O Turismo como Lugar de Esperança: A Igreja e a Nova Sustentabilidade

Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, diretor da Pastoral do Turismo – Portugal, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Num Portugal onde o turismo consolidou-se como um motor económico inegável, corremos muitas vezes o risco de reduzir este fenómeno a estatísticas de dormidas e receitas. No entanto, o verdadeiro desenvolvimento de um país não se mede apenas em números, mas na qualidade dos encontros que proporciona. É neste contexto que as VI Jornadas Nacionais da Pastoral do Turismo, agendadas para fevereiro de 2026 no Santuário de Cristo Rei, em Almada, surgem como um marco decisivo, propondo uma visão, na qual a Igreja Católica se assume como um agente essencial para uma sustentabilidade que é, simultaneamente, económica, social e cultural.

Sob o tema “A Esperança de uma nova Sustentabilidade”, a Pastoral do Turismo – Portugal (PTP) lança um desafio audaz: deixar de olhar para o turismo apenas como uma indústria e passar a vê-lo como uma “sociologia da felicidade”, para citar o mote da conferência de abertura do Prof. João Filipe Marques. A Igreja, detentora de uma parte substancial do património cultural edificado e imaterial do nosso país, recusa limitar-se ao papel de “zeladora de museus”. Pelo contrário, posiciona-se como interlocutora ativa na definição de políticas públicas e na humanização do setor.

A importância económica é evidente. A colaboração estreita com a Plataforma Nacional de Turismo e a presença de decisores políticos nestas jornadas, atestam que o turismo religioso e espiritual é um segmento estratégico. Ele combate a sazonalidade, leva fluxos a territórios do interior e qualifica a oferta. Contudo, a sustentabilidade proposta pela Igreja vai além do lucro.

Ao convocar para a mesma mesa a academia (com investigadores da Universidade do Algarve, ICS e UAL), representantes de outras tradições religiosas (como a Comunidade Judaica e Taizé) e agentes culturais, a Igreja promove a sustentabilidade social. O programa das Jornadas insiste no conceito de “amizade social” e no olhar para o turista como um “próximo”. Num mundo globalizado, muitas vezes marcado pela “ilusão da comunicação” — tema de um dos painéis —, o turismo religioso oferece experiências de encontro real, de escuta e de paz, transformando o visitante de mero consumidor, em peregrino de sentido.

Finalmente, há a sustentabilidade cultural. O património religioso não são pedras mortas; é memória viva de um povo. Iniciativas como a “experiência imersiva”, prevista no programa, mostram que é possível inovar sem perder a identidade. A Igreja garante que este património continua a narrar a nossa história, impedindo que os nossos monumentos se tornem cenários vazios.

As VI Jornadas em Almada não são, portanto, um evento fechado em sacristias. São um laboratório de futuro. Ao aliar a reflexão teológica ao rigor científico e à prática operacional, a Igreja Católica demonstra que é indispensável para que o turismo em Portugal não seja apenas uma transação comercial, mas um verdadeiro motor de esperança e humanismo. Se queremos um turismo sustentável, precisamos de quem saiba cuidar da alma dos lugares e das pessoas. E é essa a “nova sustentabilidade” que a Igreja nos oferece.

 

 (Os artigos de opinião publicados na secção ‘Opinião’ e ‘Rubricas’ do portal da Agência Ecclesia são da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)

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