Moçambique: «Muitas pessoas ficaram três dias em cima de árvores para sobreviver» – Carlos Almeida

A dimensão da tragédia em Moçambique ganhou ainda mais visibilidade depois de o Papa Leão XVI se ter referido, na última audiência geral, às vítimas das inundações devastadoras. Na sua última avaliação, Moçambique aponta para 644 milhões de dólares de prejuízos provocados pelas cheias, nomeadamente ao nível de infraestruturas destruídas e afetadas pelas inundações. As províncias de Maputo, Sofala e Gaza são as mais afetadas e a Organização Não-Governamental Helpo, com intervenção em Moçambique desde 2008, já lançou um plano de ação para apoio às vítimas das cheias nas áreas geográficas onde trabalha na província de Maputo.  Carlos Almeida, Coordenador Nacional da HELPO em Moçambique, é o convidado deste domingo da Renascença e da Agência ECCLESIA

Foto: Carlos Almeida/Helpo

Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

A HELPO tem o seu foco principal na educação, e já vamos a essa questão, mas antes queria que a partir do terreno e dos locais por onde passou nos últimos dias nos pudesse descrever a atual situação?

Efetivamente, a HELPO tem o seu foco sempre na educação, apesar de também termos projetos na área da nutrição materno-infantil e, na verdade, nesta situação das cheias, a intervenção que estamos a ter é numa das zonas menos afetadas, ou seja, nós estamos a focar a nossa intervenção apenas na cidade de Maputo. E quando dizemos que são as zonas menos afetadas não significa que nestes jovens estudantes e nas suas famílias este impacto não seja devastador.

Por exemplo, aquilo que nós decidimos fazer, que também tem a ver um bocadinho com a gestão dos poucos fundos que temos disponíveis neste momento para estas situações de emergência, foi contactar os 1.034 beneficiários que estão na cidade de Maputo.  A maior parte deles são bolseiros do ensino secundário, 34 são bolseiros do ensino superior e nós contactámos todos aqueles que conseguimos. Alguns não conseguimos fazer esta ligação, mas conseguimos perceber que sete deles perderam as suas casas; são casas de construção precária, que com as chuvas e com as inundações acabam por cair. Muitos deles tiveram dificuldades menores, mas mesmo as dificuldades menores criam um impacto muito grande nas suas vidas. Por exemplo, ficar vários dias com água à altura da canela significa ter a mobília toda destruída, ter que dormir em cima de mesas. As pessoas tiveram mesmo dramas muito grandes e a nossa consciência também nos diz que estas não são as pessoas mais afetadas, porque na realidade, sobretudo na região de Gaza, na província de Gaza, cuja capital é Xai-Xai, o drama é muito maior, temos ainda informações de pessoas que estão em cima de árvores, em cima de casas, com enormes dificuldades e aí o drama é muito maior.

Eu esta manhã ouvi que a área que está inundada em Moçambique são 10 mil quilómetros quadrados e para nós termos um bocadinho noção do que isto é, significa duas vezes a área total do Algarve, são as áreas que estão inundadas. Ontem também ouvi outro número, que é um dado importante, que o número de quilómetros de estradas que estão inundadas ultrapassa os mil quilómetros, creio que são mil e trezentos quilómetros de estradas que estão inundadas, inclusive a estrada nacional número um, que é a coluna vertebral do país, e que está cortada e prevê-se que a sua reabilitação ainda demore duas semanas, ou seja, o país neste momento está todo a sofrer com este problema muito grande no sul. Por isso nós já estamos habituados, infelizmente, em Moçambique, a lidar com estes fenómenos climáticos, nos anos anteriores, e sobretudo no ano passado foi extremamente devastador aqui no norte de Moçambique, com três ciclones muito grandes, em Nampula e em Cabo Delgado. Este ano ainda não tivemos nenhum problema com ciclones, mas as cheias no Sul estão a ser dramáticas.

 

 

As autoridades e algumas instituições da sociedade civil e eclesial têm alertado para a possibilidade de o pior ainda estar para vir, porque muitas das culturas foram agora destruídas por estas cheias. É mesmo um problema acrescido? Sei que teve oportunidade de sobrevoar a região mais afetada nas últimas horas, e pode talvez até descrever-nos aquilo que viu?

Sim, realmente é arrepiante, apercebermo-nos de que, quando estamos a sobrevoar esta região de Gaza, nos arredores de Xai-Xai, nesta bacia hidrográfica do rio Limpopo, apercebermo-nos de que aquilo que normalmente é um rio, neste momento é uma lagoa gigantesca. Isso tem repercussões dramáticas na vida destas pessoas para todo o ano, não é só agora neste momento ter perdido tudo e estar numa situação de grande fragilidade, é na verdade o futuro próximo que está hipotecado porque as suas terras, que permitem a sua sobrevivência, estão debaixo de água e vamos ter problemas muito grandes. Ainda há um outro problema que ciclicamente se fala, mas felizmente até ao momento ainda são só boatos, que é o facto de a montante dos rios, as barragens na África do Sul estarem no limiar das suas capacidades e já se falou da possibilidade de uma rutura de uma barragem na África do Sul, mais a sul, cujos rios passam em Ressano Garcia, e há esse receio também de haver colapso das barragens e isso vir a provocar ainda mais dramas. Depois brevemente vamos falar de outras questões ligadas a outras doenças, como por exemplo a cólera, que sempre que há águas estagnadas sabemos que há problemas muito grandes. Por isso os dramas das cheias não se ficam só por este momento; infelizmente ainda se vão prolongar no tempo, certamente.

