D. Carlos Azevedo, nomeado Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa, revela os seus objectivos e a sua forma de estar em Igreja D. Carlos Azevedo, nomeado Bispo Titular de Belali e Auxiliar do Patriarcado de Lisboa a 4 de Fevereiro de 2005, prepara-se para a ordenação episcopal que terá lugar amanhã, 2 de Abril, na Igreja da Trindade, Porto. Em entrevista ao programa ECCLESIA revela os seus objectivos e a sua forma de estar em Igreja ECCLESIA – Com que predisposição assume esta nova responsabilidade pastoral? D. Carlos Azevedo – A atitude fundamental é de serviço. É essa a atitude que eu escolhi como lema para esta função na Igreja e vou querer exercê-la numa atitude de disponibilidade, de criador de comunhão entre todos, de favorecer a participação de todos nas decisões comuns e, sobretudo, acolher como uma oportunidade a disponibilidade que esta hora exige. Há muitos problemas difíceis na vida da Igreja, na vida do mundo, que tornam o desafio ainda maior, mas as ocasiões dos problemas são momentos para que nós demos o melhor de nós mesmos, iluminados pelo espírito. E – O facto de ser Bispo acarreta outra responsabilidade na resolução desses problemas? DCA – Com certeza que agora a tarefa é mais pesada, mas como é mais pesada haverá mais espaço para acolher a força de Deus e para ouvir o mais possível a força do Espírito ecoar nos crentes. Há que estar muito atento, muito vigilante – aliás, a origem da palavra “Bispo” é vigilante -, ser o sentinela para depois com coragem – e é preciso ter essa coragem de Pastor – ir à frente, apontar caminhos, sobretudo na atitude desse serviço, dessa disponibilidade que Deus nos pede hoje nesta hora da História. E – É fácil passar de uma vida académica para uma vida pastoral, numa Diocese? DCA – É facílimo, porque sempre adoptei uma atitude pastoral naquilo que fiz. Nunca fui professor como aspecto burocrático, de mero funcionalismo. Tentei sempre nos lugares onde estive, quer como director espiritual do seminário, quer como pároco, quer agora numa função mais dedicada à universidade, ser pastor aí. Nada me dava mais alegria como quando, no fim de uma aula, um aluno queria falar comigo, porque isso era sinal de que eu estava ali numa função que não era meramente académica, mas que sendo mais o competente possível na função académica e científica, era pastor. Muitos contactos pastorais que tive, tive-os graças ao exercício da função científica: era ao organizar uma exposição, no final de uma conferência, que vinha uma pergunta, um contacto, a necessidade de uma conversa mais profunda que depois abria caminho para a vida pastoral. Penso que não há divisão e procurei nunca criar essa dicotomia, sempre a atitude pastoral deve ser a de um padre e, também muito mais, a de um Bispo. E – Essa dicotomia existe entre uma cidade como o Porto, de onde é natural, e Lisboa? DCA – Aqui há mais diferenças, as cidades portuguesas são todas muito diferentes e Lisboa tem a sua idiossincrasia natural, mas há que adaptar-se e uma capacidade de adaptação vai havendo. Já lá estive também, embora o contacto pastoral não fosse muito frequente. Há uma energia pastoral bem vincada que me agrada, há horizontes pastorais bem delineados, que também vai de acordo com o meu gosto de trabalhar. Os leigos empenhados são-no de alma e coração, há talvez mais clareza de quem anda na Igreja e quem não anda, o que também é bom para a missão que é necessário fazer de evangelização e de consciência bem viva de que é preciso anunciar aos outros o que nos aquece o coração. E – Já foi responsabilizado por algumas tarefas pastorais em concreto no Patriarcado? DCA – Isso ainda será para a próxima semana, depois da assembleia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), mas em princípio ficarei com a zona do termo da cidade de Lisboa – Amadora, Sintra, Cascais, Estoril, Oeiras, etc. Quanto