O rumo do país

A mensagem que o Presidente da República, Jorge Sampaio, enviou ontem ao Parlamento veio ao encontro de uma sensibilidade nacional de que, naturalmente, a Igreja Católica se tinha feito porta-voz em várias ocasiões. Não sendo uma novidade absoluta, é um caso que merece um olhar mais atento. O LOC/MTC – Movimento Cristão de Trabalhadores – já no passado fim-de-semana fizera soar várias críticas à actual situação social e laboral do país, que acusa de estar na origem de um forte agravamento das condições de vida dos trabalhadores e suas famílias. “A falta de investimento por parte do Estado e das empresas, em consequência das políticas restritivas do actual Governo, tem contribuído para a estagnação salarial e para a contínua queda do poder de compra das populações, constituindo uma enorme injustiça no que respeita à distribuição da riqueza”, referia então a Equipa nacional. Ao falar sobre as responsabilidades do Estado, Jorge Sampaio alertou para “quão arriscado será, em Portugal, fazer recuar o Estado na vida económica e social”. Num momento em que a “crise” ganhou estatuto de estrela principal, criticou as políticas seguidas pelo Governo e lançou um apelo à descoberta, concertada, de novos caminhos. Para os trabalhadores cristãos, “as alterações introduzidas ou previstas nos regimes de protecção social (reformas, pensões, abonos de família, subsídios de doença, entre outros) além de porem em causa direitos sociais conquistados durante décadas, estão a contribuir para o agravamento das condições de vida das famílias mais desfavorecidas”. Embora sejam reconhecidamente das vozes mais críticas, no seio da Igreja Católica, sobre a actual situação socio-económica, o coordenador nacional do Movimento, António Pereira Soares, diz à Agência ECCLESIA que o LOC/MTC se limita a “fazer uma leitura do que estamos a viver”. José Manuel Pureza, que no debate sobre “Sete pecados sociais, sete sinais de esperança”, organizado pelo Centro de Reflexão Cristã, pediu um “arrependimento social”, vincou à Agência ECCLESIA que o discurso de Sampaio é uma feliz coincidência com estas e outras posições, “porque pela boca do Presidente da República emerge uma forma de inquietação e de pedido aos responsáveis políticos para que encontrem caminhos de articulação”. “O problema estará em saber se esta voz tem ou não continuidade nas outras vozes, na prática de cada um”, alerta o membro do Conselho Nacional Justiça e Paz, organismo católico que já criticara a “ausência estrutural e continuada de direitos básicos na sociedade portuguesa, incapaz de reduzir o fosso entre ricos e pobres”. Significativa é também a descrição do Bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, que no semanário n.º 943 da Agência ECCLESIA dizia da actual situação em Portugal que “este país que nós somos, aparece à minha imaginação com carros topo de gama onde correm concidadãos meus bem sucedidos ou habilidosos; a seguir, um comboio rançoso, a carvão, que avança com muita preguiça, transportando passageiros sem conta, uns mais ou menos contentes, outros abatidos, outros ainda cheios de medo que os lancem fora numa das próximas estações e, nos cais das ditas, em todos, tantas e tantas pessoas que não sabem se ou quando haverá carruagem que as receba e transporte”.

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