 

 

Tem tido a oportunidade de falar de situações no passado, já não é a primeira situação que acompanha em Moçambique com este tipo de catástrofe natural, e pergunto em relação a acontecimentos anteriores, que foram também muito impactantes, há uma evolução no país em nível da prevenção e da minimização do impacto?

Sim, o Instituto Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (INGD) está a trabalhar muito melhor do que estava há alguns anos, em primeiro lugar na prevenção. Nós inclusive a HELPO teve um projeto, e que está neste momento a finalizar, em parceria com o INGD de Nampula, e por isso estamos bem por dentro destes processos. O nosso papel nesse projeto, que era financiado pelo Instituto Camões, pelo Estado português, era de apoiar o INGD na formação dos comités locais, ou seja, a comunicação funciona em dois sentidos, a nível central são lançados estes avisos, e neste momento funcionam avisos por SMS, por WhatsApp, as pessoas recebem avisos constantes, e neste momento estão alerta para estas situações, no passado não foi assim, recordo-me perfeitamente quando em 2019 os avisos que foram feitos em relação ao evento do Ciclone Idai foram, por grande parte da população foram ignorados, e hoje em dia as pessoas não ignoram esses avisos.

 

Já estão mais recetivas?

Sim, são completamente recetivas, mas também é verdade que o INGD está a trabalhar muito melhor nestas capacitações.

 

Mas ainda assim, Carlos, este tipo de fenómenos precipita por vezes a descoordenação. Ao nível do Estado são visíveis essas melhorias?

Eu creio que sim, mas permita-me sublinhar que nós não estamos a trabalhar nas zonas mais necessitadas, por isso na prática neste momento não estamos a acompanhar, mas aquilo que vimos do passado, por exemplo, no ano passado os três ciclones que aconteceram aqui no norte do país, pudemos apercebermos que a capacidade de resposta melhorou. Eu recordo-me sempre que quando acontecem estes eventos gravíssimos, e recordo-me sempre que, salvo erro, em 2006 o Katrina atingiu New Orleans, nos Estados Unidos, e o drama foi gigantesco, e a resposta não foi boa. Quando nós esperamos de um país como os Estados Unidos, que as coisas funcionem bem, os problemas estão sempre à porta. Agora, o INGD está muito mais bem preparado, eu creio que o Estado moçambicano está melhor preparado para estes eventos, também é verdade que as populações, quando têm pouco, ficam agarradas às suas situações, e eu não estou a ver as pessoas abandonarem as suas casas quando lhes dizem que pode acontecer algo dramático. Ou seja, há muitas pessoas que optam por ficar, também porque não têm condições financeiras para o fazer, e não têm condições de segurança, mas a informação que nós recebemos é que a subida das águas foi repentina, as pessoas, mesmo apesar dos avisos, não esperavam que fosse assim tão grave, mas na verdade, voltando à questão que me foi colocada, acredito que neste momento Moçambique está mais bem preparado para este tipo de eventos.

 

Foi uma situação que se vem agravando significativamente nas últimas semanas. Eu pergunto se há uma noção, já falámos um bocadinho disso, das principais necessidades e das prioridades da ação da HELPO neste momento, por exemplo, e que apoios é que a HELPO tem para acudir a essas necessidades?

Nestas situações, aquilo que nós já sabemos, quando há situações de cheias, a grande prioridade e a grande necessidade são as questões de segurança alimentar. Por exemplo, na cidade de Maputo, há poucas pessoas a terem acesso a machamba, ou seja, não têm um espaço cultivável que lhes permita ter alimento em suas casas, mas sabemos que fica muito difícil quando as pessoas têm infiltração, quando perderam os seus bens de primeira necessidade e com pouco dinheiro é difícil fazer essa gestão. O nosso foco prioritário é a entrega de alimentação para estas famílias mais necessitadas.

Em segundo lugar, algo que nos preocupa muito é a questão da educação. Ontem também foi dada uma notícia que o arranque do ano letivo, que estava previsto para esta sexta-feira, o dia 30 de janeiro, foi adiado para o final do mês de fevereiro, ou seja, para 27 de fevereiro, em todo o país e não apenas nas províncias afetadas. Ou seja, o arranque do ano letivo vai sofrer um atraso de um mês em todo o país, mas nós também sabemos que nestas famílias mais carenciadas o facto de terem neste momento necessidades acrescidas pode significar, em alguns casos, que as crianças deixem de estudar, porque o simples facto de terem que pagar o equivalente a 10 euros como propina já não vai acontecer. O facto de terem que comprar novo material escolar, novo uniforme escolar, pode ser um entrave para a continuidade destas crianças e destes jovens na escola. Por isso, o nosso foco também é, dentro destes jovens que nós estamos a apoiar, dar um reforço escolar.

