Migrações: «Mesmo que haja um poder político a gritar em sentido contrário, a integração acontece na mesma» – Pedro Góis

Professor e diretor científico do Observatório das Migrações acredita que a educação é o caminho para a integração social e encontra nos Evangelhos os «desafios» para a construção humana em sociedade 

Foto Agência ECCLESIA/HM, Pedro Góis

Lisboa, 17 dez 2025 (Ecclesia) – Pedro Góis, professor e diretor científico do Observatório das Migrações, afirmou que a “polarização” é uma “tática política” para “desconstruir a coesão social”, que importa não esconder a “realidade positiva e negativas” e que a integração “vai acontecer”.

“O discurso polarizado é uma tática política apenas para desconstruir a coesão social, criando a necessidade de um herói avulso para vir resolvê-la. Sensatamente, se pensarmos um pouco sobre isso, percebemos que não é uma solução. Quanto à integração de quem chega, é um processo. É um processo que para algumas pessoas vai acontecer mais rapidamente e para outras vai ser um processo muito lento, quer para quem chega como para quem acolhe, e até algumas que não se vão adaptar. Mesmo que haja um poder político a gritar em sentido contrário, a integração acontece na mesma”, explica à Agência ECCLESIA.

Pedro Góis indica ser importante “mostrar o lado positivo – porque é extremamente maioritário”, mas também mostrar o lado negativo porque, explica, “ele existe e não devemos escondê-lo nem censurá-lo”.

“Obviamente que quando recebemos um milhão de migrantes, nem todos serão integráveis da mesma maneira, nem todos serão positivamente contribuintes para a sociedade portuguesa. O ponto aqui mais importante é não discriminarmos em função da sua origem, mas discriminarmos em função dos atos cometidos. Português ou um outro qualquer, o mesmo crime, a mesma lei aplicável”, sublinha.

O responsável sublinha a necessidade de comunicar o que a academia reflete e diagnostica no tema migratório, e salienta que o Observatório tem procurado “a educação” como caminho de transformação.

“Hoje escrever um artigo significa chegar a 20 ou 30 pessoas, e fazer um vídeo no ‘TikTok’ significa chegar ao 20 ou 30 mil, só que este vídeo não consegue passar uma mensagem positiva, mas mensagens negativas contribuindo para influenciar a própria realidade que estamos a estudar. No caso da Europa, criou esta perceção dos migrantes como algo de negativo, que vamos demorar algum tempo a conseguir normalizar”, explica

O responsável acredita ser a educação, a “inscrição nos manuais de ensino básico e secundário”, o colocar as crianças e jovens em contacto com “temas do seu tempo”, e procurar que a mensagem de integração “chegue aos grandes média” o caminho para a normalização.

Convidado a olhar o seu percurso, Pedro Góis recorda a pergunta cimeira que o levou à Sociologia e, cedo, ao estudo das migrações.

“A sociedade tinha tudo para correr mal e há uma pergunta da sociologia inicial que é o que torna a sociedade possível? De que forma é que nós nos conseguimos organizar, sete, oito bilhões de pessoas e pôr um mundo a funcionar? Porque o mundo funciona, tem muitos problemas, mas funciona. Como é que nós conseguimos, nestes desencontros de línguas, de culturas, de saberes, ainda assim funcionar socialmente?”, questiona.

O investigador persegue depois outras perguntas que se abrem: “Porque é que não acabamos com a pobreza? Porque é que a exclusão ainda é devida à raça ou à cor da pele? Porque é que ainda há tanta diferença de género pelo mundo fora? Como é que as classes sociais são hoje herdadas de pais para filhos e de avós para netos ou até para bisnetos e não conseguimos resolver a pobreza absoluta de algumas populações numa época de abundância? Como é que nós gastamos tanto a fazer para tão poucos e não temos essa capacidade?”, explana.

Investigador e professor universitário explica que o fenómeno das migrações se refere a pessoas concretas e recorda o espaço da sala de aula como o encontro de diferentes sensibilidades.

“Quando foi a invasão da Rússia à Ucrânia, eu tinha estudantes ucranianos e estudantes russos, e foi um momento muito impactante em sala de aula, porque as alunas russas estavam na primeira fila a chorar, e as alunas ucranianas estavam nas últimas filas muito inquietas com tudo o que estava a acontecer. O mundo estava ali, não era algo que estávamos a acompanhar na televisão”, recorda.

Pedro Góis reconhece que as migrações são um tema “polarizado” na sociedade nos últimos anos mas que importa “ser sério” na observação da realidade e “estar disponível a alterar a visão do mundo”.

“A integração não é perfeita, na maior parte das vezes tem sido até demasiado imperfeito, o que nos deixa espaço para melhorar, para propormos soluções para que as políticas públicas, mas também a integração social no seu todo, possa acontecer”, indica.

Na conversa com o investigador e professor na Universidade de Coimbra recordamos o conhecimento de “Cabo Verde” antes de ter viajado à ilha, o acolhimento que recebeu enquanto estudante no Bairro 6 de Maio, a marca dos “últimos Papas todos eles imigrantes” e os desafios que “os Evangelhos a cada semana lançam” para a construção social.

Pedro Góis é o convidado do programa ECCLESIA emitido pouco depois da meia-noite na Antena 1, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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