Onde é que Deus pára?

Paulo Adriano, Diocese de Leiria Fátima

A pergunta surge quase sem pedir licença. Diante da devastação provocada pela Kristin — casas destruídas, árvores arrancadas, vidas interrompidas — muitos interrogam-se, em silêncio ou em voz alta: onde é que Deus pára? Não é uma pergunta teórica nem abstracta. É uma pergunta ferida, nascida do espanto e da dor, formulada por quem vê o chão desaparecer debaixo dos pés.

Esta não é uma pergunta estranha à fé cristã. Pelo contrário. A Bíblia está cheia de gritos semelhantes, lançados a partir da fragilidade humana. Não são perguntas de quem deixou de acreditar, mas de quem acredita o suficiente para não fingir que está tudo bem. A fé nunca foi anestesia do sofrimento, nem manual de respostas rápidas para tragédias reais.

O próprio nome atribuído a esta depressão acaba por introduzir, de forma inesperada, uma ressonância simbólica. Kristin é um nome predominantemente feminino de origem escandinava e germânica, variante de Cristina ou Cristiana. Deriva do latim ‘christianus’ e significa “seguidora de Cristo”, “cristã”, remetendo para a ideia de “ungido”, que é a tradução literal de ‘Cristo’. Trata-se, evidentemente, de uma coincidência nominal, sem qualquer leitura mística ou causal. Mas a coincidência convida à reflexão: num acontecimento marcado por um nome que remete para Cristo, a pergunta sobre Deus torna-se ainda mais inevitável.

Perante acontecimentos como estes, há sempre a tentação de procurar culpados metafísicos ou explicações religiosas apressadas. Mas um Deus confundido com a violência da natureza ou com o castigo não corresponde ao Deus revelado em Jesus Cristo. O Deus cristão não está na destruição, não se manifesta na força cega que arrasa, nem decide vidas como quem move peças num tabuleiro.

Onde é que Deus pára, então?

Talvez a resposta não esteja no céu revolto, mas no chão enlameado. Não no vento que destrói, mas nas pessoas que ficam. Deus pára nos rostos cansados de quem ajuda sem perguntar a quem. Pára nas mãos que retiram destroços, nos braços que acolhem quem perdeu tudo, nas palavras simples que não explicam, mas acompanham.

Deus pára na solidariedade que se organiza, mas também na humanidade espontânea que nasce quando alguém vê o sofrimento do outro e não passa ao lado. Pára nos voluntários, nos vizinhos, nas instituições, nas comunidades que se mobilizam, muitas vezes longe das câmaras e dos holofotes. Pára na compaixão concreta, que não resolve tudo, mas recusa a indiferença.

O coração da fé cristã aponta precisamente para aí. Em Jesus, Deus não ficou a observar a dor humana à distância. Entrou nela. Conheceu o medo, o abandono, a injustiça. A cruz não é uma explicação para o sofrimento, mas a afirmação de que Deus não abandona quem sofre. Um Deus vulnerável, que se deixa encontrar onde a vida está ferida.

Se o nome Kristin evoca, etimologicamente, a condição de “cristã”, então talvez a verdadeira interpelação não seja dirigida a Deus, mas a todos os que se dizem de Cristo. Onde pára o cristão quando a tragédia acontece? Onde pára a comunidade quando o sofrimento bate à porta? A fé cristã mede-se menos pelas palavras que profere e mais pela proximidade que assume. E eu, pecador me confesso por ter mais verbo e menos gesto.

Por isso, talvez a pergunta “onde é que Deus pára?” precise de ser deslocada. Não tanto para obter uma resposta abstracta, mas para provocar uma atitude concreta. Deus pára onde alguém se torna próximo. Onde a dor de um deixa de ser apenas problema seu. Onde a humanidade resiste à tentação de fechar os olhos.

A fé cristã não responde, muitas vezes, ao “porquê” das tragédias. Mas insiste no “com quem”: Com quem ficamos quando tudo desaba? Com quem caminhamos na reconstrução lenta, cansativa, silenciosa? Com quem choramos os mortos e sustentamos os vivos?

No meio da destruição, talvez Deus esteja menos escondido do que parece. Talvez esteja, discretamente, nos gestos que salvam a dignidade, nas redes de solidariedade que se tecem, na esperança frágil mas teimosa que nasce quando alguém diz: não estás sozinho.

A pergunta permanece aberta, porque faz parte da condição humana. Mas a resposta começa a desenhar-se sempre que escolhemos a humanidade. Aí, precisamente aí, Deus pára.

Paulo Adriano

(Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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