a tarefas, talvez os jovens, – o Cardeal-Patriarca já deu algumas indicações nesse sentido, o sector dos jovens de toda a Diocese -, mas ainda dependerá das eleições da CEP. E – Também aí poderá haver novidades? DCA – Em princípio um dos Bispos Auxiliares de Lisboa deverá ser o próximo secretário-geral da CEP e é natural que um dos novos assuma essa função, ou D. Anacleto ou eu. Quem o fizer, ficará mais livre de tarefas na Diocese de Lisboa para poder servir no secretariado. E – D. Carlos fazia uma grande ponte, no Porto e em todo o país, com a cultura, com os homens e mulheres da cultura. Será fácil manter essa relação no Patriarcado? DCA – Curiosamente, sempre tive bons contactos culturais, sobretudo a nível da arte, com gente de Lisboa, até com directores de museus, com gente ligada à conservação e restauro, com esse mundo ligado à arte. Por isso, não é um terreno estranho, tenho lá muito bons amigos e é um campo que está aberto para possíveis iniciativas comuns, de colaboração. Aliás, tenho recebido cartas e as pessoas ao felicitarem, desejam que haja uma continuidade, na nova missão, com esse trabalho prévio. E – Também é um desejo de D. Carlos? DCA – É evidente. Se puder vir a estar implicado no sector do Património, darei o meu contributo para que haja pontes fáceis com este mundo onde tão urgente se torna estar presente. E – E na vida académica, permanecerá? DCA – Sim, o director da Faculdade de Teologia, Pe. Peter Stilwell, já me convidou para no próximo ano dar uma cadeira , que será por certo algo de leve, mas terei todo o gosto em continuar o contacto com os alunos e a investigação. E – Qual é a atitude que a Igreja deve promover para conseguir dialogar com o mundo da cultura e com a sociedade de hoje? DCA – É uma atitude de diálogo e de escuta, porque geralmente o mundo da cultura e o da arte é muito sensível ao tempo. Se nós conseguirmos captar a forma como esse mundo vai vivendo, conseguimos perceber melhor quais são os tempos próximos, porque geralmente vão um pouco à frente. Para a Igreja é fundamental conviver com as pessoas e as áreas da cultura para poder perceber o tempo em que estamos e responder com linguagens e expressões que condigam e sejam captadas por este mundo, por esta nova cultura, porque estas novas culturas são muito rápidas. É preciso encontrar sempre as formas e as linguagens para que a mensagem possam ser transmitidas e a mensagem é transmitida pela beleza – isso tem sido esquecido -, não apenas pela verdade da palavra nem pelo bem, a bondade. A beleza é a da forma, não só das expressões artísticas, mas também literárias, e é preciso cuidar muito da forma – não o formalismo – porque a beleza da forma também fala de Deus e fala hoje pela estética. E – É esse o segredo da Nova Evangelização de que se fala? DCA – É preciso estar presente, usando esses recursos das linguagens e das expressões, para marcar pela diferença. Às vezes hoje pode dizer-se que há uma certa indiferença perante Deus ou o sentido de Deus, mas se há indiferença é porque se perdeu a diferença. Quando formos diferentes, não por gosto do contratempo, mas pelo assumir credível do testemunho, isso não deixará as pessoas indiferentes, haverá evangelização, haverá quem nos venha perguntar as razões da nossa esperança, da nossa alegria, da nossa paz. Então podemos comunicar e passar o testemunho da nossa fé. É necessário sermos construtores, cada um a seu nível, segundo as diferentes sensibilidades. Ao longo da história da Igreja, aquilo que fez gerar cristãos foi o testemunho, não foi outra forma, não é nem a importância nem o peso aparente, mas é a realidade do testemunho. As formas de vida das comunidades cristãs é que serão o grande apelo para que se formem novas gerações, no nosso tempo. Extractos desta entrevista serão apresentados no programa ECCLESIA, da :2, no próximo dia 5 de Abril, pelas 18h00
