Filme de Ridley Scott reabre discussão O tema das Cruzadas volta a estar na ordem do dia com a obra “O Reino dos Céus” assinada por Ridley Scott e recém-chegada aos ecrãs de cinema portugueses. Revisitar a história medieval com os olhos do séc. XXI é particularmente arriscado quando se fala da luta entre os Cristãos e os Muçulmanos na Terra Santa – o 11 de Setembro não foi assim há tanto tempo. A solução mais habitual, nestas situações, é apresentar uma civilização islâmica muito avançada e os Cristãos como seres violentos e sanguinários, especialmente a Ordem dos Templários. As Cruzadas surgiram num tempo de “Chritianitas”, em que a supremacia do Papa e da Igreja dava ao Ocidente um ideário comum que nenhuma ideologia lhe conseguia oferecer. Neste contexto, as Cruzadas eram não só expedições militares, mas religiosas, em que milhares de pessoas partiam para seguir Jesus, libertando Jerusalém e os Lugares Santos do “jugo” do Islamismo. Estes soldados eram conhecidos pelas cruzes cozidas sobre o ombro direito, primeiro de cor vermelha, mais tarde de cor diferente para cada país. Os monarcas do Ocidente aderiram a estas iniciativas militares, em parte, motivados pelo terror que causava o avanço do poder turco, prestes a invadir a Europa. As indulgências concedidas pelos Papas, numa altura em que o espectro da morte dominava a curta vida das populações também fez alistar muita gente. Urbano II, Papa com o qual as Cruzadas atingiram o seu auge, “incitava à guerra contra os inimigos de Deus todos aqueles que eram capazes de pegar em armas e, em virtude da autoridade que lhe vem de Deus, absolvia dos seus pecados todos os penitentes a partir do momento em que pegavam na cruz”. Apesar de ser uma iniciativa papal (alguns reis promoveram, também, as suas “cruzadas” com outros interesses), hoje em dia o mundo islâmico recorda com muito mais vivacidade estes acontecimentos, o que ajuda a compreender a imagem difundida da violência e da mortandade. O acontecimento que fez rebentar a Primeira Cruzada, contudo, não foi nenhum desejo imperialista, mas a conquista turca de toda Ásia Menor de 1070 a 1090. O Papa Urbano II em 1095 agiu em resposta a um urgente pedido ajuda do imperador de Constantinopla e apelou aos cavaleiros da Cristandade para que acudissem a ajudar seus irmãos do Oriente. Segundo relatos da altura, “Urbano II fez, com grande riqueza de pormenores, uma descrição comovedora da desolação da Cristandade no Oriente e expôs os sofrimentos e a opressão atrozes que os sarracenos infligiam aos cristãos”. O saque a Jerusalém, em 1099, foi verdadeiramente sangrento e, obviamente, uma presença muito pouco cristã na Terra Santa. A verdade é que este momento marcou o declínio das Cruzadas, com os soldados a dedicaram-se a fins poucos religiosos, como expoliar, pilhar e queimar – por isso mesmo, nenhuma Cruzada teve o êxito militar da primeira. As abordagens que se têm feito às Cruzadas pecam por centrar-se nestes últimos elementos e esquecer toda a motivação, coragem e fé que levou milhares de homens a terras e lugares tão longínquos num tempo muito mais difícil do que o nosso. Há, portanto, uma série de erros historiográficos comuns sobre as Cruzadas e sobre os cruzados. Em primeiro lugar, defende-se que as Cruzadas eram guerras provocadas contra um mundo muçulmano pacífico. Conforme se referiu, contudo, em finais do século XI as forças islâmicas haviam conquistado o coração do mundo cristão e muitos territórios europeus(incluindo uma longa passagem pela Península Ibérica). Os monarcas do Ocidente viram nas Cruzadas, de facto, uma hipótese de se defenderem de forma organizada, para não sucumbir à conquista islâmica. Outro erro comum é pensar que eram os mais desfavorecidos que partiram, à procura de conquistar novas terras. A verdade é que muitos senhores feudais e seus primogénitos (muitas vezes empurrados por monarcas que se queriam ver livres deles) responderam ao apelo do Papa em 1095 e à consequente Cruzada. Partir numa Cruzada era uma operação muito dispendiosa e muitos senhores eram mesmo obrigados a vender os seus próprios bens. Além disso, após os êxitos militares da primeira cruzada, com a conquista de Jerusalém e de grande parte da Palestina, praticamente todos os cruzados voltaram para casa. Quanto aos Estados cruzados, estes não eram colónias no sentido moderno da palavras, mas estados militares que tinham a finalidade de defender os lugares santos na Palestina, especialmente Jerusalém, e proporcionar um ambiente seguro para os peregrinos cristãos que visitavam a Terra Santa.
