como mediação espiritual para uma determinada ala católica que concebe a Igreja somente na sua performance institucional, defendendo somente a sua reputação social (status) em detrimento de outras dimensões cruciais, porque a razão é óbvia: garantindo o status da Igreja, garante-se também o status individual. Contudo… Deus não pede likes (consenso), pede disponibilidade (ação). E é por meio dessa disponibilidade que se opera uma «salvação silenciosa» (Leão XIV).

O episódio central do burro na vida de Jesus (entrada em Jerusalém) elucida-nos sobre alguns elementos nucleares da missão da Igreja, que muitas vezes passam despercebidos. Elencamos apenas três. Primeiro, de que todos são necessários para ajudar Jesus na sua missão (mesmo o insignificante burro!), logo, não há católicos de primeira e católicos de segunda categoria (LG 10). Segundo, o cerne da missão não está tanto na pomposidade social ou na força militar/política (cavalo), mas na servidão discreta e disponível aos outros, como nos ensina o burro (Cesário de Arles). Terceiro, o facto de o burro não acompanhar Jesus até ao fim (até à Cruz), mas somente para O fazer entrar em Jerusalém, demonstra que só Jesus poderia assumir aquela missão que Deus lhe confiou, pelo que nós não nos substituímos a Cristo, mas somos apenas colaboradores da sua missão original (Rm 8,17; 2 Cor 5,20). O barómetro torna-se claro: será mais importante um «servo inútil» (Mt 25,30; Lc 17,10) ou um “burro útil”?

 

5. A onoterapia do burro de Belém e do burro de Jerusalém evidencia este arco teológico: não podemos pensar a encarnação (burro de Belém) desligada da ressurreição (burro de Jerusalém), nem a ressurreição desligada da encarnação. Não por acaso, a liturgia oriental define a solenidade natalícia por “A páscoa do Natal”.

Talvez o burro não esteja no presépio somente para aquecer Jesus… mas para algo mais: recordar que aquele menino veio para salvar, pelo que a nossa missão agora é transportar Jesus, não O substituir! Aliás, foi por causa dessa intenção falhada que Satanás, um anjo inicialmente bom (CIC 391-395), se tornou num anjo mau (F. Suarez). De todas, eis a grande lição espiritual que o burro nos dá: somos apenas transportadores de Cristo em nós (2Cor 4,10-11). Não foi o burro que escolheu Jesus, foi Jesus que escolheu o burro. E se Jesus nos escolheu…

Pe. José Miguel Cardoso
Diocese de Braga

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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