Depois, o terceiro pilar que nós estávamos a desenhar nesta intervenção, mas depende da nossa campanha de recolha de fundos, saber como vai decorrer, é perceber nas escolas que nós apoiamos, e são 11 escolas secundárias da cidade de Maputo, sendo que algumas dessas escolas são escolas comunitárias que pertencem à Igreja Católica, como ainda há bem pouco tempo estive em reunião com o arcebispo de Maputo, o D. João Carlos Nunes, a falar sobre esta situação. As escolas pertencem à Igreja Católica, apesar de não estarem a ser geridas, neste momento, pela Igreja Católica, mas nós pretendemos também perceber os danos que foram causados e, caso os fundos recolhidos o permitam, fazer uma intervenção também nessas escolas.

Por isso, em primeiro lugar, segurança alimentar, dar alimento a estas famílias. Em segundo lugar, reforço de material escolar e, em terceiro lugar, o apoio na reconstrução das escolas danificadas.

 

O Carlos Almeida faz a coordenação da HELPO, em Moçambique, a partir de Pemba, região de Cabo Delgado, muito afetada pelo terrorismo islâmico. Há relatos recentes de novos episódios associados ao terrorismo?

Sim, infelizmente, é uma situação que não tem tido abrandamento. Tem havido novas regiões a serem afetadas. No final do ano passado, houve uma série de ataques mais a sul, já na província de Nampula, e isso demonstrou ser uma alteração significativa, porque estes grupos, que não se sabe muito bem o seu número, têm causado o terror, sobretudo na região mais a norte da província de Cabo Delgado, mais perto da fronteira com a Tanzânia, mas as suas deslocações, os seus ataques a aldeias, continuam de forma recorrente e é um problema …

 

Continua, então, a haver movimento de deslocados, não é?

Sim, porque depois o que acontece é, quando foi, no final do ano passado, esta situação na província de Nampula, nos distritos de Erati e de Memba, houve muitas deslocações, porque as pessoas veem as suas aldeias a serem atacadas, ou perto das suas aldeias, e optam por fugir. E são sempre dramas que duram duas, três semanas, e são problemas muito grandes. Por isso, esta questão de Cabo Delgado, infelizmente, está longe de estar resolvida.

A cadência de informação de pequenos ataques, de avistamentos, de movimentações, é quase diária. Felizmente, aqui na capital da província, em Pemba, não tem havido nenhuma situação, mas estamos muito atentos e muito preocupados com esta situação de deslocamento. Inclusive, os vários projetos que a HELPO desenvolve são, sobretudo, nas regiões mais a sul, onde praticamente não tem havido eventos.

Por várias vezes, já fomos convidados para fazer projetos mais a norte, nos distritos mais afetados, como, por exemplo, Macomia, Melu, Mocímboa da Praia, Nangar, Palma, mas temos rejeitado, porque temos sempre esse princípio que não mandamos – eu não mando colegas meus trabalhar para sítios onde eu próprio não me sinto com segurança para ir trabalhar.

 

Para finalizar gostaríamos de apontar, na medida do possível ao futuro. Os bispos moçambicanos, numa mensagem recente, sublinhavam que as cheias de que temos falado exigem reconstruir casas, mas também reconstruir relações.  É preciso olhar para o desafio de curar o trauma destas comunidades que vivem sob um medo cíclico de perder tudo?

Essa frase diz-me muito, porque em 2014 tivemos umas cheias aqui em Pemba, na cidade de Pemba, e a casa-escritório onde a HELPO tinha as suas equipas instaladas na altura sofreu muito. Nós perdemos quase tudo que tínhamos no armazém, a água chegou praticamente aos nossos ombros, eu sou relativamente alto, ou seja, muita água mesmo. Felizmente, na noite desse evento, eu não estava em casa, estava a minha colega diretor de programa na altura, a Sílvia Nunes, e recordo-me que no ano seguinte, quando começou a temporada das chuvas, qualquer pequena chuva, a minha colega ficava instável, com vontade de chorar, porque aquilo foi uma situação mesmo muito grave.

E estamos a falar de nós que somos os privilegiados, porque as coisas danificam-se nós conseguimos mais facilmente reconstruir. Quando estamos a falar de pessoas que perdem os seus entes queridos, os seus familiares a situação é outra. Recordo-me sempre também, em 2019, no idai, em que a HELPO fez um apoio muito grande junto com a diocese do Chimoio, nós trabalhámos na missão de Dombe, onde muitas pessoas tinham ficado três dias em cima das árvores para sobreviver, e essas pessoas ficam com traumas para toda a vida, com feridas que muitas delas demoram muito tempo a sarar. E sem dúvida essa frase diz muito, é preciso reconstruir as casas, é preciso rezar para que o terreno volte a ser fértil, mas dentro do coração das pessoas fica também muita ferida que demora a curar. Uma das formas que nós temos sempre de ultrapassar isso é receber ajuda e dar ajuda a quem mais precisa e tentar caminhar com o sentido de dever cumprido, ou pelo menos de tentativa de dever cumprido.

 

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